A Microsoft Japan fez um experimento: durante o mês de agosto de 2019, eles estabeleceram semanas úteis de quatro dias, dando a sexta-feira de graça para o trabalhador. Recentemente, eles publicaram os resultados, e a internet não consegue parar de falar deles. Tem brasileiro tuitando:

Tem americano tuitando:

Tem até gamer tuitando:

Nossa! Mais folga pro trabalhador e mais resultado pra empresa! É o sonho de todo mundo. Mas vamos com calma: de onde veio essa notícia? O que foi que a Microsoft disse, realmente?

A fonte mais "original" que eu consegui é do NikkeiBP XTech, um site de notícias sobre tecnologia e negócios. Ele fala sobre os resultados, que estão todos convenientemente concentrados neste slide, comparando o mês de agosto/2019 com o mês de agosto dos anos anteriores:

O slide está dividido em três colunas: 削減 (cortes), 向上 (melhoria) e 満足 (satisfação). Cada coluna possui parâmetros enumerados de A a K, então vamos falar sobre cada um deles em ordem:

  • [A] Número de folgas requisitadas no mês caíram 25.4%; Uma boa parcela das folgas requisitadas por funcionários existe para resolver problemas da vida adulta que só podem ser resolvidos em dias úteis (banco, médicos, advogados, etc.) Naturalmente, se todo mundo tem a sexta de folga, fica mais fácil se programar pra aproveitar a sexta pra fazer os corres. Mas é surpreendente que essa porcentagem não é MAIOR - mesmo com quatro folgas extras por mês, a grande maioria das folgas continuou sendo requisitada. Óbvio que esse número nunca chegaria a zero (por causa de folgas por motivos de saúde, pra começo de conversa), mas redução de apenas 25% nas folgas parece muito baixo.
  • [B] Consumo de papel no mês caiu 58,7%; É aqui que começam meus problemas com esses resultados. O gráfico mostra que o consumo de papel na Microsoft vem caindo constantemente ano a ano, e eles comparam o consumo de papel em 2019 com o consumo de papel em 2016 para chegar a esse número. Se não houvesse o fim de semana de três dias, é possível que o consumo de papel ainda teria caído. Não estou convencido.
  • [C] Consumo de energia no mês caiu 23.1%; Agosto teve 22 dias úteis e 5 sextas-feiras. 5/22 = 22.7%. Naturalmente, se o seu escritório funciona em apenas 77% do tempo, não é de se espantar que ele consuma 77% da energia. Mesmo com equipamentos que ficam ligados constantemente, como servidores e roteadores, o grosso da energia é consumida por equipamentos que só estão ligados quando o escritório está funcionando (luzes, computadores, impressoras, etc.) Mas vá lá, é um resultado válido.
  • [D] Produtividade aumentou 40%; Eles usam o termo 労働生産性 (roudouseisansei) que literalmente significa "produtividade da força de trabalho". Segundo os parênteses, ele é calculado como "vendas/funcionário", e medido em ienes/pessoa. O aumento é medido em relação ao ano anterior, e parece impressionante, mas todos os anos antes dele também tiveram aumentos proporcionais expressivos. Mais uma vez, difícil afirmar sem os números crus, mas a tendência dos anos anteriores indica que o crescimento seria mais ou menos nessa faixa, com ou sem fim-de-semana prolongado. Mas ainda é um ótimo argumento a favor dele; não porque ele AUMENTA a produtividade, e sim porque ele NÃO IMPACTA a produtividade.
  • [E, F, G] Aumento em número de reuniões de 30 minutos (+46%), reuniões "remotas" (+21%) e "networking" (+10%); A estrutura do slide dá a entender que a Microsoft acredita que o aumento da produtividade está relacionado a estes fatores. Ou seja: com um dia a menos na semana, os funcionários tiveram que "espremer" mais reuniões no calendário e fazer mais calls, e a história aqui é que isso não impactou no resultado delas. Mas é uma métrica ruim: se uma reunião de 1 hora é dividida em três reuniões remotas e menos eficientes de 30 minutos, as métricas vão subir sem afetar a produtividade. O que seria interessante saber aqui é se o tempo total gasto em reuniões diminuiu, mas isso é algo que não sabemos.
  • [H] 92.1% dos respondentes "gostaram" da medida, versus 7.9% de respondentes que "não gostaram" ou "são indiferentes". Esta é uma informação muito importante: caso os funcionários tivessem que espremer reuniões pra caber na semana, eles poderiam ter ficado estressados ou estafados, sem conseguir aproveitar a folga que ganharam. Mas parece que a esmagadora maioria das pessoas gostou da medida, então não deve ter sido o caso. E eu de fato me surpreenderia se as pessoas não tivessem gostado de fim-de-semana prolongado.
  • [I, J, K] Como você gastou o seu tempo livre? Não há muito o que comentar. Trabalho voluntário, família, estudos, lazer, etc.

O que eu queria ressaltar com este post é o exagero da narrativa em cima desta ação. O projeto não foi responsável por um aumento de 40% da produtividade e queda de 60% do consumo de papel - ambas as coisas teriam acontecido em intensidades similares, com ou sem as sextas livres. O que o projeto nos mostra é que dá pra reduzir a maioria das reuniões pela metade, economizar tempo de trânsito fazendo calls pela internet, e ainda assim obter os mesmos resultados - reduzindo o consumo de energia no escritório e aumentando a qualidade de vida dos funcionários.

Um último ponto: a Microsoft convenientemente não colocou as estatísticas de hora extra na apresentação, e eu estou muito curioso para saber como elas performaram no período. 👀