<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:media="http://search.yahoo.com/mrss/"><channel><title><![CDATA[Arara.me]]></title><description><![CDATA[Uma coluna semanal sobre anime, mangá e o mercado brasileiro]]></description><link>https://arara.me/</link><image><url>https://arara.me/favicon.png</url><title>Arara.me</title><link>https://arara.me/</link></image><generator>Ghost 5.22</generator><lastBuildDate>Sat, 25 Apr 2026 12:49:06 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://arara.me/rss/" rel="self" type="application/rss+xml"/><ttl>60</ttl><item><title><![CDATA[Traduzindo Hokuto e Nanto]]></title><description><![CDATA[Hokuto não é a Estrela do Norte, e não é a Ursa Maior. Não exatamente. E Nanto não é o Cruzeiro do Sul. Nem a Ursa Menor.]]></description><link>https://arara.me/traduzindo-hokuto-e-nanto/</link><guid isPermaLink="false">69b2c6b0a70e830001df24ce</guid><category><![CDATA[Artigo]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Fri, 13 Mar 2026 04:24:18 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2026/03/stars-Ursa-Major-Big-Dipper-1420840621-2.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2026/03/stars-Ursa-Major-Big-Dipper-1420840621-2.jpg" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto"><p>Em <em>Hokuto no Ken</em>, h&#xE1; duas escolas de artes marciais em oposi&#xE7;&#xE3;o - a escola do Hokuto Shinken (&#x5317;&#x6597;&#x795E;&#x62F3;) e a escola do Nanto Seiken (&#x5357;&#x6597;&#x8056;&#x62F3;), no japon&#xEA;s original.</p><p>Eu passei mais tempo da minha vida deliberando sobre como localizar esses termos. Eu n&#xE3;o cheguei a nenhuma conclus&#xE3;o definitiva (nenhuma pergunta que mere&#xE7;a ser investigada a fundo tem uma &#xFA;nica resposta, <em>anyway</em>), mas aprendi muito no caminho - e com a nova s&#xE9;rie de Hokuto no Ken a caminho, pode haver mais gente interessada em saber.</p><p>O nome da s&#xE9;rie (Hokuto no Ken) tem dois sentidos &#xF3;bvios. Em kanji, &#x5317;&#x6597;&#x306E;&#x62F3; significa literalmente &quot;Punho de Hokuto&quot;, mas Ken tamb&#xE9;m &#xE9; o apelido do protagonista, ent&#xE3;o tamb&#xE9;m pode ser lido como &quot;Ken, o Cara de Hokuto&quot; ou algo assim. Foi essa interpreta&#xE7;&#xE3;o que levou os franceses e os italianos a traduzirem o nome da s&#xE9;rie para &quot;Ken le Survivant&quot; ou &quot;Ken Il Guerriero&quot; em seus respectivos idiomas.</p><p>Hokuto (&#x5317;&#x6597;) e Nanto (&#x5357;&#x6597;) s&#xE3;o um pouco mais complicados. &#x5317; e &#x5357; s&#xE3;o, respectivamente, &quot;norte&quot; e &quot;sul&quot;, mas &#x6597; n&#xE3;o &#xE9; exatamente &quot;estrela&quot;, como sugere o t&#xED;tulo em ingl&#xEA;s, Fist of the North Star. &#x6597; tampouco &#xE9; &quot;constela&#xE7;&#xE3;o&quot;, pelo menos n&#xE3;o no sentido da palavra com a qual todos n&#xF3;s brasileiros estamos acostumados.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2026/03/ursamajor_stars-_1_na3zj8-1871276135.jpg" class="kg-image" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto" loading="lazy" width="1920" height="1665" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2026/03/ursamajor_stars-_1_na3zj8-1871276135.jpg 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2026/03/ursamajor_stars-_1_na3zj8-1871276135.jpg 1000w, https://arara.me/content/images/size/w1600/2026/03/ursamajor_stars-_1_na3zj8-1871276135.jpg 1600w, https://arara.me/content/images/2026/03/ursamajor_stars-_1_na3zj8-1871276135.jpg 1920w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>A Ursa Maior. Em amarelo, o asterismo de Hokuto, no formato das sete cicatrizes do Kenshiro. Mas o asterismo n&#xE3;o &#xE9; a constela&#xE7;&#xE3;o.</figcaption></figure><p>Quando falamos de estrelas e constela&#xE7;&#xF5;es, a nossa cultura ocidental est&#xE1; bastante ligada aos conceitos grecoromanos. No s&#xE9;culo II, o fil&#xF3;sofo grego Ptolomeu descreveu 48 constela&#xE7;&#xF5;es em seu livro Almagesto, e esse texto virou a base de tudo que entendemos dos c&#xE9;us hoje em dia. Mas outras civiliza&#xE7;&#xF5;es antigas desenvolveram outros sistemas astrol&#xF3;gicos de modo independente, como a China, a Ar&#xE1;bia e a &#xCD;ndia. Com textos que remontam ao s&#xE9;culo V, e provavelmente inspirados pelos gregos (que provavelmente foram inspirados pelos babil&#xF4;nicos), os chineses desenvolveram um sistema bem diferente. Para entender:</p><ul><li>Segundo a astronomia ocidental, h&#xE1; 88 constela&#xE7;&#xF5;es no c&#xE9;u - 36 no norte e 52 no sul. 12 dessas constela&#xE7;&#xF5;es atravessam o caminho do Sol e formam o que chamamos de Zod&#xED;aco.</li><li>Segundo a astronomia chinesa cl&#xE1;ssica, o c&#xE9;u &#xE9; dividido em 3 fortalezas e 28 mans&#xF5;es. As 3 fortalezas dividem a regi&#xE3;o pr&#xF3;xima do norte polar, enquanto as 28 mans&#xF5;es se alinham com o ciclo lunar (28 dias), e s&#xE3;o utilizadas em adivinha&#xE7;&#xF5;es astron&#xF4;micas da mesma maneira que usamos o hor&#xF3;scopo. As estrelas de cada regi&#xE3;o s&#xE3;o reunidas em asterismos, totalizando 283 objetos celestiais.</li></ul><p>Eis que chega o ponto. O &#x6597; de Hokuto est&#xE1; muito mais ligado com essa concep&#xE7;&#xE3;o chinesa de astronomia do que com a grega/ocidental. &#x6597; n&#xE3;o &#xE9; uma estrela, tampouco uma constela&#xE7;&#xE3;o, e n&#xE3;o se mapeia bem com as constela&#xE7;&#xF5;es ocidentais, porque asterismos s&#xE3;o sempre bem menores.</p><p>Hokuto &#xE9; um asterismo de sete estrelas, em formato de colher, que &#xE9; parte da Ursa Maior e fica na Fortaleza da P&#xFA;rpura Proibida. Como muitos apontaram nos coment&#xE1;rios no BlueSky, ele tamb&#xE9;m &#xE9; chamado &#xE0;s vezes de <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Grande_Carro">Grande Carro</a>. Nanto &#xE9; um asterismo de seis estrelas, bem parecido com Hokuto, que &#xE9; parte de Sagit&#xE1;rio e fica na mans&#xE3;o de Colher. Em alguns textos, esse asterismo &#xE9; chamado de &quot;a chaleira&quot; de Sagit&#xE1;rio.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2026/03/sagittarius-constellation-2824033294.jpg" class="kg-image" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto" loading="lazy" width="1200" height="1200" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2026/03/sagittarius-constellation-2824033294.jpg 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2026/03/sagittarius-constellation-2824033294.jpg 1000w, https://arara.me/content/images/2026/03/sagittarius-constellation-2824033294.jpg 1200w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>A constela&#xE7;&#xE3;o de Sagit&#xE1;rio. O asterismo de Nanto &#xE9; o peda&#xE7;o que inclui Ascella, Nunki, Kaus Borealis e Polis. Polis, pois &#xE9; a ponta da flecha - e &#xE9; por isso que Souther &#xE0;s vezes &#xE9; chamado de <i>Kyokusei (</i>&#x6975;&#x661F;) - a estrela-p&#xF3;lo.</figcaption></figure><p>Ent&#xE3;o como traduzir Hokuto e Nanto?</p><ul><li><strong>Manter os nomes japoneses: </strong>Hokuto e Nanto s&#xE3;o dois termos que assumem v&#xE1;rios significados al&#xE9;m do astrol&#xF3;gico na s&#xE9;rie, e h&#xE1; v&#xE1;rias oportunidades para conectar seus significados aos temas celestiais. Al&#xE9;m disso, s&#xE3;o palavras f&#xE1;ceis de se ler, abreviam significados muito maiores e suas tradu&#xE7;&#xF5;es tampouco possuem significado na cultura nacional.</li><li><strong>Usar Grande Carro/Chaleira: </strong>&#xE9; a tradu&#xE7;&#xE3;o mais astronomicamente precisa existente, embora cause estranhamento &#xE0; primeira vista. N&#xE3;o traz um sentido claro de oposi&#xE7;&#xE3;o como Norte e Sul.</li><li><strong>Usar Ursa Maior/Sagit&#xE1;rio: </strong>nomes familiares, acurado astrologicamente at&#xE9; certo n&#xED;vel, mas tamb&#xE9;m n&#xE3;o traz muito o sentido de oposi&#xE7;&#xE3;o dos originais.</li><li><strong>Usar Estrela do Norte/Estrela do Sul: </strong>&#xC9; a tradu&#xE7;&#xE3;o literal, evita niponismos e deixa mais evidente o significado e a oposi&#xE7;&#xE3;o dos dois termos.</li><li><strong>Inventar nomes completamente novos: </strong>Sempre &#xE9; uma op&#xE7;&#xE3;o, embora qualquer nome completamente novo vai ser automaticamente distante das rela&#xE7;&#xF5;es astrol&#xF3;gicas e culturais existentes.</li></ul><p>Essas s&#xE3;o todas alternativas v&#xE1;lidas, de uma forma ou de outra, dependendo da sua inten&#xE7;&#xE3;o, gosto pessoal e p&#xFA;blico-alvo. Mas a minha predile&#xE7;&#xE3;o leva em conta o fato de que a s&#xE9;rie j&#xE1; acabou h&#xE1; d&#xE9;cadas, e j&#xE1; sabemos tudo que devemos saber sobre ela. E muita coisa em Hokuto no Ken influencia no significado adquirido desses termos.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2026/03/Wuche.png" class="kg-image" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto" loading="lazy" width="1023" height="718" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2026/03/Wuche.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2026/03/Wuche.png 1000w, https://arara.me/content/images/2026/03/Wuche.png 1023w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>O asterismo de Gosha, formado pelas cinco estrelinhas marcadas com os hanzi &#x4E94;&#x8ECA; que comp&#xF5;em um pent&#xE1;gono quase regular. Gosha, apesar de ser Nanto, &#xE9; da constela&#xE7;&#xE3;o de Auriga, e n&#xE3;o tem nada a ver com Sagit&#xE1;rio. Na astronomia chinesa, esse asterismo &#xE9; tradicionalmente ligado aos cinco elementos (fogo, terra, &#xE1;gua, metal e madeira), algo que se traduziu de certa forma na s&#xE9;rie.</figcaption></figure><ul><li>Nanto adquire um segundo termo mais abrangente ao longo da s&#xE9;rie para trazer novos personagens, e &#xE9; dito que Nanto possui &quot;108 sectos&quot; sob ele. Nanto deixa de ser apenas o asterismo que comp&#xF5;e Sagit&#xE1;rio e passa a absorver outros elementos, incluindo toda uma gama de personagens secund&#xE1;rios. Em especial, temos os Nanto Goshasei, um grupo de cinco guerreiros que protegem O &#xDA;ltimo Imperador de Nanto. Gosha (&#x4E94;&#x8ECA;), as &quot;Cinco Carruagens&quot;, &#xE9; um asterismo na mans&#xE3;o de Rede que faz parte da constela&#xE7;&#xE3;o ocidental Auriga e est&#xE1; bem longe de Sagit&#xE1;rio. Isso j&#xE1; quebraria a decis&#xE3;o de usar essa tradu&#xE7;&#xE3;o.</li><li>Quanto a &quot;Estrela do Norte&quot;, al&#xE9;m de n&#xE3;o fazer sentido chamar de singular o que claramente &#xE9; um coletivo, h&#xE1; outros problemas. &quot;Estrela do Norte&quot; &#xE9; o nome comum de Polaris, a estrela polar que sempre aponta para o norte - e Polaris n&#xE3;o &#xE9; parte de Hokuto. Polaris faz parte da Ursa Menor, e Hokuto &#xE9; parte da Ursa Maior. E pra complicar ainda mais a situa&#xE7;&#xE3;o, em Hokuto no Ken 2 surge uma personagem que &#xE9; representada pela pr&#xF3;pria Polaris - a Imperatriz Celestial, tamb&#xE9;m conhecida como <em>kyokusei </em>(&#x5927;&#x6975;&#x661F;).</li><li>Por sinal, Polaris &#xE9; protegida por generais praticantes do estilo de luta Gento Kouken. Gento (&#x5143;&#x6597;), apesar de usar o kanji &#x6597;, n&#xE3;o aparenta estar ligado a qualquer asterismo existente, o que derrotaria o esfor&#xE7;o de manter um padr&#xE3;o de tradu&#xE7;&#xE3;o para asterismos existentes.</li></ul><p>Dado o contexto completo da s&#xE9;rie, a decis&#xE3;o de manter Hokuto e Nanto parece um bom meio-termo, e ainda ajuda os pobres dubladores que t&#xEA;m que encaixar o tempo de fala com a boca dos bonecos. Por isso, &#xE9; a minha predileta, e a que sugiro usar.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2026/03/image.png" class="kg-image" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto" loading="lazy" width="900" height="713" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2026/03/image.png 600w, https://arara.me/content/images/2026/03/image.png 900w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>No asterismo de Hokuto, h&#xE1; duas estrelas brilhantes que ficam bastante pr&#xF3;ximas uma da outra, Alcor e Mizar - &#xE0;s vezes chamadas de O Cavalo e o Cavaleiro. Por serem dif&#xED;ceis de se distinguir a olho nu, elas eram um popular teste de vis&#xE3;o para n&#xF4;mades nas Ar&#xE1;bias. E esta &#xE9; a refer&#xEA;ncia da Estrela da Morte, que apenas guerreiros fadados a morrer em combate conseguem enxergar em Hokuto.</figcaption></figure><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2026/03/s7vze0jtavo71.gif" class="kg-image" alt="Traduzindo Hokuto e Nanto" loading="lazy" width="480" height="352"></figure>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolução Televisionada do mundo dos mecha]]></title><description><![CDATA[A história de um pequeno estúdio de Hokkaido que misturou rock n' roll, literatura, Shinsengumi e seriados de samurai e mudou a história dos animes de mecha para sempre.]]></description><link>https://arara.me/abayo-fly-bye/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b96</guid><category><![CDATA[Artigo]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Fri, 09 Apr 2021 16:27:09 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2021/04/grardj9robo.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2021/04/grardj9robo.jpg" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha"><p>No come&#xE7;o dos anos 80, um pequeno est&#xFA;dio de Hokkaido navegou numa revolu&#xE7;&#xE3;o crescente e deixou uma marca indel&#xE9;vel e indiscut&#xED;vel no <em>zeitgeist </em>da &#xE9;poca. Suas obras bebiam de fontes que iam da literatura ocidental a seriados de samurais, e trouxeram o <em>rock n&apos; roll,</em> o Shinsengumi e o lolicon para o mundo do anime. Seus criadores e colaboradores sairiam dali para trabalhar em obras como <em>Final Fantasy</em>, <em>Shenmue</em>, <em>A Viagem de Chihiro, Yu Yu Hakusho</em> e os <em>tokusatsu</em> <em>Super Sentai</em> e <em>Jaspion</em>. Suas inova&#xE7;&#xF5;es influenciaram est&#xFA;dios como Sunrise e Tatsunoko.</p><p>Esta &#xE9; a hist&#xF3;ria da Kokusai Eigasha e de sua principal obra-prima: a trilogia J9.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/ct131_yoko.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1000" height="811" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/ct131_yoko.jpg 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/ct131_yoko.jpg 1000w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Da esquerda pra direita: Baxinger, Bryger e Sasuraiger, os tr&#xEA;s mechas da Trilogia J9</figcaption></figure><h3 id="overture">Overture</h3><p>Quando <em>Gundam 0079</em> (1979) estreou nas TVs japonesas, o g&#xEA;nero <em>mecha</em> j&#xE1; estava bem definido e popularizado. Inaugurado em obras como <em>Tetsujin 28-go </em>(1956) e cristalizado no ic&#xF4;nico <em>Mazinger Z</em> (1972)<em>, </em>suas obras se estabeleceram rapidamente na televis&#xE3;o japonesa, e no Natal de 1976 oito s&#xE9;ries diferentes eram exibidas semanalmente nos canais de televis&#xE3;o japoneses, cada uma com seu rob&#xF4; gigante titular.</p><p>Mas quantidade n&#xE3;o significa variedade. Por mais divertidas que fossem, as obras produzidas nesse per&#xED;odo inicial tinham um escopo bastante limitado e seguiam uma f&#xF3;rmula bem similar: um ou mais jovens adolescentes recebiam de uma for&#xE7;a maior (geralmente um cientista, muitas vezes ligado ao governo e muitas vezes parente do protagonista) um rob&#xF4; gigante e o pilotam com muita justi&#xE7;a e <em>nekketsu</em> no cora&#xE7;&#xE3;o para combater as for&#xE7;as do mal (mutantes, alien&#xED;genas, dinossauros e outras ra&#xE7;as n&#xE3;o-humanas). Havia diversidade nos detalhes da execu&#xE7;&#xE3;o, na caracteriza&#xE7;&#xE3;o dos personagens, nos poderes de cada mecha, nos dramas interpessoais entre os protagonistas - mas todos giravam em torno da mesma tem&#xE1;tica.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/16996334_618857688312864_4219200207131645698_n.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="690" height="388" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/16996334_618857688312864_4219200207131645698_n.jpg 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/16996334_618857688312864_4219200207131645698_n.jpg 690w"><figcaption>UFO Senshi Daiapolon<em>, uma das v&#xE1;rias s&#xE9;ries mecha esquec&#xED;veis do final de 1976</em></figcaption></figure><p>Como se sabe, <em>Gundam 0079 </em>n&#xE3;o fez sucesso imediatamente. Ele afastou boa parte da audi&#xEA;ncia por romper com v&#xE1;rios desses pilares de uma s&#xF3; vez: o mecha principal n&#xE3;o &#xE9; entregue ao jovem adolescente (Amuro Ray), mas sim roubado por ele de uma instala&#xE7;&#xE3;o militar em um ato de desespero. O governo n&#xE3;o cede o mecha de bom grado, e tenta em v&#xE1;rios momentos for&#xE7;ar Amuro a devolv&#xEA;-lo. O Gundam titular n&#xE3;o &#xE9; apenas um s&#xED;mbolo de justi&#xE7;a e de hero&#xED;smo, mas tamb&#xE9;m o prot&#xF3;tipo de uma linha de armas militares, que conta com diversos outros modelos produzidos em massa. Os inimigos n&#xE3;o s&#xE3;o criaturas sem humanidade com o prop&#xF3;sito vazio de domina&#xE7;&#xE3;o mundial - s&#xE3;o um grupo de col&#xF4;nias liderados por um cl&#xE3; de humanos que admitem uma s&#xE9;rie de adjetivos: separatistas, ditadores, fascistas, terroristas, e por a&#xED; vai.</p><p>N&#xE3;o foi necessariamente a primeira vez que um anime de mecha abordou temas de dilemas morais e os horrores da guerra. O epis&#xF3;dio mais famoso de <em>Zambot 3</em> (1977) envolve homens-bomba e terrorismo; em <em>Mechander Robo </em>(1977), o inimigo desafia os her&#xF3;is com rob&#xF4;s produzidos em massa e &#xE9; enfrentado por ex&#xE9;rcitos militares de todo o planeta. Mas ao ir mais al&#xE9;m do que seus antecessores, e ao beber da fonte de sucessos do momento como <em>Star Wars </em>(1977) e do filme-compila&#xE7;&#xE3;o de <em>Patrulha Estelar (Uchuu Senkan Yamato, </em>1977), <em>Gundam 0079 </em>ganhou um status <em>cult</em> que foi culminar no sucesso de bilheteria de sua pr&#xF3;pria trilogia de filmes-compila&#xE7;&#xE3;o, lan&#xE7;ados entre 1981 e 1982.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/Gundam0079.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="640" height="302" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/Gundam0079.jpg 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/Gundam0079.jpg 640w"><figcaption><em>P&#xF4;steres da trilogia de filmes de </em>Gundam 0079</figcaption></figure><p>Com isso, <em>Gundam 0079</em> criou uma cis&#xE3;o no g&#xEA;nero <em>mecha</em>, dividindo-o em duas vertentes: os <em>Super Robots, </em>com conceitos espetaculares e cheios de hero&#xED;smo e bravura, e os <em>Real Robots</em>, com um pouco mais de p&#xE9; no ch&#xE3;o e buscando uma ci&#xEA;ncia mais realista na medida do poss&#xED;vel. Mas isso n&#xE3;o quer dizer que <em>Gundam 0079 </em>n&#xE3;o tenha tido impacto no g&#xEA;nero como um todo, e hoje eu quero contar a hist&#xF3;ria de uma trilogia de <em>Super Robots</em> que nunca seria poss&#xED;vel sem Amuro Ray e Char Aznable.</p><h2 id="a-kokusai-eigasha">A Kokusai Eigasha</h2><p>Em 1974, Juzo Tsubota, um executivo da ind&#xFA;stria cinematogr&#xE1;fica, que havia trabalhado em empresas como a produtora Nikkatsu e a distribuidora Dainichi Eihai, decidiu abrir em Nemuro, Hokkaido, sua pr&#xF3;pria companhia de produ&#xE7;&#xE3;o e distribui&#xE7;&#xE3;o de filmes, a Kokusai Eigasha (internacionalmente conhecida como Movie International Co. Ltd., e muitas vezes abreviada como MIC). Eu encontrei pouco sobre a atua&#xE7;&#xE3;o da empresa no come&#xE7;o de sua exist&#xEA;ncia - a Wikip&#xE9;dia comenta sobre a media&#xE7;&#xE3;o da venda de um <em>dorama</em> da NHK para o Canal 12 de T&#xF3;quio, que viria a se tornar a TV Tokyo de hoje em dia.</p><p>Em 1979, a Kokusai Eigasha decide entrar no ramo de produ&#xE7;&#xE3;o de animes, com Shigeo Tsubota, o filho mais velho de Juzo, atuando como produtor. &#xC9; uma aposta um tanto arriscada: n&#xE3;o h&#xE1; muitos talentos no mercado de anima&#xE7;&#xE3;o que n&#xE3;o estejam presos a est&#xFA;dios maiores, e a maioria dos est&#xFA;dios sempre se concentrou na regi&#xE3;o metropolitana de T&#xF3;quio, bem longe de Hokkaido. Para refer&#xEA;ncia, em 2019, dos 622 est&#xFA;dios japoneses de anima&#xE7;&#xE3;o registrados na AJA, 542 estavam em T&#xF3;quio.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1054" height="841" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image.png 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/image.png 1054w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Distribui&#xE7;&#xE3;o de est&#xFA;dios de anima&#xE7;&#xE3;o pelo Jap&#xE3;o em 2019. 87% dos est&#xFA;dios ficam em T&#xF3;quio.</figcaption></figure><p>Como se a disputa por talentos n&#xE3;o fosse complicada o bastante, o mercado de animes era uma fra&#xE7;&#xE3;o do que temos hoje em dia. O modelo de neg&#xF3;cios da ind&#xFA;stria do anime sempre dependeu de tr&#xEA;s pilares principais: est&#xFA;dios capazes de produzir uma obra de grande apelo; canais de TV dispostos a arcar com a produ&#xE7;&#xE3;o na esperan&#xE7;a de atrair audi&#xEA;ncia e faturar com anunciantes; e patrocinadores que ajudam a financiar o empreendimento na esperan&#xE7;a de explorar os direitos da obra, vendendo brinquedos, discos, fitas VHS e outros produtos licenciados. Mas na &#xE9;poca, as produ&#xE7;&#xF5;es eram mais longas e menos numerosas, ocupando os blocos de programa&#xE7;&#xE3;o nas TVs japonesas por mais tempo, e aumentando a concorr&#xEA;ncia entre os est&#xFA;dios e seus patrocinadores por esses espa&#xE7;os. Entre 2014 e 2018, foram produzidas em m&#xE9;dia 230 novas obras de anima&#xE7;&#xE3;o por ano, mas em 1979, esse n&#xFA;mero foi de apenas 37.</p><p>Por isso, eles formam uma parceria com outra empresa de anima&#xE7;&#xE3;o rec&#xE9;m-estabelecida em 1975, a Ashi Productions - um est&#xFA;dio que existe at&#xE9; hoje, e que mudou de nome para Production Reed entre 2009 e 2018 - para a produ&#xE7;&#xE3;o de quatro obras, das quais duas eventualmente chegariam ao Brasil. <em>Baldios - Os Guerreiros do Espa&#xE7;o (1980)</em>, um anime de mecha com forte mensagem ambientalista, foi cancelado na metade e teve que compilar os epis&#xF3;dios finais num filme longa-metragem para concluir o enredo. Esse filme chegou a n&#xF3;s pela TV Manchete, onde foi exibido em formato de miniss&#xE9;rie com dublagem dos est&#xFA;dios Herbert-Richers e distribui&#xE7;&#xE3;o Brasil Home Video (hoje Sato Company). J&#xE1; <em>As Novas Aventuras de Josefina (1979) </em>&#xE9; baseado num livro espanhol do mesmo autor de Marcelinho P&#xE3;o e Vinho, contando a hist&#xF3;ria de um garoto que tem uma baleia de estima&#xE7;&#xE3;o que cabe na palma da m&#xE3;o. Ele foi lan&#xE7;ado dublado aqui em VHS com dublagem em portugu&#xEA;s, embora exista pouqu&#xED;ssimo registro na internet sobre a vers&#xE3;o brasileira.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-1.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1083" height="805" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-1.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image-1.png 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-1.png 1083w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Capa do VHS nacional de </em>Baldios - Os Guerreiros do Espa&#xE7;o</figcaption></figure><p><em>Futago no Monchichi (1980)</em>, o terceiro t&#xED;tulo, era uma s&#xE9;rie de epis&#xF3;dios curtos sobre um casal de macaquinhos, que servia principalmente para promover a popular linha de bichinhos de pel&#xFA;cia deles. O anime n&#xE3;o chegou a ser exibido por aqui, mas os brinquedos, sim - os macaquinhos foram lan&#xE7;ados pela Estrela por aqui com os nomes de Tiko e Tika. Por fim, <em>Zukkoke Knight - Don de la Mancha</em> <em>(1980)</em> &#xE9; uma humorosa revisita&#xE7;&#xE3;o do cl&#xE1;ssico da literatura espanhola que puxa um tanto das s&#xE9;ries de com&#xE9;dia que a Tatsunoko Pro produzia na &#xE9;poca. Vale pela curiosidade de ver Kenji Utsumi, a imponente e amea&#xE7;adora voz de Raoh em <em>Hokuto no Ken (1984)</em>, dando vida a um cavaleiro atrapalhado de voz esgani&#xE7;ada.</p><p>N&#xE3;o foi um grande come&#xE7;o - assim como <em>Baldios, Josefina </em>tamb&#xE9;m teve sua exibi&#xE7;&#xE3;o interrompida na TV por conta da baixa audi&#xEA;ncia - mas a empresa decidiu continuar com a produ&#xE7;&#xE3;o de obras animadas. Algumas fontes apontam como motivo o aparente tino comercial de Shigeo Tsubota, que conseguiu aproveitar um mercado internacional aquecido para distribuir todas essas quatro s&#xE9;ries em diversos pa&#xED;ses das Am&#xE9;ricas e da Europa ao longo da d&#xE9;cada de 80. As in&#xFA;meras conex&#xF5;es da Kokusai Eigasha, que ainda estava fortemente envolvida na distribui&#xE7;&#xE3;o e comercializa&#xE7;&#xE3;o de filmes, certamente ajudaram nesse aspecto.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/ZrG7jg1PI2o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Um raro exemplar dublado em portugu&#xEA;s d&apos;</em>As Novas Aventuras de Josefina</figcaption></figure><p>A partir deste momento, a Kokusai Eigasha passou a encomendar o grosso da anima&#xE7;&#xE3;o com est&#xFA;dios coreanos, como a Daewon Animation, que tamb&#xE9;m fornecia servi&#xE7;os para grandes nomes como a Hanna-Barbera e a Toei Animation. E por falar em Toei Animation (que na &#xE9;poca ainda se chamava Toei Douga), ela teve um papel mais que crucial neste per&#xED;odo da empresa. Gra&#xE7;as a uma aparente amizade entre Juzo Tsubota e Chiaki Imada, presidente da Toei Animation desde 1973, a Kokusai Eigasha teve acesso a v&#xE1;rios talentos experientes e renomados, al&#xE9;m de toda a estrutura da companhia. Foi a Toei, por exemplo, que distribuiu o filme de <em>Baldios </em>para os cinemas.</p><p>Em abril de 1981, foram ao ar na TV duas obras da Kokusai Eigasha. A primeira foi <em>Wakakusa no Yon Shimai (1981)</em>, uma adapta&#xE7;&#xE3;o do romance &quot;Little Women&quot; da americana Louise May Alcott, publicado no Brasil com o t&#xED;tulo &quot;Mulherzinhas&quot;. Esta adapta&#xE7;&#xE3;o acabaria sendo esquecida pelo tempo, pois seis anos depois o est&#xFA;dio Nippon Animation adaptaria a obra novamente para o World Masterpiece Theater, sua s&#xE9;rie de animes baseados em romances cl&#xE1;ssicos. A segunda foi <em>Mechakko Dotakon (1981), </em>uma obra original criada pelo diretor Takeshi Shirato sobre um garoto rob&#xF4; que vive se metendo em confus&#xF5;es, com um jeit&#xE3;o que lembra a Arale de cosplay de Jotaro Joestar. </p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/une7TBidCv0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Mechakko Dotakon</figcaption></figure><p>Os roteiros de <em>Mechakko Dotakon </em>foram escritos por Yu Yamamoto, um roteirista de carreira que era conhecido por ser uma esp&#xE9;cie de <em>workaholic</em>, um roteirista extremamente produtivo e sempre envolvido em m&#xFA;ltiplos projetos paralelos. Ele participou de in&#xFA;meros projetos na Tatsunoko Pro, como <em>Yattaman (1977) </em>e <em>Gatchaman II (1978), </em>al&#xE9;m de projetos de v&#xE1;rios outros est&#xFA;dios, com destaque para o pr&#xF3;prio <em>Gundam 0079 </em>da Sunrise. Em 1979, ele escreveu um quarto dos roteiros de <em>Gundam 0079 </em>ao mesmo tempo em que escrevia 21 epis&#xF3;dios para <em>Zendaman</em>, o Time Bokan daquele ano.</p><p>Quando dois executivos da Tatsunoko Pro deixaram a empresa para fundar a Ashi Pro, ele foi chamado para roteirizar <em>mechas </em>como <em>Blocker Gundan IV Machine Blaster (1976) </em>e <em>Chou Gattai Majutsu Robo Ginguiser (1977), </em>na qual ele escreveu sozinho metade dos epis&#xF3;dios. Foi atrav&#xE9;s da Ashi Pro que Yu Yamamoto viria a conhecer a Kokusai Eigasha, onde escreveu tamb&#xE9;m os roteiros de <em>Josefina </em>e <em>Don de la Mancha, </em>e logo se tornaria um dos nomes mais importantes da hist&#xF3;ria da empresa.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/Yu-Yamamoto.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="400" height="271"><figcaption>Yu Yamamoto (Data desconhecida)</figcaption></figure><h2 id="montando-o-time">Montando o Time</h2><p><em>Gundam 0079 </em>quebrou v&#xE1;rias barreiras para o g&#xEA;nero de mecha, expandindo o l&#xE9;xico narrativo e abrindo caminho para novas hist&#xF3;rias e novas perspectivas. E na minha opini&#xE3;o, sem <em>Gundam</em>, a hist&#xF3;ria dos animes de mecha nunca teria tido o seu diretor mais improv&#xE1;vel: um diretor que simplesmente n&#xE3;o queria dirigir <em>mechas</em>.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/t640_880633-1.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="640" height="427" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/t640_880633-1.jpg 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/t640_880633-1.jpg 640w"><figcaption>Takao Yotsuji (2020)</figcaption></figure><p>Takao Yotsuji entrou na ind&#xFA;stria de anima&#xE7;&#xE3;o quase a contragosto. Sua inten&#xE7;&#xE3;o ao se formar era produzir filmes live-action, mas ele n&#xE3;o encontrava vagas na ind&#xFA;stria cinematogr&#xE1;fica de jeito nenhum. Acabou por aceitar um emprego na Mushi Productions, produzindo comerciais para TV e trabalhando sob a tutela de Yoshinori Kishimoto, que se tornaria um dos fundadores do est&#xFA;dio Sunrise, migrando para l&#xE1; quando a Mushi Pro declarou fal&#xEA;ncia. </p><p>Ele continuou fazendo pequenas participa&#xE7;&#xF5;es, produzindo, dirigindo epis&#xF3;dios e escrevendo roteiros em obras como <em>Robokko Beaton (1976), Zambot 3 (1977) </em>e <em>Voltes V (1977)</em>, mas foi despontar como diretor em <em>Kagaku Boukentai Tanser 5 (1979)</em>, uma cativante obra que mistura miniaturas com anima&#xE7;&#xE3;o 2D sobre um grupo de exploradores que busca desvendar os &quot;3794 mist&#xE9;rios&quot; que existem na Terra. Em seguida, ele dirigiu <em>Sue Cat (1980)</em>, sobre uma gatinha desmemoriada e &#xF3;rf&#xE3; que decide se tornar uma <em>idol </em>famosa no pa&#xED;s todo na esperan&#xE7;a que seus pais perdidos a reconhe&#xE7;am. N&#xE3;o era um projeto de grande express&#xE3;o, e certamente fez muito menos sucesso do que <em>Tanser 5</em>, mas ele simplesmente n&#xE3;o achava que <em>mechas</em> eram a praia dele, e fugia ativa.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/yIZeDDpHD28?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Temas de abertura e encerramento de</em> Tanser 5</figcaption></figure><p>Takao Yotsuji veio a conhecer Yu Yamamoto durante a produ&#xE7;&#xE3;o de <em>Yuusha Raideen (1975)</em>, onde ambos atuaram como roteiristas, e rapidamente se tornaram grandes amigos de bebedeira. Trabalharam juntos novamente em <em>Yattodetaman</em> <em>(1981), </em>o quinto anime da popular s&#xE9;rie <em>Time Bokan</em> da Tatsunoko Pro. A esta altura, Takao j&#xE1; estava envolvido com a Kokusai Eigasha, fazendo pequenas pontas em <em>Baldios </em>e <em>Mechakko Dotakon</em>, quando Yu Yamamoto o convidou em 1981 para ser o diretor de um novo projeto, a ser financiado pela Takatoku Toys, uma fabricante de brinquedos.</p><p>A Takatoku Toys merece um par&#xE1;grafo &#xE0; parte. Fundada em 1917, a empresa foi pioneira na fabrica&#xE7;&#xE3;o de brinquedos licenciados de s&#xE9;ries de TV, lan&#xE7;ando bonequinhos de sucesso de s&#xE9;ries como <em>Astro Boy </em>e<em> Ultraman </em>nos anos 60. Em 1971, com o sucesso de <em>Kamen Rider</em>, a Takatoku licenciou os direitos de produzir r&#xE9;plicas do Typhoon, o cinto de transforma&#xE7;&#xE3;o do her&#xF3;i... e n&#xE3;o fez muito sucesso. Era um modelo simples, com uma ventoinha manual e que n&#xE3;o parecia muito com o original da s&#xE9;rie. Um modelo mais avan&#xE7;ado, com ventoinha el&#xE9;trica que girava e tinha luzinhas, come&#xE7;ou a ser comercializado pela Popy, uma nova fabricante fundada no mesmo ano por dissidentes da Bandai. Mesmo custando tr&#xEA;s vezes mais que o modelo da Takatoku, o cinto da Popy foi um estrondoso sucesso, vendendo 3.8 milh&#xF5;es de unidades.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/mPAnaNFd2Is?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Review do cinto de transforma&#xE7;&#xE3;o do </em>Kamen Rider <em>original da Popy, com luzinha e ventoinha</em></figcaption></figure><p>Com o sucesso do produto, a Toei come&#xE7;ou a dar prefer&#xEA;ncia &#xE0; Popy na fabrica&#xE7;&#xE3;o de seus brinquedos, colocando a Takatoku numa posi&#xE7;&#xE3;o complicada, ainda que ela continuasse a ser a terceira maior fabricante do Jap&#xE3;o. Ent&#xE3;o, nos anos 70, al&#xE9;m de produzir brinquedos de sucesso para a franquia <em>Time Bokan </em>e para <em>super robots </em>como <em>Uchuu Majin Daikengo (1979) </em>e <em>Sengoku Majin Goshogun (1981)</em>, ela come&#xE7;a tamb&#xE9;m a financiar a produ&#xE7;&#xE3;o de s&#xE9;ries, em busca de sucessos que possam movimentar sua linha de produtos e manter a empresa de p&#xE9; - e o sucesso recente dos brinquedos de <em>Gundam 0079</em> dava bons argumentos a favor da cria&#xE7;&#xE3;o de mais s&#xE9;ries de rob&#xF4;s.</p><p>Quando Yu Yamamoto estendeu o convite a Takao Yotsuji, ele foi bem claro ao dizer que precisava o patrocinador queria uma s&#xE9;rie de rob&#xF4;s. Ao ouvir a recusa do diretor, o roteirista explicou: &quot;&#x30E1;&#x30AB;&#x304C;&#x51FA;&#x306A;&#x304F;&#x3066;&#x3082;&#x3044;&#x3044;&#x3088;&quot;. O <em>mecha </em>n&#xE3;o precisa aparecer. Ele sugeriu fazer uma s&#xE9;rie de <em>super robot...</em> sem o <em>robot</em>. &#xC9; claro que ia ter um roboz&#xE3;o superpoderoso, mas ele n&#xE3;o precisava ser o foco da a&#xE7;&#xE3;o. </p><p>Yotsuji topou com uma condi&#xE7;&#xE3;o: a trilha sonora da s&#xE9;rie tinha que ser <em>rock n&apos; roll</em>. Yotsuji era um roqueiro inveterado, sabia que era o som que a garotada estava a fim de ouvir, e j&#xE1; havia tentado colocar mais <em>rock </em>em suas obras anteriores, mas nunca teve permiss&#xE3;o. Agora, com controle criativo para fazer o que quiser, ningu&#xE9;m poderia impedi-lo. E para criar a trilha sonora, Yotsuji convidou o terceiro elemento que definiria de vez o esp&#xED;rito audacioso da Trilogia J9: o compositor, cantor e dublador Masayuki Yamamoto.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/63e756172dcc320210e6fed8ebf69b52_400x400.jpeg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="400" height="400"><figcaption>Masayuki Yamamoto</figcaption></figure><p>Masayuki Yamamoto (sem parentesco com Yu Yamamoto) &#xE9; um g&#xEA;nio, um daqueles talentos multifacetados, com obras imediatamente reconhec&#xED;veis a qualquer um que conhe&#xE7;a seu trabalho. As m&#xFA;sicas de Masayuki Yamamoto t&#xEA;m uma energia sem igual, com vozes de fundo que duelam com o cantor, sequ&#xEA;ncias r&#xE1;pidas de trava-l&#xED;nguas e um humor pr&#xF3;prio que casa perfeitamente com a proposta da s&#xE9;rie. Seu primeiro grande destaque em sua carreira foi o hino do time de beisebol Chunichi Dragons, composto logo que se formou na faculdade ap&#xF3;s ganhar um concurso. Seu principal trabalho foi na franquia <em>Time Bokan</em>, onde ele comp&#xF4;s a trilha sonora de quase todas as s&#xE9;ries, cantou v&#xE1;rios dos temas de abertura mais populares e <em>insert songs</em>,<em> </em>e at&#xE9; dublou alguns personagens c&#xF4;micos. Entre seus cr&#xE9;ditos est&#xE1; <em>Yattodetaman, </em>onde Takao Yotsuji e Yu Yamamoto tamb&#xE9;m trabalharam.</p><p>E foi assim - com um diretor que n&#xE3;o queria fazer animes de mecha, um roteirista &#xE1;vido por criar algo pr&#xF3;prio e um m&#xFA;sico genial com liberdade para romper seus limites, apoiados por um est&#xFA;dio de m&#xE9;dio calibre e uma fabricante de brinquedos desesperada por um sucesso - que nasceu uma das s&#xE9;ries de <em>mecha </em>mais marcantes dos anos 70.</p><h2 id="o-ciclone-gal-ctico">O Ciclone Gal&#xE1;ctico</h2><p>A Trilogia J9 n&#xE3;o nasceu como uma trilogia, ou mesmo como uma franquia. Embora exista um elo narrativo que una as tr&#xEA;s s&#xE9;ries, que se passam em um mesmo universo com s&#xE9;culos de diferen&#xE7;a entre cada obra, as tr&#xEA;s s&#xE9;ries s&#xE3;o relativamente independentes, e podem ser assistidas fora de ordem. O verdadeiro elo que une as tr&#xEA;s obras est&#xE1; nos temas, nas inspira&#xE7;&#xF5;es e nas mentes criativas por tr&#xE1;s delas.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/R9OolcoJKpk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Bryger</figcaption></figure><p>Um exemplo desses temas est&#xE1; no nome. <em>Ginga Senpuu Bryger (1981) </em>(&quot;Bryger, o Ciclone Gal&#xE1;ctico&quot; em tradu&#xE7;&#xE3;o livre) carrega v&#xE1;rios temas recorrentes da trilogia. Ele cont&#xE9;m um fen&#xF4;meno meteorol&#xF3;gico no t&#xED;tulo - ciclone - assim como suas sequ&#xEA;ncias viriam a conter Ventania e Furac&#xE3;o. O nome do rob&#xF4; principal tamb&#xE9;m cont&#xE9;m um certo simbolismo. <em>Bryger </em>vem de <em>burai </em>(&#x7121;&#x983C;, patife, malfeitor)<em>, </em>indicando que n&#xE3;o &#xE9; uma s&#xE9;rie sobre her&#xF3;is justiceiros enfrentando o mal - &#xE9; talvez o primeiro anime de mechas estrelado por anti-her&#xF3;is, pessoas de car&#xE1;ter duvidoso e morais escusas. O t&#xED;tulo da s&#xE9;rie tamb&#xE9;m &#xE9; um s&#xED;mbolo da parceria entre Takao Yotsuji, que deu a ideia do nome do rob&#xF4;, e Yu Yamamoto, que sugeriu o antet&#xED;tulo pomposo.</p><p><em>Bryger </em>se passa no futuro, e conta a hist&#xF3;ria de um quarteto de mercen&#xE1;rios que moram no cintur&#xE3;o de asteroides que circunda J&#xFA;piter, mais especificamente no setor 9 do distrito West J - da&#xED; a origem do nome, pelo menos dentro do universo (em entrevistas, Yu Yamamoto confessou que o nome veio do SL-J9, um tocador de Betamax da Sony que ele queria muito, mas n&#xE3;o tinha dinheiro pra comprar.) Recrutados e liderados pelo reservado e sisudo Isaac Godinov, o grupo topa qualquer miss&#xE3;o por dinheiro, incluindo assassinatos e roubos, mas seguem um estrito c&#xF3;digo de honra de nunca causar mal a inocentes. Comp&#xF5;em o time Jotaro Kido, vulgo Blaster Kid, o pistoleiro do time que n&#xE3;o erra um tiro; Steven &quot;Speedy&quot; Bowie, um ex&#xED;mio motorista que venceu a famosa corrida de Le Mans de Sol; e Angel Omachi, uma mulher independente a especialista em explosivos do grupo. </p><p>No elenco de apoio temos Pancho Poncho, um velho mutreteiro que arranja a maioria dos clientes do J9 (e sempre tira uma casquinha como comiss&#xE3;o); os irm&#xE3;os Sin e Mei, que foram praticamente adotados por Isaac e colaboram na opera&#xE7;&#xE3;o da base; e o chefe de pol&#xED;cia Macarone Spaghettino, sempre tentando pegar a gangue do J9 no pulo para prender os meliantes, ajudado por seu subordinado Gratin.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-2.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="500" height="375"><figcaption><em>Da esquerda pra direita: no topo, Isaac e Kid; embaixo, Omachi e Bowie</em></figcaption></figure><p>Se a descri&#xE7;&#xE3;o do quarteto principal te lembrou de alguma coisa, provavelmente n&#xE3;o &#xE9; coincid&#xEA;ncia. Em 1981, <em>Lupin the III</em> j&#xE1; era um sucesso consolidado, sua segunda s&#xE9;rie de TV acabara h&#xE1; menos de um ano e o <em>Castelo de Cagliostro (1979) </em>havia arrecadado mais de 600 milh&#xF5;es de ienes na bilheteria japonesa. A inspira&#xE7;&#xE3;o do bando de ladr&#xF5;es n&#xE3;o parou apenas na descri&#xE7;&#xE3;o - h&#xE1; relatos de que o design dos personagens foi especificamente encomendado para seguir a linha com os de <em>Lupin the III. O</em>utra das inspira&#xE7;&#xF5;es de Yu Yamamoto &#xE9; a franquia <em>Hissatsu</em>, uma recorrente s&#xE9;rie live-action no Jap&#xE3;o sobre assassinos de aluguel e foras-da-lei que fazem justi&#xE7;a com as pr&#xF3;prias m&#xE3;os, com dezenas de s&#xE9;ries, filmes e especiais para TV.</p><p>O design de Kid, Bowie, Isaac e Omachi lembram tanto o trabalho do <em>mangak&#xE1; </em>Monkey Punch que muitos sites de f&#xE3;s acabam creditando o autor pelos designs de personagem, mas ele n&#xE3;o teve nada a ver com a produ&#xE7;&#xE3;o. Eles s&#xE3;o obra de Kazuo Komatsubara, um animador de longa data da Toei Animation que foi o respons&#xE1;vel pelo design de personagens de diversas adapta&#xE7;&#xF5;es dos mang&#xE1;s de Go Nagai, e que pela primeira vez tinha liberdade para criar personagens do zero. Komatsubara tamb&#xE9;m se tornaria outro membro recorrente da equipe de produ&#xE7;&#xE3;o da Trilogia J9, concebendo os personagens das outras duas s&#xE9;ries da trilogia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/kazuo-komatsubara-00a1ee9e-b22b-40a0-bd41-c2fd06e9cf3-resize-750.jpeg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="500" height="701"><figcaption><em>Khamen Khamen, Kid e Omachi, ilustrados por Kazuo Komatsubara</em></figcaption></figure><p>Imediatamente, <em>Bryger </em>se destacou das demais s&#xE9;ries de <em>mecha</em>. Seus personagens s&#xE3;o adultos que roubam e matam, brigam e flertam, bebem e fumam. Ainda que a s&#xE9;rie seja dominada pelas cenas de a&#xE7;&#xE3;o e pelos momentos de bom humor, h&#xE1; momentos s&#xE9;rios de drama, onde traumas s&#xE3;o explorados e dilemas s&#xE3;o discutidos. Os antagonistas da primeira metade da s&#xE9;rie s&#xE3;o as Connections, m&#xE1;fias locais que dominam determinados planetas do Sistema Solar e que entram em conflito umas com as outras. A equipe J9 muitas vezes &#xE9; pega nesse fogo cruzado, e obrigada a se aliar com um dos lados para sobreviver e derrotar o outro.</p><p>Na reta final, uma nova amea&#xE7;a surge na forma de Khamen Khamen, l&#xED;der de uma estranha seita religiosa com temas eg&#xED;pcios chamada N&#xFA;bia. Ele come&#xE7;a a eliminar as diversas Connections uma a uma, concentrando poder em suas m&#xE3;os para realizar seu ambicioso plano: explodir J&#xFA;piter, criando dezenas de novos planetas capazes de sustentar vida humana, e permitir que a humanidade se expanda muito al&#xE9;m dos limites do Sistema Solar. (<em>E n&#xE3;o, Khamen Khamen n&#xE3;o &#xE9; Char Aznable.</em>) Enquanto a primeira metade da s&#xE9;rie cont&#xE9;m uma s&#xE9;rie de aventuras independentes que exploram o passado dos protagonistas, a segunda metade &#xE9; uma tensa trama que culmina numa corrida contra o tempo para impedir os planos malignos de Khamen Khamen e salvar toda a humanidade.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/ov6QB4gWK3A?start=228&amp;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Tema musical de Khamen Khamen, com a narra&#xE7;&#xE3;o exclusiva da vers&#xE3;o de LP</em></figcaption></figure><p>Dando voz ao quinteto principal temos Kaneto Shiozawa como Blaster Kid, Kazuyuki Sogabe como Isaac Godinov, Katsuji Mori como Steven Bowie, Jouji Yanami como Pancho Poncho e Yoko Asagami como Angel Omachi. Blaster Kid seja posicionado como o &quot;Lupin&quot; do time, todo o quarteto principal acaba recebendo aten&#xE7;&#xE3;o por igual... Coisa que, segundo Yu Yamamoto em seu blog, n&#xE3;o agradou muito Kaneto Shiozawa, que esperava que Bryger fosse ser sua grande oportunidade de despontar como protagonista. </p><p>Mas, eventualmente, o clima meio rock n&apos; roll da produ&#xE7;&#xE3;o acabou acalmando o rapaz. Por ser uma empresa nova, o ambiente era bem mais descontra&#xED;do, as ambi&#xE7;&#xF5;es eram maiores e o companheirismo era mais profundo. As equipes sa&#xED;am pra beber ap&#xF3;s as grava&#xE7;&#xF5;es, combinavam viagens juntos, sa&#xED;am pra pescar. Em mais de uma ocasi&#xE3;o, o pr&#xF3;prio diretor Takao Yotsuji descreveu seu trabalho no est&#xFA;dio como um &quot;hobby&quot;. Esse clima, aliado &#xE0; decepcionante qualidade da anima&#xE7;&#xE3;o, meio que motivou os dubladores a ir al&#xE9;m em suas atua&#xE7;&#xF5;es e carregar a s&#xE9;rie nas costas. Isso se nota no entrosamento e no improviso da dublagem de Bryger - as conversas soam muito mais naturais, com aquela intimidade &#xFA;nica de velhos amigos. O carisma ineg&#xE1;vel de todo o elenco principal fez desses cinco atores o cora&#xE7;&#xE3;o da trilogia inteira, trazendo-os de volta nas edi&#xE7;&#xF5;es seguintes da s&#xE9;rie. Uma das marcas registradas da franquia J9 inteira &#xE9; o &quot;yey&quot; - uma exclama&#xE7;&#xE3;o que representa a uni&#xE3;o e o companheirismo do time, geralmente acompanhada de polegares pra cima, e que diz-se ter sido criado pelo diretor Takao Yotsuji para resumir frases longas num sentimento simples, nascido da necessidade de cortar longos peda&#xE7;os de di&#xE1;logo na hora da grava&#xE7;&#xE3;o.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/20190413201920.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="520" height="390"><figcaption><em>Omachi e Kid mandam um de seus in&#xFA;meros &quot;yey&quot;</em></figcaption></figure><p>Uma das hist&#xF3;rias mais populares do seriado representa bem o que tornou <em>Bryger</em> t&#xE3;o marcante. No epis&#xF3;dio duplo <em>Carnival no Kaze</em> (27-28), Angel Omachi est&#xE1; carente, mas sabe que n&#xE3;o vai encontrar o que procura no time J9. Afinal, Bowie e Kid s&#xE3;o imaturos demais, e Isaac &#xE9; muito frio e distante para ser um par em potencial. O time J9 &#xE9; contratado para descobrir quem est&#xE1; matando executivos da ind&#xFA;stria fonogr&#xE1;fica durante um festival musical, e Angel parte em uma miss&#xE3;o de reconhecimento. Ap&#xF3;s um tiroteio com bandidos, ela acaba sendo resgatada por um homem muito charmoso que cuida dos ferimentos dela. Rola uma qu&#xED;mica entre os dois, e eles dormem juntos numa cena bastante expl&#xED;cita e delicada. Mais tarde, obviamente descobre-se que o homem charmoso &#xE9; na verdade o assassino respons&#xE1;vel pelas mortes, e Angel Omachi se v&#xEA; num mato sem cachorro, obrigado a escolher entre seu amor e sua miss&#xE3;o, enquanto o <em>rock n&apos; roll</em> do festival toca ao fundo.</p><p>(Este epis&#xF3;dio foi t&#xE3;o marcante que, em uma das v&#xE1;rias fontes que eu consultei para criar este artigo, a webmaster da fanpage pede encarecidamente ao p&#xFA;blico para parar de lhe pedir c&#xF3;pias do epis&#xF3;dio em quest&#xE3;o. <em>&quot;Sou uma m&#xE3;e de fam&#xED;lia e n&#xE3;o tenho tempo pra essas coisas! Aluga o DVD!&quot;</em>)</p><p>A m&#xFA;sica que toca ao longo do epis&#xF3;dio, <em>Taiyou no Kora</em> (Filhos do Sol), foi escrita por Yu Yamamoto, composta por Masayuki Yamamoto e cantada por Yukio Yamagata, um cantor em ascens&#xE3;o que havia se mudado para T&#xF3;quio h&#xE1; pouco e era um dos dois vocalistas da banda TUSH, respons&#xE1;veis pela abertura de <em>Yattodetaman (</em>quem diria!). Al&#xE9;m de <em>Taiyou no Kora</em>, ele canta tamb&#xE9;m os temas <em>Hoshikuzu no Lullaby (</em>A Can&#xE7;&#xE3;o de Ninar da Poeira Estelar), uma balada com forte inspira&#xE7;&#xE3;o da banda Queen, e <em>ABAYO FLY BYE</em>, o encerramento do &#xFA;ltimo epis&#xF3;dio e decerto a mais marcante can&#xE7;&#xE3;o de <em>Bryger </em>inteiro. &#xC9; bastante seguro afirmar que a voz de Yukio Yamagata representa tudo que a Trilogia J9 quer ser - agressiva, rouca e energ&#xE9;tica, com um jeit&#xE3;o de Lemmy Kilmister - e n&#xE3;o &#xE9; nenhuma surpresa que Yukio Yamagata se tornaria outro dos pilares da trilogia J9 nas obras seguintes.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/rHbl0PAMZKU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption>ABAYO FLY BYE, com narra&#xE7;&#xE3;o de Jotaro Kido/Kaneto Shiozawa</figcaption></figure><p>J&#xE1; os temas de abertura e encerramento foram interpretados pelo excelente Isao Taira, que tamb&#xE9;m cantou as aberturas de <em>Ideon (1980) </em>e <em>Daiohja (1981). </em>Mesmo com o tom mais tradicional da m&#xFA;sica e do cantor, a abertura de <em>Bryger</em> j&#xE1; inovava no instrumental, e &#xE9; a primeira abertura de um anime de <em>mecha</em> a contar com um solo de guitarra. Outro elemento marcante da abertura foi a sugest&#xE3;o do diretor Takao Yotsuji de colocar uma breve narra&#xE7;&#xE3;o, com o intuito de dar o tom de todo o seriado, assim como fez em <em>Tansar 5</em>. Nela, o narrador Hidekatsu Shibata (hoje mais conhecido como King Bradley de <em>Fullmetal Alchemist</em>) introduz a s&#xE9;rie com a seguinte frase: <em>&quot;Nas sombras do cintilar das estrelas do c&#xE9;u noturno, ecoa uma sinistra gargalhada, enchendo de l&#xE1;grimas os olhos de pessoas por planetas de toda a gal&#xE1;xia. Bryger, o Ciclone Gal&#xE1;ctico - &#xE9; s&#xF3; chamar que ele vem na hora!&quot;</em></p><p>Se eu ainda n&#xE3;o toquei no assunto do <em>mecha </em>titular da s&#xE9;rie, &#xE9; porque francamente ele importa muito pouco, mesmo. Desenhado por Yuichi Higuchi, outro membro recorrente das produ&#xE7;&#xF5;es da Kokusai Eigasha de agora em diante, a base do <em>mecha </em>&#xE9; o carro Bry-Thunder, que cont&#xE9;m um dispositivo capaz de faz&#xEA;-lo aumentar de tamanho ao agregar mat&#xE9;ria de outra dimens&#xE3;o. Assim, Bry-Thunder pode se transformar em Bry-Star, uma nave espacial, ou em Bryger, um rob&#xF4; gigante. Ele n&#xE3;o tem golpes especiais empolgantes (eventualmente ele ganha uma espada bem chinfrim) e tem pouqu&#xED;ssimo destaque, geralmente aparecendo nos 3 minutos finais da s&#xE9;rie. Os rob&#xF4;s dos vil&#xF5;es s&#xE3;o gen&#xE9;ricos e esquec&#xED;veis. Pelo menos, serviu para que a Takatoku fizesse um modelo transform&#xE1;vel em sua linha de brinquedos Z-Gokin!</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/used-takatoku-dx-toys-chogokin-galaxy_1_0c33e576bfc397a6ebf866f5753eada2.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="400" height="282"><figcaption><em>Um exemplar conservado do modelo de</em> Bryger <em>da Takatoku</em></figcaption></figure><p>Em quest&#xE3;o de anima&#xE7;&#xE3;o, <em>Bryger </em>tamb&#xE9;m n&#xE3;o &#xE9; grande coisa. Apesar da intrincada abertura animada pelo lend&#xE1;rio Yoshinori Kanada, o resto do epis&#xF3;dio continuava a ter a mesma qualidade inconsistente das outras obras da Kokusai Eigasha, e visualmente a obra arrisca pouco e n&#xE3;o tenta impressionar. Mas o que a s&#xE9;rie peca em talento, ela transborda em carisma, e voc&#xEA; aprende a relevar os pequenos defeitos e coisas assim da s&#xE9;rie simplesmente porque todo o resto &#xE9; bom demais.</p><p>O resultado geral foi positivo, tanto em venda de produtos quanto em audi&#xEA;ncia. A Takatoku Toys, patrocinadora de <em>Bryger</em>, atribuiu &#xE0; s&#xE9;rie um aumento de 150% nas vendas dos bonecos de suas outras franquias, como <em>Goshogun</em> e <em>Yattodetaman, </em>e o diretor Takao Yotsuji ganhou a fama de &quot;algu&#xE9;m que consegue vender brinquedos de rob&#xF4;s, mesmo sem mostrar eles direito no anime&quot;. O rob&#xF4; tinha t&#xE3;o pouca import&#xE2;ncia para a equipe que, durante a produ&#xE7;&#xE3;o do LP da trilha sonora da s&#xE9;rie, a capa chegou a ser reprovada por n&#xE3;o conter o <em>mecha </em>titular - ela era ilustrada apenas com os membros do J9.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/R-8114931-1455411222-9086.jpeg.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="599" height="602"><figcaption><em>A capa reprovada do LP em quest&#xE3;o, ilustrada por Kazuo Komatsubara</em></figcaption></figure><p>Em especial, <em>Bryger </em>fez bastante sucesso com o p&#xFA;blico feminino, que comparecia nos est&#xFA;dios de grava&#xE7;&#xE3;o em peso para conhecer os dubladores e a equipe, sem d&#xFA;vida encantadas com o charme do <em>bad boys </em>do J9. H&#xE1; registros de <em>doujinshis</em> (obras amadoras) de Bryger datados do come&#xE7;o dos anos 80, escritos por autoras mulheres. V&#xE1;rios dos fansites japoneses que existem at&#xE9; hoje s&#xE3;o mantidos por mulheres, e seus <em>guestbooks </em>est&#xE3;o cheios de declara&#xE7;&#xF5;es apaixonadas de senhoras nost&#xE1;lgicas. Tudo isso foi uma grande surpresa para o diretor Takao Yotsuji, que nunca achou que a s&#xE9;rie fosse fazer sucesso com a mulherada, e tomou v&#xE1;rias decis&#xF5;es de design baseado nos gostos do seu filho pequeno, como fazer o Bryger se transformar em um carro porque seu filho gostava de carros.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-7.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="360" height="512"><figcaption><em>Proceed J9 n&#xBA; 3, </em>doujinshi yaoi <em>de </em>Bryger <em>vendido na Comiket de 1983</em></figcaption></figure><h2 id="entressafra">Entressafra</h2><p>Com o sucesso relativo de Bryger, Shigeo Tsubota percebeu que tinha encontrado um nicho para se firmar, e imediatamente iniciou a conceitualiza&#xE7;&#xE3;o de uma nova obra de mechas. Mas sem saber se a Takatoku Toys realmente estaria interessada, ele enviou o mesmo projeto tamb&#xE9;m para a Clover, uma outra empresa de brinquedos que &#xE9; mais conhecida por ter patrocinado <em>Gundam 0079</em>, e por ter cancelado a s&#xE9;rie de TV antes de seu final devido &#xE0;s baixas vendas de produtos. A Clover, que j&#xE1; patrocinava Honey Honey e ainda trabalharia com a Kokusai Eigasha em outras obras, topou a ideia... E a Takatoku Toys tamb&#xE9;m. Ent&#xE3;o a Kokusai Eigasha come&#xE7;ou a trabalhar em duas obras de <em>mecha </em>em paralelo, produzindo a sequ&#xEA;ncia de <em>Bryger </em>para a Takatoku, e uma nova obra com a Clover.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/zbUBeU81s_s?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Acrobunch</figcaption></figure><p><em>Makyou Densetsu Acrobunch (1982)</em> estreou durante a exibi&#xE7;&#xE3;o inicial de <em>Bryger</em>, contando a hist&#xF3;ria de uma fam&#xED;lia de arque&#xF3;logos que viaja o mundo explorando mist&#xE9;rios, a bordo de uma nave que serve tanto como mecha de combate quanto casa. A s&#xE9;rie &#xE9; not&#xE1;vel por ter sido a primeira s&#xE9;rie da Kokusai Eigasha a ser produzida totalmente in-house, sem depender da Toei Animation... ou pelo menos essa era a ideia, porque a Toei acabou assumindo parte da produ&#xE7;&#xE3;o em certo ponto.</p><p>Boa parte da equipe de <em>Bryger</em> retorna aqui. A s&#xE9;rie foi concebida e roteirizada por Yu Yamamoto, com Takao Yotsuji atuando na dire&#xE7;&#xE3;o - este optou por usar um pseud&#xF4;nimo para permitir que seu colega Yu Yamamoto pudesse brilhar um pouco mais. O tema de abertura, cantado por Yukio Yamagata, conta com outra sequ&#xEA;ncia de abertura deslumbrante de Yoshinori Kanada. No elenco de vez, o destaque &#xE9; a estreia de Shigeru Nakahara, um jovem ator de teatro que decidiu tentar a sorte como <em>seiyuu </em>ap&#xF3;s um convite do diretor Yotsuji, e que viria a se tornar amplamente conhecido por seus papeis de Androide 17 em <em>Dragon Ball Z</em> (1989) e Yoko Kurama em <em>Yu Yu Hakusho </em>(1992)<em>.</em></p><p>Infelizmente, a s&#xE9;rie n&#xE3;o &#xE9; grande coisa. Os problemas na produ&#xE7;&#xE3;o s&#xE3;o &#xF3;bvios, com falas ausentes, sequ&#xEA;ncias est&#xE1;ticas e pouca ousadia. A sequ&#xEA;ncia de encerramento &#xE9; bastante emblem&#xE1;tica, ficando pronta a tempo apenas do epis&#xF3;dio 5 - e mesmo o aprimoramento da vers&#xE3;o final n&#xE3;o &#xE9; muito not&#xE1;vel. Os personagens tamb&#xE9;m s&#xE3;o mais rasos e menos carism&#xE1;ticos que <em>Bryger</em>. Por serem uma fam&#xED;lia, todos os membros possuem um passado em comum, o que impede que os roteiristas lancem m&#xE3;o de dramas familiares e passados dram&#xE1;ticos surpreendentes para a cria&#xE7;&#xE3;o de conflitos.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/mtTJ8nWctWA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption>V&#xED;deo comemorativo do SBT sobre <em>Honey Honey</em></figcaption></figure><p>A segunda obra &#xE9; provavelmente bem mais conhecida do publico brasileiro. Substituindo <em>Wakakusa no Yon Shimai </em>em seu slot de programa&#xE7;&#xE3;o voltado ao p&#xFA;blico feminino, a Kokusai Eigasha produziu <em>Honey Honey no Suteki na Bouken </em>(1981), uma adapta&#xE7;&#xE3;o do mang&#xE1; <em>shoujo </em>hom&#xF4;nimo de Hideko Mizuno, publicado na revista <em>Ribbon </em>da Shueisha em 1966. A s&#xE9;rie foi exibida entre 1987 a 1991 no SBT com o nome <em>Honey Honey </em>- embora popularmente seja conhecida pelo nome adaptado da protagonista, Favos de Mel - e foi um dos maiores sucessos de anime da hist&#xF3;ria do canal. A emissora chegou a fazer<a href="https://www.youtube.com/watch?v=mtTJ8nWctWA"> um especial comemorativo</a> em 2018, que vale a pena assistir. </p><p><em>Honey Honey </em>acabou alguns meses antes do fim da exibi&#xE7;&#xE3;o de <em>Bryger</em>. Engatilhado para substituir a s&#xE9;rie estava <em>Ochamegami Monogatari Korokoro Pollon </em>(1982), ou <em>Little Pollon</em>, adapta&#xE7;&#xE3;o do mang&#xE1; de Hideo Azuma, um prol&#xED;fico e premiado autor que &#xE9; considerado o &quot;pai do <em>lolicon</em>&quot;, tanto por ser uma das bases da est&#xE9;tica <em>moe</em> contempor&#xE2;nea quando por ser um dos editores do Cybele, o primeiro <em>doujin lolicon</em>, que foi publicado na Comiket 10 de dezembro de 1978. O anime conta a hist&#xF3;ria de Pollon, filha do deus Apolo, e sua busca para se tornar uma deusa bela e poderosa.</p><figure class="kg-card kg-embed-card"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/dcOCapVbWLc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe></figure><p><em>Little Pollon </em>foi produzido pela mesma equipe principal de <em>Bryger</em>: Takao Yotsuji como diretor, Yu Yamamoto como roteirista-chefe e Masayuki Yamamoto na trilha sonora. Por estar ocupado com esta obra e tamb&#xE9;m com <em>Acrobunch</em>, Takao Yotsuji teve um envolvimento bem mais limitado na segunda s&#xE9;rie J9. </p><h2 id="a-ventania-gal-ctica">A Ventania Gal&#xE1;ctica</h2><p>A reta final de <em>Bryger</em> &#xE9; uma montanha russa de emo&#xE7;&#xF5;es. O plano de Khamen Khamen envolve explodir J&#xFA;piter em dezenas de planetas menores, garantindo que os humanos tenham mais espa&#xE7;o para colonizar e possam expandir seu potencial ao m&#xE1;ximo. Surpreendendo expectativas, os her&#xF3;is do J9 n&#xE3;o conseguem impedir o plano, mas elaboram um esquema improvisado para impedir que o planeta Terra seja destru&#xED;do no choque. Com um final relativamente feliz, eles decidem partir numa jornada sem volta para os confins do universo, com o intuito de ajudar exploradores a colonizar gal&#xE1;xias distantes. Seria muito f&#xE1;cil simplesmente escrever novas aventuras de Isaac, Kid, Bowie e Angel pelo espa&#xE7;o, encontrando ra&#xE7;as alien&#xED;genas e tramando planos, mas a equipe decidiu seguir numa linha diferente. </p><p><em>Ginga Reppu Baxinger </em>(1982) se passa no sistema solar, 600 anos ap&#xF3;s os eventos finais de <em>Bryger</em>. Com o caos gerado pelas a&#xE7;&#xF5;es de Khamen Khamen, o Sistema Solar reverteu para uma esp&#xE9;cie de feudalismo, com o poder centralizado na Terra, na figura do Imperador do Domestic Bakuufu (algo como Xogunato Dom&#xE9;stico). Vendo que for&#xE7;as revolucion&#xE1;rias amea&#xE7;am destruir a t&#xEA;nue estabilidade pol&#xED;tica, um grupo de guerreiros se inspira nas lendas heroicas do J9 original e decide formar um segundo J9 - a Tropa da Ventania Gal&#xE1;ctica - tornando-se uma for&#xE7;a paramilitar que atua em nome do imperador, cujo trunfo &#xE9; um rob&#xF4; esmagadoramente poderoso chamado Baxinger.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/a73e3LjFwUo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Baxinger</figcaption></figure><p>Alguns j&#xE1; devem ter percebido pela descri&#xE7;&#xE3;o, mas enquanto as inspira&#xE7;&#xF5;es de <em>Bryger</em> s&#xE3;o Lupin e a s&#xE9;rie <em>Hissatsu</em>, <em>Baxinger</em> mergulha fundo no imagin&#xE1;rio do Shinsengumi, uma pol&#xED;cia militar hist&#xF3;rica que defendeu o xogunato Tokugawa entre 1863 e 1869. Como eu havia comentado, a trilogia J9 &#xE9; uma trilogia de paralelos. A pr&#xF3;pria ra&#xED;z do nome <em>Baxinger</em>, <em>bakushin</em>, significa &quot;vassalo do xogunato&quot;. Os protagonistas de <em>Baxinger </em>n&#xE3;o s&#xE3;o apenas um grupo de meia d&#xFA;zia de her&#xF3;is em divertidas perip&#xE9;cias pelo espa&#xE7;o, mas uma verdadeira tropa militar de centenas de guerreiros. Enquanto os epis&#xF3;dios de <em>Bryger </em>tratavam de roubos e de assassinatos, <em>Baxinger </em>toca em tramas pol&#xED;ticas, dramas de hierarquia militar e discuss&#xF5;es sobre heran&#xE7;a e sucess&#xE3;o.</p><p>As tropas do novo J9 s&#xE3;o comandadas por Don Condor (dublado por Kan Tokumaru), um homem idealista, carism&#xE1;tico e de bom cora&#xE7;&#xE3;o. Seu bra&#xE7;o-direito &#xE9; o vice-comandante Schutecken Radcliffe (Kazuyuki Sogabe), um homem p&#xE9;-no-ch&#xE3;o, r&#xED;gido, sem papas na l&#xED;ngua e extremamente leal. Schutecken &#xE9; o respons&#xE1;vel por comandar os capit&#xE3;es que lideram os diversos pelot&#xF5;es - dentre eles, est&#xE1; Shiro Mahoroba (Kaneto Shiozawa), um jovem impulsivo, corajoso e o melhor espadachim do grupo inteiro. Estes tr&#xEA;s personagens representam neste universo as figuras hist&#xF3;ricas de Isami Kondo, Toshizo Hijikata e Soji Okita, e v&#xE1;rios dos acontecimentos reais acabam sendo refletidos no anime. </p><p>Complementando o time temos Lyla Minelli (Yoko Asagami), uma corajosa capit&#xE3; que ganhou a alcunha de &quot;Borboleta Imortal&quot;; Samanosuke Dodi (Katsuji Mori), um <em>ronin</em> indolente que ganha a vida com pequenos assassinatos; Jean-Jacques Johnny (Joji Yanami), um trambiqueiro com incr&#xED;veis contatos que atende pelo nome de 3-J; e os irm&#xE3;os Fang Fang Lee e Jacky Lee (Kazumi Amemiya e Kyouko Tonguu), duas crian&#xE7;as especialistas em infiltra&#xE7;&#xE3;o e sabotagem.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/91vpKYrri0L._AC_SL1500_.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1500" height="1489" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/91vpKYrri0L._AC_SL1500_.jpg 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/91vpKYrri0L._AC_SL1500_.jpg 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/91vpKYrri0L._AC_SL1500_.jpg 1500w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>No alto: Lyla; Da esquerda pra direita: Schutecken, Don Condor, Shiro e Samanosuke</figcaption></figure><p>Todos os dubladores dos papeis principais eram parte do n&#xFA;cleo central de <em>Bryger</em> e est&#xE3;o reprisando papeis e estere&#xF3;tipos bastante parecidos, servindo como &#xE2;ncora para a mudan&#xE7;a bastante brusca de tom entre as duas s&#xE9;ries. A &#xFA;nica exce&#xE7;&#xE3;o &#xE9; Kan Tokumaru, que al&#xE9;m de dar voz ao comandante das tropas, tamb&#xE9;m faz as vezes de narrador inicial, abrindo cada epis&#xF3;dio com uma frase que d&#xE1; o tom perfeito da produ&#xE7;&#xE3;o, invocando um mundo mais violento e perigoso, cheio de trai&#xE7;&#xF5;es e perf&#xED;dia, mas que no fundo ainda era o mesmo: &quot;<em>Voc&#xEA; sabe quem foram os J9? Muito tempo atr&#xE1;s, eles causaram o maior barraco no Sistema Solar! Mas agora os tempos s&#xE3;o outros, e se voc&#xEA; der mole, v&#xE3;o te esfaquear pelas costas... Sempre foi assim, e ainda continua!</em>&quot; Essa imponente frase precede a ic&#xF4;nica abertura da s&#xE9;rie, animada pelo lend&#xE1;rio animador Shingo Araki. O nome pode n&#xE3;o ser familiar pra voc&#xEA;, mas o trabalho dele certamente &#xE9; - entre seus cr&#xE9;ditos est&#xE3;o o character design e a anima&#xE7;&#xE3;o das duas aberturas e encerramentos de Cavaleiros do Zod&#xED;aco.</p><p>Talvez a mudan&#xE7;a mais brusca e confusa seja a quest&#xE3;o do n&#xED;vel tecnol&#xF3;gico das duas s&#xE9;ries. Enquanto a maioria dos combates na s&#xE9;rie anterior envolvem pistolas laser e canh&#xF5;es de plasma, aqui as disputas s&#xE3;o resolvidas com duelos de espadas... Mas ao mesmo tempo, eles guerreiam pilotando motos espaciais, capazes de decolar para a estratosfera sem nenhum outro tipo de aparato. &#xC9; &#xF3;bvio que essa decis&#xE3;o foi tomada para poder dar um sabor meio <em>cyberchanbara </em>&#xE0; briga, e tamb&#xE9;m porque ningu&#xE9;m que se d&#xEA; ao respeito vai ficar analisando a fundo a consist&#xEA;ncia de um desenho de crian&#xE7;as, mas n&#xE3;o deixam de ser detalhes que h&#xE3;o de alienar as audi&#xEA;ncias mais exigentes de hoje em dia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-4.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1920" height="826" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-4.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image-4.png 1000w, https://arara.me/content/images/size/w1600/2021/04/image-4.png 1600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-4.png 1920w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>&#xC0; esquerda: soldados da Tropa da Ventania; &#xE0; direita, pessoas vestidas de Shinsengumi no evento Hino Shinsengumi Matsuri. Note os detalhes das mang&#xE1;s do haori.</em></figcaption></figure><p>A ideia de misturar mechas com per&#xED;odos hist&#xF3;ricos era relativamente nova, mas <em>Baxinger</em> n&#xE3;o foi o pioneiro. Entre janeiro de 1981 e janeiro de 1982, a Sunrise produziu <em>Saikyou Robo Daiohja</em> (<em>Daiohger, o Mais Forte dos Rob&#xF4;s</em>, em tradu&#xE7;&#xE3;o livre), uma livre adapta&#xE7;&#xE3;o da lenda do daimyo andarilho Mito Komon, que vagava inc&#xF3;gnito pelas prov&#xED;ncias do Jap&#xE3;o punindo malfeitores literalmente na base da carteirada. Por outro lado, &#xE9; o primeiro anime de TV que trata do tema do Shinsengumi, um tema que hoje em dia &#xE9; extremamente popular e inspirou obras como <em>Rurouni Kenshin</em>, <em>Gintama </em>e <em>Golden Kamuy</em>. Romantizados em diversos filmes e seriados, &#xE9; a primeira vez que o famoso grupo de <em>ronins</em> aparece animado na tela na TV, ainda que indiretamente.</p><p>Os paralelos entre <em>Baxinger</em> e as lendas do Shinsengumi s&#xE3;o in&#xFA;meras. Toshizo Hijikata era conhecido como o &quot;Vice-Comandante Demon&#xED;aco&quot;, devido &#xE0; sua exacerbada rigidez; Schutecken Radcliffe &#xE9; conhecido como &quot;Schutecken de Dois Gumes&quot;, por punir aliados e inimigos com a mesma ferocidade. Soji Okita famosamente usava uma t&#xE9;cnica que ele batizou de Mumyo-ken, ou &quot;L&#xE2;mina sem Luz&quot;; na reta final da s&#xE9;rie, Shiro Mahoroba fica literalmente cego, mas gra&#xE7;as aos seus instintos de guerreiro ainda consegue brandir sua espada. Um dos grandes fatores que causaram press&#xE3;o sobre o Xogunato, acarretando na cria&#xE7;&#xE3;o do Shinsengumi, foi a introdu&#xE7;&#xE3;o da cultura estrangeira na sociedade japonesa; em <em>Baxinger,</em> colonistas do espa&#xE7;o sideral tentam abrir canais de neg&#xF3;cio com o Sistema Solar, advindos de planetas como Merika (EUA), Engels (Inglaterra), e Rance (Fran&#xE7;a). E &#xE9; claro, o desfecho: assim como sabemos que a Restaura&#xE7;&#xE3;o Meiji ocorreu, o futuro dos guerreiros do novo J9 est&#xE1; tra&#xE7;ado desde o primeiro epis&#xF3;dio.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-6.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="419" height="419"><figcaption>Uma rara foto de Hijikata Toshizo, vice-comandante do Shinsengumi, em meados de 1860.</figcaption></figure><p>H&#xE1; muitas outras refer&#xEA;ncias e paralelos, tornando <em>Baxinger </em>um prato cheio para quem domina esse momento da hist&#xF3;ria. Mas apesar de se passar num universo paralelo feudal de s&#xE9;culos de dist&#xE2;ncia, ainda h&#xE1; um la&#xE7;o unindo diretamente esta obra &#xE0; sua antecessora: Khamen Khamen XVIII, um distante descendente do Khamen Khamen original de <em>Bryger</em>, reaparece para causar ainda mais tumulto e confus&#xE3;o no sistema pol&#xED;tico daquele mundo.</p><p>Em quest&#xE3;o de trilha sonora, <em>Baxinger </em>provavelmente tem a melhor de todas as tr&#xEA;s s&#xE9;ries, lotada de m&#xFA;sicas ic&#xF4;nicas e que s&#xE3;o utilizadas em profus&#xE3;o ao longo da s&#xE9;rie - at&#xE9; porque &#xE9; mais barato rodar uma can&#xE7;&#xE3;o por um minuto e meio do que escrever roteiros, gravar atua&#xE7;&#xF5;es e animar personagens falando. Masayuki Yamamoto retorna para comandar a trilha sonora, compondo todas as can&#xE7;&#xF5;es em parceria com Yu Yamamoto, que escreveu as letras. A abertura e v&#xE1;rios dos temas &#xE9; cantada por Yukio Yamagata, com destaque para a ic&#xF4;nica &quot;Ai no Riding Machine&quot;, mas &#xE9; um consenso no fandom de que as melhores s&#xE3;o &quot;Asteroid Blues&quot; e &quot;My Soul Journey&quot;, cantadas pela desconhecida e irrastre&#xE1;vel Naomi Masuda.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/boIokN4w3x4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Asteroid Blues, encerramento de </em>Baxinger</figcaption></figure><p>Em quase todos os quesitos, <em>Baxinger </em>&#xE9; t&#xE3;o bom ou melhor quanto seu antecessor. As atua&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o mais convincentes, O enredo intrincado, for&#xE7;ando o espectador a acompanhar as v&#xE1;rias fac&#xE7;&#xF5;es, planetas, alian&#xE7;as e trai&#xE7;&#xF5;es que acontecem, pode confundir quem n&#xE3;o est&#xE1; prestando aten&#xE7;&#xE3;o, mas provavelmente s&#xE3;o mais do agrado de audi&#xEA;ncias mais modernas. Kazuyuki Sogabe ganha mais material para trabalhar, a a&#xE7;&#xE3;o &#xE9; mais intensa, as m&#xFA;sicas s&#xE3;o excelentes, e a anima&#xE7;&#xE3;o tem uma melhora bastante marginal. Inclusive, muito da performance dos dubladores se deve a Takao Yotsuji, que n&#xE3;o dirigiu a obra, mas assumiu a dire&#xE7;&#xE3;o de dublagem a partir do epis&#xF3;dio 19, quando o antigo diretor de som teve um desentendimento com Yu Yamamoto.</p><p>O &#xFA;nico quesito que n&#xE3;o melhorou muito foi a anima&#xE7;&#xE3;o em si, que ainda era um tanto capenga. A produ&#xE7;&#xE3;o mista entre Jap&#xE3;o e Coreia em uma &#xE9;poca onde a internet ainda era praticamente inexistente se provava um grande desafio, com pacotes de correio com cenas inteiras atravessando o mar de um lado pro outro. O reaproveitamento de cenas inteiras &#xE9; ainda mais recorrente do que em Bryger, geralmente embaladas por uma das excelentes <em>insert songs, </em>que acabam sendo usadas um pouco mais do que deviam. Por sorte, o grosso da narrativa se passa em salas fechadas, em discuss&#xF5;es acaloradas ou em mon&#xF3;logos introspectivos silenciosos, com cenas est&#xE1;ticas e simples de se animar. Como j&#xE1; &#xE9; quase uma tradi&#xE7;&#xE3;o na trilogia J9, o rob&#xF4; titular costuma aparecer apenas no minuto final do epis&#xF3;dio, depois que os protagonistas combinam suas motos espaciais numa &#xFA;nica entidade.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-8.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="800" height="600" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-8.png 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-8.png 800w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Baxinger DX, da Takatoku Toys, capaz de combinar as motos individuais no mecha principal</em></figcaption></figure><p>O resultado disso tudo foi misto. Assim como <em>Bryger, Baxinger </em>n&#xE3;o atraiu muita audi&#xEA;ncia de TV e n&#xE3;o foi um grande sucesso de venda de bonequinhos. O fim tr&#xE1;gico teve uma recep&#xE7;&#xE3;o mista, tida por alguns como desnecessariamente triste e cruel, e por outros como dram&#xE1;tica e &#xE9;pica, e assim como o pr&#xF3;prio enredo, n&#xE3;o foi t&#xE3;o bem compreendido pelo p&#xFA;blico-alvo jovem que tentava atingir. Mas assim como <em>Bryger</em>, a obra ganhou um status <em>cult </em>e foi tema de v&#xE1;rios doujinshis da &#xE9;poca, com um apelo n&#xE3;o muito diferente do de obras modernas como <em>Touken Ranbu </em>e <em>Gintama, </em>tamb&#xE9;m fortemente inspiradas no Shinsengumi.</p><p>Mas apesar dos problemas financeiros que se acumulavam e da insatisfa&#xE7;&#xE3;o de sua patrocinadora, a Kokusai Eigasha ainda n&#xE3;o tinha se dado por vencida, e j&#xE1; come&#xE7;ara a produ&#xE7;&#xE3;o de uma terceira s&#xE9;rie J9.</p><h2 id="alerta-de-macaco">Alerta de Macaco</h2><p>Durante a produ&#xE7;&#xE3;o de <em>Baxinger</em>, a Kokusai Eigasha trabalhou na produ&#xE7;&#xE3;o e planejamento em outras tr&#xEA;s obras fora da trilogia J9. Uma delas era <em>Nanako SOS </em>(1983), outra adapta&#xE7;&#xE3;o das obras de Hideo Azuma, cuja estreia emendou com o fim de <em>Little Pollon</em>. Em <em>Nanako SOS</em>, uma jovem chamada Nanako &#xE9; v&#xED;tima de um experimento cient&#xED;fico conduzido por um doutor maluco, ganhando superpoderes e perdendo a mem&#xF3;ria no processo. O doutor se oferece para ajud&#xE1;-la a recuperar a mem&#xF3;ria se ela o auxiliar em sua ag&#xEA;ncia de detetives. Assim como <em>Honey Honey </em>e <em>Little Pollon,</em> <em>Nanako SOS </em>estreava aos s&#xE1;bados, &#xE0;s 18:00, na Fuji TV, mantendo assim ininterrupto um bloco de anima&#xE7;&#xF5;es estrelado por hero&#xED;nas por mais de dois anos.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/e07ijwWjnQ4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Nanako SOS</figcaption></figure><p>Outra das produ&#xE7;&#xF5;es da Kokusai Eigasha desta &#xE9;poca &#xE9; o mecha <em>Akuu Daisakusen Srungle</em> (1983), que chegou a vir pro Brasil como <em>Esquadr&#xE3;o do Espa&#xE7;o </em>ou <em>Esquadr&#xE3;o Gorila</em>, no programa do Palha&#xE7;o Fosco da TV Record nos anos 1990. Nele, um esquadr&#xE3;o de cientistas e aventureiros &#xE9; encarregado de manter a paz no espa&#xE7;o e impedir os ataques de uma organiza&#xE7;&#xE3;o do mal apropriadamente chamada de Crime. O clima da s&#xE9;rie era bem similar a <em>Bryger,</em> com um elenco principal formado em especialistas em tiro, explosivos, infiltra&#xE7;&#xE3;o, e com o drama interpessoal toma a dianteira da narrativa, muito al&#xE9;m das brigas do Srungle com os rob&#xF4;s inimigos. Estreando na TV Asahi, a s&#xE9;rie ficou um ano no ar, o que lhe deu bastante tempo para armar reviravoltas e um acontecimento marcante que marca a transi&#xE7;&#xE3;o do primeiro para o segundo arco da s&#xE9;rie. Marcou &#xE9;poca pela inusitada m&#xFA;sica da primeira abertura e pelas in&#xFA;meras refer&#xEA;ncias salpicadas ao longo de seus 53 epis&#xF3;dios.</p><p>O character design de <em>Srungle</em> &#xE9; creditado ao famoso artista Yoshitaka Amano, mais conhecido mundialmente por ser o designer de personagens de praticamente todas as edi&#xE7;&#xF5;es da s&#xE9;rie de jogos Final Fantasy. Ele j&#xE1; era um veterano do est&#xFA;dio Tatsunoko Pro, trabalhando como designer de personagens em s&#xE9;ries como <em>Gatchaman </em>(1972)<em>, Casshern </em>(1973) e toda a franquia <em>Time Bokan</em> at&#xE9; ent&#xE3;o. <em>Srungle </em>foi a primeira obra que ele produziu fora da Tatsunoko Pro, e seria a &#xFA;nica at&#xE9; que ex-funcion&#xE1;rios da Tatsunoko Pro fundassem um novo est&#xFA;dio chamado Pierrot, que dispensa apresenta&#xE7;&#xF5;es. </p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/qK_pDGzJubo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>A famosa primeira abertura de </em>Srungle, <em>feita sob medida para karaok&#xEA;s</em></figcaption></figure><p>Yoshitaka Amano tamb&#xE9;m viria a participar do especial para TV <em>Ai no Kiseki </em>- <em>Doctor Norman Monogatari, </em>que estreou na TV Asahi na v&#xE9;spera do Natal de 1982. &#xC9; uma das rar&#xED;ssimas ocasi&#xF5;es em que Amano trabalhou n&#xE3;o apenas como designer de personagens mas tamb&#xE9;m como diretor de anima&#xE7;&#xE3;o, o respons&#xE1;vel por revisar todos os cortes animados e garantir qualidade e consist&#xEA;ncia entre eles. A hist&#xF3;ria trata de Oppenheimer, um talentoso cirurgi&#xE3;o incapaz de superar a culpa de ter causado um acidente e a morte de uma crian&#xE7;a, e que vive nas ruas sob o nome de Norman, com medo de ser pego pela pol&#xED;cia. Pouqu&#xED;ssima informa&#xE7;&#xE3;o sobre este especial sobreviveu at&#xE9; os dias de hoje.</p><p>Estas tr&#xEA;s obras contaram com dire&#xE7;&#xE3;o de enredo de Yu Yamamoto, mostrando como a influ&#xEA;ncia e os contatos desse profissional foi essencial para a sustenta&#xE7;&#xE3;o da empresa. N&#xE3;o &#xE9; improv&#xE1;vel que tenha sido ele o respons&#xE1;vel por chamar Amano para os projetos, visto que j&#xE1; haviam trabalhado juntos em <em>Yattodetaman </em>e outras obras da s&#xE9;rie <em>Time Bokan</em>. Masayuki Yamamoto tamb&#xE9;m trabalhou na trilha sonora das tr&#xEA;s obras, embora o cr&#xE9;dito principal da trilha sonora de <em>Nanako SOS</em> seja de Ichiro Nitta. Mas diferentemente de Yu Yamamoto, Masayuki ainda era apenas um humano normal, e o excesso de trabalho pode explicar o fato dele ficar de fora da terceira s&#xE9;rie da franquia J9.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-9.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="928" height="903" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-9.png 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-9.png 928w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Srungle ST, produzido pela Clover</em></figcaption></figure><p><em>Srungle, </em>assim como <em>Acrobunch, Honey Honey </em>e <em>Little Pollon</em>, foram obras patrocinadas pela fabricante de brinquedos Clover. Eram algumas das v&#xE1;rias apostas da fabricante, que queria surfar no <em>boom </em>causado por Gundam e estava em busca de um novo sucesso avassalador. Infelizmente, nem <em>Srungle </em>e nem <em>Aura Battler Dunbine</em> <em>(1983)</em> conseguiram trazer os resultados de que a empresa precisava, e ela fechou as portas em 1983, anunciando o estouro da bolha de brinquedos que mudaria radicalmente a ind&#xFA;stria nos anos seguintes. </p><h2 id="o-furac-o-gal-ctico">O Furac&#xE3;o Gal&#xE1;ctico</h2><p>Ap&#xF3;s dirigir <em>Bryger</em>, Takao Yotsuji se ocupou de dirigir duas s&#xE9;ries ao mesmo tempo - <em>Acrobunch </em>e <em>Little Pollon</em> - coisa que ele nunca viria a repetir no resto de sua carreira. Ele, que n&#xE3;o se interessava por mechas, optou por usar um pseud&#xF4;nimo em <em>Acrobunch </em>e deixar todo o controle criativo nas m&#xE3;os de Yu Yamamoto, aparentemente concentrando-se na jovem deusa grega. Ent&#xE3;o, quando ficou decidido que Takao Yotsuji voltaria para dirigir a s&#xE9;rie J9, ele decidiu que queria fazer do jeito dele.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/GgP4aMcm5dU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Sasuraiger</figcaption></figure><p>A ra&#xED;z do nome <em>Ginga Shippu Sasuraiger </em>(1983) (<em>Sasuraiger, o Furac&#xE3;o Gal&#xE1;ctico </em>em tradu&#xE7;&#xE3;o livre)<em> </em>&#xE9; <em>sasurai </em>- vagar, viajar sem destino. Assim como <em>Bryger </em>bebe de seriados de samurai e <em>Baxinger </em>se inspira nos lend&#xE1;rios Shinsengumi, <em>Sasuraiger </em>tamb&#xE9;m tem uma inspira&#xE7;&#xE3;o bem clara e um tanto ocidental, se comparada com as outras: o livro <em>A Volta ao Mundo em 80 Dias.</em></p><p>Bruce Bernstein &#xE9; um homem dotado de uma intelig&#xEA;ncia excepcional, quase como a de um computador, o que lhe rendeu o apelido de I.C. Blues (I.C. sendo a sigla de circuito integrado). Durante uma noite particularmente sortuda em um cassino ilegal, ele &#xE9; confrontado pelo dono do estabelecimento - um sujeito sinistro que aparece apenas nas sombras e &#xE9; conhecido como Bloody God, se voc&#xEA; tinha alguma d&#xFA;vida de que ele era o vil&#xE3;o. Eles firmam uma aposta: se I.C. Blues conseguir visitar todos os 50 planetas do Sistema Solar dentro de um ano solar padr&#xE3;o, ele dobra sua fortuna e leva o Bloody Sindicate &#xE0; fal&#xEA;ncia. Caso contr&#xE1;rio, I.C. Blues perde tudo.</p><p><em>(50 planetas? Pois &#xE9;, Khamen Khamen fez um estrago e tanto!)</em></p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-10.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1225" height="919" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-10.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image-10.png 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-10.png 1225w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Bloody God, o antagonista da s&#xE9;rie, sempre aparece envolto em sombras, sem revelar sua identidade</figcaption></figure><p>Infelizmente para I.C. Blues, sua intelig&#xEA;ncia espantosa n&#xE3;o lhe previne de cair em um <em>loophole </em>bastante &#xF3;bvio do contrato - Bloody God n&#xE3;o precisa pagar nada se I.C. Blues estiver morto. Durante sua fuga dos tiroteios do cassino, Bruce acaba conhecendo alguns aliados de &#xFA;ltima hora e &quot;comprando&quot; uma locomotiva de &#xFA;ltima gera&#xE7;&#xE3;o para voar pelo espa&#xE7;o e escapar do sindicato criminoso. Esse &#xE9; o J9-III, um modelo experimental capaz de se transformar no poderoso rob&#xF4; Sasuraiger, e que serve como base, ve&#xED;culo e arma b&#xE9;lica, a exemplo do <em>mecha</em> de <em>Acrobunch</em>. Notando os paralelos entre seus comparsas e o lend&#xE1;rio J9 que habitava o cintur&#xE3;o de aster&#xF3;ides, I.C. Blues decide formar o JJ9 (double-jay-nine). Juntos, eles viajam pelo universo, ajudando a quem precisa e deixando sua marca por onde passam, mais do que literalmente.</p><p><em>Sasuraiger </em>volta &#xE0;s ra&#xED;zes de <em>Bryger</em>, com aventuras gal&#xE1;cticas a bordo de uma nave-que-vira-rob&#xF4;. Apesar de ser uma brusca mudan&#xE7;a em rela&#xE7;&#xE3;o a <em>Baxinger, </em>a s&#xE9;rie n&#xE3;o foi exatamente ignorada. Em um dos epis&#xF3;dios, os JJ9 visitam o planeta Longoo, terra natal das tropas de Don Condor e Schutecken, onde os moradores trabalham para esculpir os rostos dos her&#xF3;is da revolu&#xE7;&#xE3;o na escarpa de um c&#xE2;nion, tal qual um Monte Rushmore. Em outro epis&#xF3;dio, um dos mais hil&#xE1;rios da s&#xE9;rie, uma trupe de teatro encena uma pe&#xE7;a sobre a dram&#xE1;tica morte do xogum Yurri, e os JJ9 acabam envolvidos na produ&#xE7;&#xE3;o para escapar da persegui&#xE7;&#xE3;o dos malfeitores. Mas apesar de reconhecer a exist&#xEA;ncia e o impacto da anacr&#xF4;nica segunda s&#xE9;rie, o status quo do universo est&#xE1; muito mais conectado com o fim de <em>Bryger</em>, sem sinal de motos espaciais, brigas de espada e tramas feudais.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-11.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1430" height="1413" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-11.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image-11.png 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-11.png 1430w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Da esquerda pra direita: Rock, Birdy (embaixo), Blues e Beat</figcaption></figure><p>Como de costume, o elenco de voz principal retorna em seus novos pap&#xE9;is an&#xE1;logos, com personagens criados mais uma vez por Kazuo Komatsubara. Kazuyuki Sogabe, Kaneto Shiozawa, Katsuji Mori e Yoko Asagami interpretam Blues, Rock, Beat e Birdie, formando o n&#xFA;cleo duro do JJ9. Joji Yanami retorna no papel de D.D. Richman, mais uma vez fazendo as vezes do mercador escuso de bom cora&#xE7;&#xE3;o, que tenta parasitar os her&#xF3;is para ganhar uma grana f&#xE1;cil. Kan Tokumaru, o Don Condor de <em>Baxinger</em>, retorna como o inspetor Organ, que persegue Blues por suspeitar que ele seja o respons&#xE1;vel por um roubo a banco de milh&#xF5;es de cr&#xE9;ditos. Tamb&#xE9;m mantendo a tradi&#xE7;&#xE3;o do elenco de apoio, temos Jimmy e Suzie, um casal de adolescentes que fazem de tudo na nave. Jimmy &#xE9; descendente de japoneses, Suzie de chineses, e eles encontram no J9-III a sa&#xED;da perfeita para escapar de suas fam&#xED;lias, que n&#xE3;o aprovam o relacionamento.</p><p>Um outro importante personagem cristaliza tudo o que a produ&#xE7;&#xE3;o de J9 era na &#xE9;poca. Em meados da s&#xE9;rie, frustrado com suas tentativas falhas de matar I.C. Blues, Bloody God resolve contratar Fluzer Gellner, um assassino profissional equipado com seu pr&#xF3;prio mecha inteiramente dourado. Isso seria dois anos antes de Quattro e seu Hyakushiki darem as caras em <em>Zeta Gundam </em>(1985) mas, admitidamente, dois anos depois do nascimento do ic&#xF4;nico e c&#xFA;bico <em>Gold Lightan </em>(1981). Fluzer Gellner faz o tipo de assassino silencioso, que fala muito pouco e com roupas meio metidas a caub&#xF3;i, como um protagonista de um filme do Clint Eastwood. </p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-13.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="977" height="300" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-13.png 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-13.png 977w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Fluzer Gellner e seu VIC-5</em></figcaption></figure><p>Mas Yotsuji queria colocar pelo menos algumas falas na obra, ainda que nada constasse nos roteiros. Ent&#xE3;o ele, aproveitando que tamb&#xE9;m atuava como diretor de dublagem, esperava o est&#xFA;dio ficava vazio e todos os atores irem embora para gravar escondido as frases que inventava e colocar no anime sem que ningu&#xE9;m percebesse. Obviamente perceberam, e atores como Katsuji Mori deram uma bronca nele, mas tudo acabou bem. Esse estilo <em>laissez-faire </em>de produ&#xE7;&#xE3;o e esse ambiente descontra&#xED;do de camaradagem s&#xE3;o o n&#xFA;cleo do que fazem a s&#xE9;rie J9 ser o que &#xE9;.</p><p>Eem 1983, Masayuki Yamamoto j&#xE1; estava ocupado com dois outros projetos da Kokusai Eigasha e com <em>Itadakiman, </em>a itera&#xE7;&#xE3;o da s&#xE9;rie <em>Time Bokan </em>de 1983. Talvez por isso sua participa&#xE7;&#xE3;o em <em>Sasuraiger </em>tenha sido t&#xE3;o limitada, se comparada a das outras obras J9. Masayuki Yamamoto comp&#xF4;s a primeira abertura e encerramento, mas os arranjos dessas can&#xE7;&#xF5;es e a trilha sonora da s&#xE9;rie ficariam a cargo de um jovem e talentoso compositor chamado Joe Hisaishi. Ele, que havia trabalhado nos filmes-compila&#xE7;&#xE3;o de <em>Gundam 0079</em>, trabalhou nas m&#xFA;sicas de <em>Sasuraiger</em> um ano antes de se tornar o compositor de <em>Nausicaa do Vale do Vento </em>(1984) e ganhar renome internacional como o compositor dos filmes do Studio Ghibli. Meu destaque pessoal para a trilha sonora de Sasuraiger &#xE9; a m&#xFA;sica que parece Biquini de Bolinha Amarelinha.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/GgB7SP-B_zs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Joe Hisaishi curte Celly Campello; confira</em></figcaption></figure><p>Yukio Yamagata, a voz da trilogia J9, tamb&#xE9;m tem uma participa&#xE7;&#xE3;o bastante limitada em <em>Sasuraiger, </em>cantando apenas uma can&#xE7;&#xE3;o-tema de um dos epis&#xF3;dios. A abertura e a maioria das insert songs &#xE9; creditada ao cantor e compositor Ai Takano, sob o pseud&#xF4;nimo MOTCHIN, que chegou a lan&#xE7;ar tr&#xEA;s singles com as can&#xE7;&#xF5;es: &quot;<em>Ginga Shippu Sasuraiger</em>&quot;, &quot;<em>Planets Bay Road</em>&quot; e o dram&#xE1;tico, sinf&#xF4;nico e lamentoso tema musical de Rock Anrock, &quot;<em>Long Goodnight</em>&quot;. Por muito tempo considerado uma esp&#xE9;cie de <em>one-hit wonder </em>dos anos 60, sua carreira ganhou novo f&#xF4;lego no come&#xE7;o dos anos 80, e o sucesso dos singles de <em>Sasuraiger </em>levou Ai Takano a ser convidado para novos projetos, inclusive um bastante especial do p&#xFA;blico brasileiro: ele &#xE9; tamb&#xE9;m o cantor da abertura e de m&#xFA;ltiplas can&#xE7;&#xF5;es d&apos;<em>O Fant&#xE1;stico Jaspion</em>.</p><p>Estruturalmente, o enredo de <em>Sasuraiger </em>&#xE9; muito conveniente para o formato epis&#xF3;dico das s&#xE9;ries da &#xE9;poca. A equipe precisa visitar 50 planetas diferentes ao longo de um ano, o que d&#xE1; em m&#xE9;dia um planeta por semana, e uma s&#xE9;rie que ficaria um ano no ar. A press&#xE3;o de tempo cria alguns momentos bastante emocionantes, como o epis&#xF3;dio em que os remanescentes do culto de Khamen Khamen resolvem transformar um dos planetoides em uma espa&#xE7;onave rumo ao espa&#xE7;o sideral, e a equipe JJ9 precisa alcan&#xE7;&#xE1;-los antes que eles se distanciem demais. Tamb&#xE9;m oferece uma desculpa para visitar a terra natal dos diversos protagonistas da s&#xE9;rie e desenvolver seus passados e dilemas. O pai de Rock foi morto por uma gangue, e ele aproveita a jornada para saciar sua sede de vingan&#xE7;a. Os pais de Birdy, separados, aparecem em dois planetas diferentes para ajudar o grupo.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/K2m7z19GYbY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Insert songs de Sasuraiger, compostas por Joe Hisaishi e escritas por Yu Yamamoto. Ai Takano, o cantor de Jaspion, canta as duas &#xFA;ltimas can&#xE7;&#xF5;es</em></figcaption></figure><p>Ent&#xE3;o voc&#xEA;s podem imaginar a ang&#xFA;stia da equipe quando foram avisados, em meados do epis&#xF3;dio 30, de que a s&#xE9;rie acabaria no epis&#xF3;dio 43. Nos epis&#xF3;dios 38, 39 e 42, a equipe visita 11 planetas diferentes, ganhando tempo para fechar na medida do poss&#xED;vel algumas hist&#xF3;rias urgentes, como a vingan&#xE7;a do Rock, a acusa&#xE7;&#xE3;o de roubo de I.C. Blues e o embate final contra Fluzer Gellner. </p><p>O epis&#xF3;dio final amarra apressadamente tr&#xEA;s narrativas: o resultado da aposta, com Bloody God muito honradamente admitindo a derrota; o casamento de Jimmy e Suzie e a reden&#xE7;&#xE3;o de suas fam&#xED;lias; e o arco do Beat, que nutre um relacionamento <em>slowburn </em>com a rep&#xF3;rter que registra todos os feitos do JJ9, Petit Lotti. Ele tem um clima de &quot;fim de festa&quot;; a esta altura, a equipe j&#xE1; sabia que a s&#xE9;rie J9 n&#xE3;o receberia uma continua&#xE7;&#xE3;o, e ningu&#xE9;m estava muito contente com isso. No encerramento do &#xFA;ltimo epis&#xF3;dio, Beat &#xE9; visto segurando um roteiro de um tal &quot;J9-V&quot;, indicando que uma sequ&#xEA;ncia estava sendo planejada. A sequ&#xEA;ncia final &#xE9; uma montagem com todos os protagonistas das tr&#xEA;s s&#xE9;ries, dando um fim bastante digno &#xE0; trilogia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-15.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="1217" height="925" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-15.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2021/04/image-15.png 1000w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-15.png 1217w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Beat l&#xEA; o roteiro da pr&#xF3;xima aventura J9 que nunca se realizou</em></figcaption></figure><p>Os relatos sobre a popularidade de <em>Sasuraiger</em> s&#xE3;o mistos, para dizer o m&#xED;nimo. Muitos apontam para a resiliente popularidade da trilogia J9, mas &#xE9; fato que a s&#xE9;rie foi cancelada antes da hora e n&#xE3;o teve uma continua&#xE7;&#xE3;o. Parte do cancelamento se deve a outros fatores alheios &#xE0; s&#xE9;rie, como a situa&#xE7;&#xE3;o financeira da Kokusai Eigasha e da Takatoku Toys, a principal patrocinadora da s&#xE9;rie. A Takatoku obteve um breve respiro em 1982, com um modelo de sucesso do VF-1 Valkyrie de <em>Super Dimensional Fortress Macross </em>(1982), projetado em parceria com o criador da s&#xE9;rie Shoji Kawamori e capaz de se transformar perfeitamente em ca&#xE7;a, mas dois anos j&#xE1; haviam se passado e eles precisavam de um novo sucesso. &#xC9; poss&#xED;vel que tenham achado melhor apostar no lan&#xE7;amento de uma nova franquia do que manter a hist&#xF3;ria por mais tr&#xEA;s meses no ar.</p><p>Para fechar com chave de ouro, aproximadamente uma semana depois do fim de <em>Sasuraiger</em>, a equipe realizou o <em>J9 Sayonara Rock Concert,</em> um show de rock de verdade em uma casa de shows em T&#xF3;quio, reunindo os dubladores, a equipe de produ&#xE7;&#xE3;o e v&#xE1;rios dos m&#xFA;sicos da franquia tocando as can&#xE7;&#xF5;es da s&#xE9;rie. Os breves relatos que ainda persistem na internet d&#xE3;o a entender que a casa ficou lotada, que o n&#xFA;mero de f&#xE3;s mulheres era surpreendente, e que havia um sentimento de uni&#xE3;o e companheirismo entre os f&#xE3;s.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/B8_0eZ7IMAAj6go.jpg" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="576" height="1024"><figcaption><em>Flyer do evento realizado em 1984, compartilhado pelo usu&#xE1;rio <a href="https://twitter.com/eightogata/status/562937285419995136">@eightogata</a> no Twitter. Masayuki Yamamoto, Yukio Yamagata, Naomi Masuda, MOTCHIN, Isao Taira e outros m&#xFA;sicos compareceram.</em></figcaption></figure><h2 id="abayo-fly-bye">Abayo Fly Bye</h2><p><em>Sasuraiger </em>n&#xE3;o foi a morte da MIC, mas eles tamb&#xE9;m n&#xE3;o duraram muito mais tempo. Eles trabalharam em apenas mais tr&#xEA;s s&#xE9;ries, duas delas logo depois do fim conjunto de <em>Sasuraiger </em>e <em>Srungle</em>, no fim de janeiro de 1984. De modo geral, essas tr&#xEA;s s&#xE9;ries s&#xE3;o bastante emblem&#xE1;ticas das ondas de mudan&#xE7;a que vinham varrendo o mercado de animes daquela &#xE9;poca.</p><p><em>Chou Kosoku Galvion (O Extremamente Superveloz Galvion</em>, em tradu&#xE7;&#xE3;o livre) (1984) representava a nova aposta de s&#xE9;rie para vender brinquedos da Takatoku. Ocupando o slot deixado por <em>Srungle </em>na TV Asahi, <em>Galvion </em>n&#xE3;o contou com nenhuma das mentes que dominavam o criativo da Kokusai Eigasha. A obra foi dirigida por Akira Higino e escrito por Tsunehisa Ito, dois veteranos da ind&#xFA;stria com pouqu&#xED;ssima experi&#xEA;ncia nos cargos principais. Dentre os nomes do elenco destaca-se Koichi Ohata, um promissor designer mec&#xE2;nico em sua segunda obra, que viria a despontar uns quatro ou cinco anos depois em obras como <em>Char&apos;s Counterattack</em> (1988) e <em>Gunbuster (1988)</em>.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/lurMLaFQJZU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>&quot;Lonely Chaser&quot;, abertura de </em>Chou Kosoku Galvion</figcaption></figure><p>No mundo de <em>Galvion, </em>uma bilion&#xE1;ria decide fundar uma associa&#xE7;&#xE3;o secreta de justiceiros para acabar com o crime no mundo, e ordena a produ&#xE7;&#xE3;o de um poderoso mecha chamado Galvion. Quando ela se v&#xEA; com problemas para encontrar pilotos para o rob&#xF4;, ela faz um acordo com dois detentos: pilotem o Galvion, derrotem a Shadow, ganhem anistia. Desnecess&#xE1;rio dizer que esta &#xE9; uma obra de uma estrutura muito mais tradicional, com linhas de bem e mal claramente delineadas, ainda que os dois her&#xF3;is estejam cumprindo pena na cadeia. Mas isso n&#xE3;o quer dizer que o DNA da Kokusai Eigasha tenha sumido por completo: a abertura continua sendo o grande chamariz da obra, com uma can&#xE7;&#xE3;o bastante moderna que evoca um pouquinho de <em>Maniac</em>, o tema principal do filme <em>Flashdance, </em>lan&#xE7;ado h&#xE1; menos de um ano.</p><p>Seja como for, a s&#xE9;rie mal conseguiu mostrar a que veio. Em 25 de maio, no meio da exibi&#xE7;&#xE3;o, a Takatoku Toys pediu fal&#xEA;ncia, acarretando no cancelamento imediato da obra. Mesmo com scripts finalizados at&#xE9; o epis&#xF3;dio 30 e j&#xE1; tendo iniciado a produ&#xE7;&#xE3;o da anima&#xE7;&#xE3;o do epis&#xF3;dio 26, a s&#xE9;rie foi interrompida no epis&#xF3;dio 22, e os produtores tiveram que incluir uma narra&#xE7;&#xE3;o absurdamente acanhada de 30 segundos para amarrar algumas pontas soltas. A TV Asahi, emissora do programa, foi obrigada a exibir reprises soltas de cat&#xE1;logo at&#xE9; encontrar algo para ocupar o <em>slot</em> de programa&#xE7;&#xE3;o.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/Y4Id_Dz5nZ0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Soya Monogatari</figcaption></figure><p>No slot de <em>Sasuraiger, </em>entrou uma obra bastante peculiar para os padr&#xF5;es da Kokusai Eigasha. Escrito por Yu Yamamoto, <em>Soya Monogatari</em> adapta a hist&#xF3;ria real do barco <em>Soya</em>, originalmente um cargueiro japon&#xEA;s vendido para os sovi&#xE9;ticos nos anos 30, e posteriormente comprado pelo ex&#xE9;rcito japon&#xEA;s e usado na Guerra do Pac&#xED;fico. Ap&#xF3;s a guerra, gra&#xE7;as &#xE0; sua estrutura resistente a gelo, ele &#xE9; escolhido para ser o barco da primeira expedi&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica japonesa na Ant&#xE1;rtida, partindo em v&#xE1;rias aventuras. Financiada pela ONG The Nippon Foundation, a obra conta em 21 epis&#xF3;dios toda a hist&#xF3;ria do barco, reunindo um elenco de talento que varia de &#xE9;poca para &#xE9;poca e atrai nomes famosos como Tohru Furuya, Banjo Ginga e Ichiro Nagai. Embora exibida na rec&#xE9;m-fundada TV Tokyo (antigo Canal 12), <em>Soya Monogatari</em> n&#xE3;o foi retransmitido na maioria das emissoras locais da rede, e acabou n&#xE3;o deixando uma marca muito grande.</p><p>Ao fim de <em>Soya Monogatari </em>e <em>Galvion</em>, a Kokusai Eigasha ficaria sem nenhuma obra nova na TV pela primeira vez em tr&#xEA;s anos. Todas as fontes de patroc&#xED;nio secaram, e eles tinham essencialmente voltado &#xE0; estaca zero: sem dinheiro para produzir nem espa&#xE7;o na TV para exibir. O canto do cisne viria no fim de 1984, com a &#xFA;ltima obra do est&#xFA;dio: uma adapta&#xE7;&#xE3;o do mang&#xE1; <em>Futari Daka </em>(no Ocidente, <em>Twin Hawks</em>), que estava fazendo sucesso na revista Shonen Sunday da editora Shogakukan e havia at&#xE9; ganho o pr&#xEA;mio de melhor mang&#xE1; <em>shonen </em>do Shogakukan Manga Awards de 1984. Os &quot;dois falc&#xF5;es&quot; do t&#xED;tulo do anime se referem aos dois protagonistas, ambos chamados Taka (<em>falc&#xE3;o</em>) e nascidos no mesmo dia. Taka Tojo &#xE9; um motoqueiro das ruas, especialista em rachas, enquanto Taka Sawatari compete no circuito profissional de motociclismo. Um acaso do destino faz os dois se conhecerem, e seus distintos passados e personalidades os faz se tornarem rivais da pista e da vida.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/Oq0kFkPgRpI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Twin Hawks. <em>Destaque para os trechos com motociclistas de verdade</em></figcaption></figure><p>Takao Yotsuji volta para dirigir esta que seria n&#xE3;o apenas a &#xFA;ltima s&#xE9;rie de TV da Kokusai Eigasha, como tamb&#xE9;m a &#xFA;ltima s&#xE9;rie de TV que Takao Yotsuji dirigiria em sua carreira. A trilha sonora energ&#xE9;tica de Joe Hisaishi traz temas de abertura por Takanori Jinnai, o vocalista da banda punk The Rockers que viria a se tornar um ator e diretor premiado em anos vindouros. A dupla principal de personagens &#xE9; perfeitamente escalada com dois dos maiores &quot;col&#xED;rios&quot; da &#xE9;poca: Tohru Furuya (Seiya de <em>Saint Seiya, </em>Amuro de <em>Gundam 0079</em>) faz o papel do Taka bom mo&#xE7;o, e Kaneto Shiozawa (Blaster Kid de <em>Bryger</em>) faz o papel do Taka <em>bad boy</em>. </p><p>Originalmente exibido no hor&#xE1;rio nobre da Fuji TV (quintas, &#xE0;s 19:30), a s&#xE9;rie foi progressivamente movida para blocos menos importantes, um forte sinal de que n&#xE3;o estava obtendo muito sucesso de audi&#xEA;ncia. Em junho de 1985, um cheque sem fundo inicia uma crise financeira na Kokusai Eigasha, levando o est&#xFA;dio &#xE0; fal&#xEA;ncia e encerrando a s&#xE9;rie prematuramente, com 36 epis&#xF3;dios.</p><h2 id="por-onde-andam">Por Onde Andam</h2><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-16.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="400" height="400"><figcaption>Shigeo Tsubota (foto atual em conta oficial no Twitter em 2021)</figcaption></figure><p>Com o fechamento da Kokusai Eigasha em 1985, Shigeo Tsubota largou a ind&#xFA;stria de anima&#xE7;&#xE3;o e de distribui&#xE7;&#xE3;o de videoconte&#xFA;do. A entidade jur&#xED;dica da Kokusai Eigasha permanece, sendo utilizada principalmente para gerir o copyright de suas obras, mas ele e sua empresa nunca mais se envolveram em nenhuma outra produ&#xE7;&#xE3;o. Em 1989, quatro anos ap&#xF3;s a fal&#xEA;ncia do est&#xFA;dio, Shigeo Tsubota foi eleito como &quot;vereador&quot; da cidade de Nemuro, em Hokkaido, e continua at&#xE9; hoje no cargo, sendo reeleito sucessivas vezes. Entre os partidos pelos quais ele concorreu, alguns como o Your Party (&#x307F;&#x3093;&#x306A;&#x306E;&#x515A;) defendiam abertamente o fim do conte&#xFA;do imoral nos animes - o que &#xE9; muito curioso, visto que Tsubota chegou a produzir duas obras de Hideo Azuma, o &quot;pai do lolicon&quot;.</p><p>Takao Yotsuji e Yu Yamamoto continuaram trabalhando na ind&#xFA;stria de anime, mas nunca mais ocuparam papeis de grande relev&#xE2;ncia. Yotsuji chegou a dirigir alguns OVAs (s&#xE9;ries publicadas direto em <em>home video</em>), mas continua at&#xE9; hoje fazendo pontas como diretor de epis&#xF3;dio ou de roteirista. Yu Yamamoto chegou a trabalhar como roteirista-chefe em algumas s&#xE9;ries de est&#xFA;dios menores, como o <em>Musashi no Ken </em>(1988), do Eiken, e <em>Ashita e Free Kick </em>(1992), da Ashi Productions, mas boa parte de sua produ&#xE7;&#xE3;o p&#xF3;s-J9 foi como roteirista de epis&#xF3;dios. Ele tamb&#xE9;m se arriscou no ramo liter&#xE1;rio, e chegou a publicar tr&#xEA;s livros de fic&#xE7;&#xE3;o</p><p>Curiosamente, o maior projeto dos dois ap&#xF3;s o fim da Kokusai Eigasha foi conjunto, e fora da ind&#xFA;stria de animes: em 1999 e 2001, eles foram dois dos principais respons&#xE1;veis pelos roteiros dos jogos <em>Shenmue I e Shenmue II,</em> de Dreamcast. Esta s&#xE9;rie dirigida por Yu Suzuki revolucionou o mundo dos videogames na &#xE9;poca, apresentando uma cidade viva, vibrante e livremente explor&#xE1;vel, no mesmo ano em que <em>Grand Theft Auto III</em> estava para lan&#xE7;ar.</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-17.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="616" height="353" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-17.png 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-17.png 616w"></figure><p>Masayuki Yamamoto, por sua vez, foi se afastando progressivamente da ind&#xFA;stria. Com o fim da s&#xE9;rie Time Bokan em setembro 1983 e da trilogia J9 em janeiro de 1984, ele decidiu perseguir outras possibilidades da carreira musical, realizando breves retornos pontuais apenas em projetos relacionados &#xE0; pr&#xF3;pria s&#xE9;rie Time Bokan, como nos OVAs <em>Royal Revival </em>de 1993 ou nos remakes de <em>Yatterman</em> de 2008. Tamb&#xE9;m em 1993, Masayuki Yamamoto lan&#xE7;a o &#xE1;lbum &quot;J9 ETERNAL SPECIAL&quot;, com novos arranjos de m&#xFA;sicas populares da s&#xE9;rie e uma m&#xFA;sica original, &quot;J9 City ni Nage Kiss&quot;, na qual Takao Yotsuji colaborou com as letras.</p><p>A carreira de Yukio Yamagata tomou rumos bem mais interessantes. Em 1984, ele lan&#xE7;a seu primeiro &#xE1;lbum solo, <em>&quot;TWILIGHT SHADOW&quot;, </em>incluindo a balada <em>&quot;Hoshikage no Lullaby&quot;</em> de Bryger. Entre 1984 e 1997, ele deixa a m&#xFA;sica de lado para investir em sua carreira de ator, tentando de tudo um pouco: participa de pe&#xE7;as e musicais famosos, incluindo uma montagem de <em>Les Miserables </em>(1997) que ficou 3 anos em cartaz; dubla Patrick Swayze em <em>Dirty Dancing </em>(1987); d&#xE1; voz ao personagem Torri Ares de <em>V Gundam </em>(1993) e a Casey Jones de <em>Tartarugas Ninja </em>(1987). Mas a sua carreira d&#xE1; uma guinada em 1997, quando ele grava uma can&#xE7;&#xE3;o-tema para <em>Megaranger</em>, a itera&#xE7;&#xE3;o anual da s&#xE9;rie live-action <em>Super Sentai</em>, da Toei. Desde ent&#xE3;o, ele gravou can&#xE7;&#xF5;es para 9 itera&#xE7;&#xF5;es diferentes, al&#xE9;m de ser a voz da abertura de uma de suas s&#xE9;ries de maior sucesso: <em>Hyakujuu Sentai Gaoranger </em>(2001). </p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/WA3A2w-vktw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Hyakujuu Sentai Gaoranger</figcaption></figure><p>Todos os quatro dubladores principais seguiram carreira na &#xE1;rea, e muitos cresceram muito al&#xE9;m. Kaneto Shiozawa, Katsuji Mori e Kazuyuki Sogabe chegaram a trabalhar juntos em obras caras ao p&#xFA;blico brasileiro, como <em>Hokuto no Ken </em>(nos pap&#xE9;is de Rei, Shuu e Huey) e <em>Cavaleiros do Zod&#xED;aco</em> (Mu de &#xC1;ries, Mestre Santu&#xE1;rio e Saga de G&#xEA;meos). Yoko Asagami, que j&#xE1; tinha feito hist&#xF3;ria com o papel de Yuki Mori em <em>Patrulha Estelar Yamato </em>(1974), conquistou mais um papel de peso, com a durona Saeko Nogami de <em>City Hunter </em>(1987). Kaneto Shiozawa teve um tr&#xE1;gico<em> </em>fim em 2000, v&#xED;tima de um acidente dom&#xE9;stico. Kazuyuki Sogabe sucumbiu a um c&#xE2;ncer de es&#xF4;fago em 2006.</p><h2 id="o-legado-do-j9">O Legado do J9</h2><p>&#xC9; dif&#xED;cil descrever o impacto que a trilogia J9 teve no mundo dos animes e no g&#xEA;nero dos mechas. Seu brilho sempre foi ofuscado pela excelente produ&#xE7;&#xE3;o da Sunrise naquela &#xE9;poca. Yoshiyuki Tomino, o vision&#xE1;rio por tr&#xE1;s de Gundam, estava no auge de sua produtividade, dirigindo s&#xE9;ries de TV ininterruptamente por 10 anos seguidos e continuamente experimentando com o g&#xEA;nero, seja for&#xE7;ando no aspecto c&#xF4;mico com <em>Combat Mecha Xabungle </em>(1982), partindo para uma mescla medieval com <em>Aura Battler Dunbine </em>(1983) ou fazendo a dram&#xE1;tica e t&#xE3;o esperada continua&#xE7;&#xE3;o <em>Mobile Suit Zeta Gundam </em>(1985). Ao mesmo tempo, o veterano da ind&#xFA;stria Ryousuke Takahashi havia estreado como diretor com o pesado drama de guerra <em>Fang of the Sun Dougram</em> (1981) e emendando com <em>Armored Trooper VOTOMS </em>(1983), uma obra-prima do g&#xEA;nero que levou o conceito de <em>real robots</em> a seu extremo.</p><p>Mas antes de todas essas obras estrearem, <em>Bryger</em> j&#xE1; estava quebrando o molde que definia o que era um anime de <em>mecha. </em>Seu esp&#xED;rito ressoava com toda uma gera&#xE7;&#xE3;o juvenil que queria her&#xF3;is menos almofadinhas e mais interessantes. A trilogia J9 podia n&#xE3;o ter os melhores n&#xFA;meros de audi&#xEA;ncia ou de venda de brinquedos, e todos os f&#xE3;s da s&#xE9;rie concordam que a anima&#xE7;&#xE3;o &#xE9; bem... simples, mas as s&#xE9;ries estavam constantemente estampadas em capas de revistas, seus eventos musicais eram sempre lotados e a produ&#xE7;&#xE3;o cultural de f&#xE3;s da &#xE9;poca &#xE9; volumosa. Eles incorporavam o esp&#xED;rito indie da ind&#xFA;stria, muito antes dessa palavra ter qualquer significado.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-18.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="520" height="752"><figcaption>Bryger <em>na capa da Animedia de junho de 1982</em></figcaption></figure><p>O foco musical da trilogia J9 tamb&#xE9;m teve um impacto irrevers&#xED;vel nesse mundo. N&#xE3;o h&#xE1; d&#xFA;vidas de que o sucesso dessa mistura influenciou na concep&#xE7;&#xE3;o de <em>Super-Dimensional Fortress Macross </em>(1982), do est&#xFA;dio Tatsunoko Pro, que estreou quando <em>Baxinger </em>j&#xE1; estava na metade de sua exibi&#xE7;&#xE3;o inicial. Mas enquanto <em>Macross</em> bebe da cultura pop estabelecida e do <em>zeitgeist</em> formado em torno das <em>idols, </em>a trilogia J9 era pura contracultura e rock n&apos; roll. <em>Genesis Climber Mospeada</em> (1983), tamb&#xE9;m da Tatsunoko Pro, &#xE9; uma segunda investida nesse <em>blend</em> de mechas e m&#xFA;sica, desta vez muito com uma inspira&#xE7;&#xE3;o muito mais clara na trilogia J9, chegando at&#xE9; mesmo a contratar o mesmo compositor de trilha sonora de <em>Sasuraiger</em>, Joe Hisaishi. Esse impacto cultural na rela&#xE7;&#xE3;o da m&#xFA;sica e do anime foi definitivo, e n&#xE3;o h&#xE1; term&#xF4;metro melhor do que comparar as m&#xFA;sicas-tema de <em>Gundam 0079 - </em>melanc&#xF3;licas, militares, cheias de metais e bumbos e cantores <em>enka </em>- com a voz doce de Mami Ayukawa sobre baixos e sintetizadores em <em>Hoshizora no Believe, </em>encerramento de <em>Zeta Gundam.</em></p><p>A verdade &#xE9; que a Kokusai Eigasha era uma empresa pequena de poucos recursos tentando a todo custo se fazer ouvir num mercado competitivo e inclemente, com uma atitude iconoclasta e desregrada que foi tanto o grande trunfo e diferencial deles quanto o eventual motivo de sua fal&#xEA;ncia. Eles nunca jogaram na retranca. Eles nunca apostaram no caminho mais seguro. E se eles tivessem sobrevivido por mais tr&#xEA;s ou quatro anos, superando a onda de fal&#xEA;ncias de fabricantes de brinquedos de alguma forma, eles certamente teriam sobrevivido por mais uma d&#xE9;cada, seja investindo no crescente n&#xFA;mero de adapta&#xE7;&#xF5;es de mang&#xE1; para a TV, seja explorando o imenso nicho incipiente do <em>home video, </em>que estava prestes a estourar com sucessos como <em>Gunbuster </em>(1988).</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/boIq-ep5A9g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Gunbuster</figcaption></figure><p>Diferentemente de <em>Gundam 0079, </em>a Trilogia J9 alcan&#xE7;ou um status cult... e permaneceu cult, sem nunca alcan&#xE7;ar um status muito mais importante, e hoje em dia praticamente desconhecida por todos que n&#xE3;o s&#xE3;o aficcionados por desenhos de rob&#xF4;. Mas o fandom japon&#xEA;s persistiu, evitando que a s&#xE9;rie ca&#xED;sse no esquecimento. Em 2018, uma exposi&#xE7;&#xE3;o com os frames originais da s&#xE9;rie foi realizada na loja Hakaba-no-Garou. Em 2009, um evento chamado Kokusai Eigasha Night reuniu Yu Yamamoto e Takao Yotsuji no palco para falar da produ&#xE7;&#xE3;o da s&#xE9;rie. E desde o ano 1990, um grupo de f&#xE3;s da trilogia realiza o evento anual J9 Carnival, onde eles alugam uma discoteca e promovem uma festa ao som de m&#xFA;sicas de anime e, principalmente, de <em>Bryger, Baxinger e Sasuraiger.</em></p><p>O maior contato do p&#xFA;blico ocidental com a franquia certamente foi atrav&#xE9;s da s&#xE9;rie de jogos Super Robot Wars, uma franquia com mais de 50 t&#xED;tulos que re&#xFA;ne v&#xE1;rias franquias distintas de animes de rob&#xF4;s em um &#xFA;nico universo, com <em>line-ups</em> distintos em cada edi&#xE7;&#xE3;o. Embora pouqu&#xED;ssimos t&#xED;tulos da s&#xE9;rie tenham recebido tradu&#xE7;&#xE3;o oficial para ingl&#xEA;s e outras l&#xED;nguas, a s&#xE9;rie &#xE9; popular o bastante para que v&#xE1;rias de suas edi&#xE7;&#xF5;es mais populares recebam tradu&#xE7;&#xF5;es de f&#xE3;. <em>Bryger </em>estreou em Super Robot Wars Alpha Gaiden (PS2 - 2001), uma das edi&#xE7;&#xF5;es mais populares da s&#xE9;rie, contando com dublagem de voz para todos os personagens. <em>Baxinger </em>e <em>Sasuraiger</em> s&#xF3; foram aparecer em Super Robot Wars GC (GameCube - 2004), que n&#xE3;o fez tanto sucesso. Nesta edi&#xE7;&#xE3;o, onde <em>Bryger </em>tamb&#xE9;m aparece, &#xE9; poss&#xED;vel combinar os tr&#xEA;s mechas J9 num poderoso ataque unificado.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="267" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/Tw8VPaYOyKQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Golpes de </em>Bryger <em>em Super Robot Wars Alpha Gaiden</em></figcaption></figure><p>A s&#xE9;rie tamb&#xE9;m inspirou uma s&#xE9;rie de homenagens, de v&#xE1;rias partes. Em seu f&#xE3;-clube, Masayuki Yamamoto escreveu um romance batizado de <em>Galaxy Hot Air Onsenger</em>, promovendo os benef&#xED;cios de se banhar em <em>onsens</em> (fontes naturais de &#xE1;guas termais). O projeto foi popular o bastante para que o compositor publicasse duas m&#xFA;sicas para o projeto, e at&#xE9; chegou a receber o aval oficial de Yu Yamamoto. A s&#xE9;rie <em>Irresponsible Captain Tyler (1993) </em>tamb&#xE9;m incluiu uma par&#xF3;dia da abertura de <em>Bryger </em>em seu &#xE1;lbum de Image Songs (can&#xE7;&#xF5;es inspiradas em determinados personagens ou cenas).</p><p>At&#xE9; que, em 2014, foi anunciada a produ&#xE7;&#xE3;o do t&#xED;tulo <em>Galaxy Divine Wind Jinraiger</em> (<em>Ginga Kamikaze Jinraiger). </em>Com lan&#xE7;amento previsto para 2016, <em>Jinraiger</em> seria uma nova s&#xE9;rie J9, comandada por Yu Yamamoto e produzida pela GDW Project, uma empresa fundada especificamente para o projeto. Os poucos designs que chegaram a ser publicados indicavam um distanciamento dos modelos tradicionais de mecha dos anos 90. Jinraiger seria bem mais &quot;org&#xE2;nico&quot;, com cor uniforme e pontas agudas, lembrando um pouco o design do Sazabi de <em>Char&apos;s Counterattack, </em>ou de <em>Guyver</em>. </p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-19.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="500" height="363"></figure><p>A hist&#xF3;ria trataria dos perigos da energia at&#xF4;mica, de estratifica&#xE7;&#xE3;o social, e puxaria inspira&#xE7;&#xE3;o do cl&#xE1;ssico da literatura chinesa Margem da &#xC1;gua, sobre 108 foras-da-lei que moram num p&#xE2;ntano e formam um pequeno ex&#xE9;rcito. F&#xE3;s ocidentais devem conhecer a obra pelo seu nome japon&#xEA;s, Suikoden, que inspirou uma popular s&#xE9;rie de jogos de RPG da Konami. Jinraiger era um projeto de f&#xE3; para f&#xE3;, encabe&#xE7;ado por Yu Yamamoto para devolver &#xE0; comunidade. Ele iniciou um podcast regular, o Jinrai Talk, onde ele divulgava informa&#xE7;&#xF5;es da produ&#xE7;&#xE3;o, como novos designs de personagens e escala&#xE7;&#xF5;es pro elenco. O site oficial da produ&#xE7;&#xE3;o concentrava toda essa produ&#xE7;&#xE3;o, e tinha uma se&#xE7;&#xE3;o VIP paga onde era poss&#xED;vel ver os rascunhos dos roteiros, designs dos mechas e mais.</p><p>A produ&#xE7;&#xE3;o chegou at&#xE9; a divulgar temas musicais 100% gravados, com Yukio Yamagata nos vocais da abertura e com encerramento da cantora MIQ, famosa no mundo dos mechas por L-Gaim (1984) e Gundam 0083: Stardust Memory (1991), entre outros. A princ&#xED;pio, havia anunciado-se que Masayuki Yamamoto voltaria para participar da trilha sonora, mas ambas as m&#xFA;sicas apresentadas foram compostas por Masahito Arai, outro compositor.</p><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="356" height="200" src="https://www.youtube.com/embed/oeaEkqY8d9c?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption><em>Abertura de </em>Jinraiger</figcaption></figure><p>Iniciada em 2014, a produ&#xE7;&#xE3;o foi temporariamente interrompida em 2016, devido &#xE0; agenda lotada de trabalhos de Yu Yamamoto, que continuou realizando pequenos updates regulares no projeto. Em novembro de 2018, Yu Yamamoto faleceu aos 71 anos. Como o projeto n&#xE3;o tinha bases comerciais e sua &#xFA;nica for&#xE7;a-motriz se fora, o GDW Project foi &quot;suspenso por tempo indeterminado&quot;, e aos poucos apagou todos os seus tra&#xE7;os de sua exist&#xEA;ncia, como o site oficial e as contas de redes sociais. Seu enterro contou com a presen&#xE7;a de v&#xE1;rios dos profissionais com quem ele trabalhou ao longo dos anos, como Yu Suzuki (diretor de Shenmue), Yuji Nunokawa (fundador do est&#xFA;dio Pierrot) e de seus colegas de J9 Takao Yotsuji, Yoko Asagami e Yukio Yamagata<em>.</em></p><h3 id="coda">Coda</h3><p>N&#xE3;o &#xE9; muito agrad&#xE1;vel terminar toda essa hist&#xF3;ria num ponto t&#xE3;o negativo, mas a verdade &#xE9; que tudo come&#xE7;ou e terminou com Yu Yamamoto. Foi ele que participou da verdadeira revolu&#xE7;&#xE3;o no mundo do anime que foi <em>Gundam 0079</em>, foi ele que trouxe a energia e as ideias para um pequeno e corajoso est&#xFA;dio de Hokkaido e abalou as estruturas da &#xE9;poca, e foi ele que, mesmo 30 anos depois, continuava a depositar seu amor e suas energias na comunidade, na tentativa de criar algo que fizesse jus ao legado da franquia e ao carinho da comunidade. J9 tem um pouco de todos os criadores que participaram da s&#xE9;rie, mas Yu Yamamoto era o ponto de converg&#xEA;ncia de tudo. Que descanse em paz.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-24.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="189" height="266"><figcaption><em>Yu Yamamoto (1946-2018)</em></figcaption></figure><p>Eu recentemente tive a oportunidade de conferir as tr&#xEA;s s&#xE9;ries J9, e tudo que eu escrevi aqui vem de um apre&#xE7;o muito especial por esses her&#xF3;is pioneiros das d&#xE9;cadas de 70 e 80 que pavimentaram todo o caminho para a abund&#xE2;ncia de s&#xE9;ries de anime incr&#xED;veis e de alta qualidade que temos hoje. Escrever esse texto foi um dos projetos mais divertidos dos quais eu j&#xE1; participei, e mergulhar fundo nesse assunto que rendeu mais de 12 mil palavras me fez apreciar, entender e amar o mundo do anime ainda mais do que eu j&#xE1; amava, al&#xE9;m de contemplar toda a dedica&#xE7;&#xE3;o e persist&#xEA;ncia que fandoms do mundo inteiro dedicam a seus hobbies. </p><p>Embora elas n&#xE3;o estejam dispon&#xED;veis oficialmente no Ocidente, eu tor&#xE7;o para que elas apare&#xE7;am por aqui algum dia, e recomendo do fundo do meu cora&#xE7;&#xE3;o que voc&#xEA;, leitor, confira se surgir tamb&#xE9;m a oportunidade pra voc&#xEA;.</p><p>Abayo!</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2021/04/image-23.png" class="kg-image" alt="ABAYO FLY BYE: Kokusai Eigasha, a Trilogia J9 e a Revolu&#xE7;&#xE3;o Televisionada do mundo dos mecha" loading="lazy" width="800" height="800" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2021/04/image-23.png 600w, https://arara.me/content/images/2021/04/image-23.png 800w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption><em>Capa do &#xE1;lbum Anime Music Capsule, reunindo todas as can&#xE7;&#xF5;es das tr&#xEA;s s&#xE9;ries</em></figcaption></figure><p><em>(Agradecimentos ao DAIGREON pelo fact-checking das s&#xE9;ries da Kokusai Eigasha no Brasil)</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Tradução de fã é pirataria?]]></title><description><![CDATA[Tradução de jogos antigos é pirataria? É crime? É errado? Este artigo discute a resposta pra essas e outras perguntas.]]></description><link>https://arara.me/traducao-de-fa-e-pirataria/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b95</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Sat, 27 Jun 2020 20:20:59 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2020/06/translation-machine.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2020/06/translation-machine.jpg" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?"><p>&#xC0;s vezes, eu recebo umas perguntas no meu CuriousCat que s&#xE3;o t&#xE3;o complicadas que eu acabo nem respondendo. Este artigo &#xE9; uma tentativa de responder a duas delas, porque &#xE9; mais saud&#xE1;vel ler text&#xF5;es aqui no meu site do que com a letrinha mi&#xFA;da do CuriousCat:&#x200C;</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="909" height="166" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image.png 600w, https://arara.me/content/images/2020/06/image.png 909w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></figure><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image-1.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="906" height="297" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image-1.png 600w, https://arara.me/content/images/2020/06/image-1.png 906w" sizes="(min-width: 720px) 720px"></figure><p>&quot;Direito autoral&quot; &#xE9; o nome dado ao <strong>monop&#xF3;lio de explora&#xE7;&#xE3;o</strong> de uma determinada &quot;propriedade intelectual&quot;, concedido ao criador da tal ideia. Ela serve para garantir que o criador ter&#xE1; a capacidade de explorar com exclusividade sua cria&#xE7;&#xE3;o, aumentando o valor inerente da obra e fomentando a produ&#xE7;&#xE3;o de mais arte. <strong>Quando a propriedade intelectual &#xE9; uma obra art&#xED;stica, o direito autoral &#xE9; o <em>copyright</em></strong> - literalmente o direito exclusivo de produzir c&#xF3;pias de uma obra. Mas h&#xE1; outros tipos: a <em>patente, </em>que protege a concep&#xE7;&#xE3;o e o funcionamento de certas ferramentas e t&#xE9;cnicas industriais; a<em> marca registrada </em>(<em>trademark)</em>, que garante o uso exclusivo de uma determinada marca, logotipo ou emblema; entre outros. </p><p>(Eu n&#xE3;o entendo muito de patentes e de marcas registradas, ent&#xE3;o vou deixar eles de lado e tratar s&#xF3; de copyright daqui em diante.)</p><p>Os direitos autorais s&#xE3;o compostos de dois direitos separados:</p><ul><li><strong>Os direitos patrimoniais</strong> constituem o &quot;direito de exclusividade na explora&#xE7;&#xE3;o comercial da obra&quot;, e s&#xE3;o o que geralmente se entende por copyright. Eles podem ser <em>vendidos e licenciados</em> para outros indiv&#xED;duos, e possuem dura&#xE7;&#xE3;o <em>limitada</em>.</li><li><strong>Os direitos morais</strong> constituem o &quot;direito de ser atribu&#xED;do como o autor de uma obra&quot;. Eles derivam do fato de que uma obra pode ser considerada uma express&#xE3;o da personalidade do autor, e s&#xE3;o em geral <em>intransfer&#xED;veis e eternos</em>. Isso significa que, hoje em dia, qualquer um pode publicar e vender uma edi&#xE7;&#xE3;o de Os Lus&#xED;adas - mas seu autor continua e continuar&#xE1; sendo Cam&#xF5;es.</li></ul><p>Acima de tudo, as leis de direitos autorais existem para tentar <strong>tra&#xE7;ar um limite entre os direitos do artista e os direitos do p&#xFA;blico consumidor. Afinal, n</strong>o mesmo lado em que h&#xE1; artistas, m&#xFA;sicos e desenhistas que querem contar hist&#xF3;rias e inspirar emo&#xE7;&#xF5;es, h&#xE1; tamb&#xE9;m megacorpora&#xE7;&#xF5;es que utilizam amea&#xE7;as de abuso de copyright para censurar cr&#xED;ticas e dissidentes. E no mesmo lado em que h&#xE1; consumidores que querem apoiar seus artistas favoritos, h&#xE1; tamb&#xE9;m pessoas maliciosas que querem usufruir da arte deles de gra&#xE7;a - ou pior, lucrar em cima da arte deles sem fazer esfor&#xE7;o.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image-2.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="2000" height="1751" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image-2.png 600w, https://arara.me/content/images/size/w1000/2020/06/image-2.png 1000w, https://arara.me/content/images/size/w1600/2020/06/image-2.png 1600w, https://arara.me/content/images/size/w2400/2020/06/image-2.png 2400w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Este famoso diagrama divulgado pela The Walt Disney Company mostra o poder de uma propriedade intelectual de peso. Por possuirem o monop&#xF3;lio sobre suas IPs, a empresa &#xE9; capaz de operar em v&#xE1;rias ind&#xFA;strias diferentes, onde cada passo reativa o pr&#xF3;ximo. Consumo de quadrinhos ativa filmes, que ativa o mercado de parques, que ativa o mercado de <em>merchandising</em>, e por a&#xED; vai. E mesmo que uma das atividades n&#xE3;o seja necessariamente lucrativa (ex. quadrinhos da Marvel), ela constr&#xF3;i a IP e prepara o terreno para outras bem mais rent&#xE1;veis (ex. filmes da Marvel).</figcaption></figure><p>Se o direito autoral &#xE9; um monop&#xF3;lio, uma maneira de definir &quot;pirataria&quot; &#xE9; <strong>a</strong> <strong>viola&#xE7;&#xE3;o desse monop&#xF3;lio</strong>. Se voc&#xEA; distribui, parcialmente ou na &#xED;ntegra, um determinado conte&#xFA;do protegido por lei sem ter a autoriza&#xE7;&#xE3;o do detentor, voc&#xEA; est&#xE1; <em>infringindo o direito</em> dele. Por exemplo, distribuir um filme gratuitamente pela internet faz com que algumas pessoas deixem de pagar para assisti-lo, causando danos <em>diretos </em>ao criador (que receber&#xE1; menos dinheiro pela obra) e danos <em>indiretos </em>&#xE0; ind&#xFA;stria (com menos pessoas assistindo legalmente a filmes, a bilheteria deles &#xE9; menor, a proje&#xE7;&#xE3;o de receita de filmes futuros &#xE9; menor, a ind&#xFA;stria encolhe e menos empregos s&#xE3;o gerados.)</p><p>Mas &#xE9; <strong>uma defini&#xE7;&#xE3;o imperfeita</strong> (e como veremos, todas s&#xE3;o em algum n&#xED;vel). Essa viola&#xE7;&#xE3;o de monop&#xF3;lio acontece tamb&#xE9;m quando voc&#xEA; empresta um livro para um amigo; ou quando voc&#xEA; posta um GIF do Hulk espancando o Loki; quando um autor cita um trecho de Shakespeare em sua obra; ou quando o cantor de churrascaria canta a tal m&#xFA;sica famosa que sua tia pediu. Nesses quatro casos, conte&#xFA;do protegido est&#xE1; sendo distribu&#xED;do <em>sem a autoriza&#xE7;&#xE3;o direta do criador</em>, mas s&#xE3;o casos inocentes cuja criminaliza&#xE7;&#xE3;o tornaria a vida dos consumidores um inferno.</p><p>Mecanismos foram desenvolvidos para aliviar v&#xE1;rias dessas exce&#xE7;&#xF5;es.</p><ul><li>A doutrina jur&#xED;dica da &quot;<strong>primeira venda</strong>&quot; defende que o detentor de copyright s&#xF3; tem o direito de controlar a venda da obra <em>at&#xE9; o primeiro comprador</em>. Uma vez que o comprador realiza o pagamento, ele pode emprestar, alugar ou revender a obra, como bem entender. No entanto, isso n&#xE3;o d&#xE1; ao comprador direitos de distribui&#xE7;&#xE3;o sobre a obra, e ele continua impedido de realizar c&#xF3;pias da mesma, de exibir em pra&#xE7;a p&#xFA;blica ou veicular na TV.</li><li>A doutrina jur&#xED;dica do <em>&quot;<strong>fair use</strong>&quot; </em>permite que conte&#xFA;do protegido seja usado parcialmente, desde que o uso seja o m&#xED;nimo necess&#xE1;rio e desde que o prop&#xF3;sito seja considerado v&#xE1;lido. O que constitui <em>fair use</em> varia de pa&#xED;s pra pa&#xED;s e de doutrina pra doutrina.</li><li>Institui&#xE7;&#xF5;es como o <strong>ECAD</strong> foram estabelecidas em pa&#xED;ses do mundo todo, permitindo que estabelecimentos comerciais e meios de comunica&#xE7;&#xE3;o reproduzam conte&#xFA;do licenciado mediante pagamento de uma taxa, que &#xE9; convertida aos artistas registrados.</li><li>Copyrights possuem tempo de expira&#xE7;&#xE3;o. Ao expirar, as obras passam a fazer parte do <strong>dom&#xED;nio p&#xFA;blico<em>, </em></strong>e podem ser exploradas por qualquer pessoa que se dispuser a faz&#xEA;-lo. Gra&#xE7;as a isso, &#xE9; poss&#xED;vel filmar uma reimagina&#xE7;&#xE3;o de Hamlet usando le&#xF5;es sem ter que pedir autoriza&#xE7;&#xE3;o ao cad&#xE1;ver defunto de Shakespeare, ou publicar em DVD anima&#xE7;&#xF5;es antigas, como A Viagem de Gulliver (1939).</li></ul><figure class="kg-card kg-embed-card kg-card-hascaption"><iframe width="612" height="344" src="https://www.youtube.com/embed/F6j0EbS7skc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe><figcaption>Este filme tem mais de 80 anos!</figcaption></figure><p>Mas essa &#xE9; apenas uma das maneiras de definir a pirataria, e existem v&#xE1;rias outras. Voc&#xEA; pode definir como <strong>qualquer a&#xE7;&#xE3;o que fere os direitos morais e patrimoniais do criador, </strong>por exemplo - H&#xE1; uma distin&#xE7;&#xE3;o importante entre esta defini&#xE7;&#xE3;o e a anterior, porque voc&#xEA; teoricamente poderia ferir o monop&#xF3;lio de distribui&#xE7;&#xE3;o de uma certa obra <em>sem necessariamente</em> ferir os direitos morais e patrimoniais do criador. E um bom exemplo &#xE9; exatamente o nosso caso em quest&#xE3;o: tradu&#xE7;&#xE3;o de jogos.</p><p>O roteiro de um videogame &#xE9; protegido por direitos autorais, por ser parte integrante e essencial da obra. &#xC9; an&#xE1;logo &#xE0; uma m&#xFA;sica, que &#xE9; composta separadamente de uma letra e uma melodia, e ambos s&#xE3;o protegidos - e &#xE9; por isso que sites de letra de m&#xFA;sica <a href="https://www.cnet.com/news/lyrics-sites-out-of-tune-with-copyrights/">nos EUA</a> e no Jap&#xE3;o j&#xE1; foram derrubados por publicar letras de m&#xFA;sica sem autoriza&#xE7;&#xE3;o (e lucrar com o alto tr&#xE1;fego e os ads exibidos.) Mesmo traduzido para outro idioma ou formato, o conte&#xFA;do do roteiro ainda &#xE9; o mesmo. Assim sendo, <em>distribuir uma c&#xF3;pia traduzida do roteiro de videogame constituiria uma viola&#xE7;&#xE3;o do direito autoral</em>.</p><p>Mas &#xE9; dif&#xED;cil argumentar que uma tradu&#xE7;&#xE3;o, especialmente se fornecida na forma de um patch gratuito que s&#xF3; pode ser aplicado a uma c&#xF3;pia do jogo comprada legalmente, possa ferir os direitos patrimoniais de uma obra. Afinal, ningu&#xE9;m em s&#xE3; consci&#xEA;ncia vai desfrutar da tradu&#xE7;&#xE3;o gratuita fora do contexto do jogo em si. Nenhuma c&#xF3;pia do jogo vai deixar de ser vendida por causa da tradu&#xE7;&#xE3;o - ao contr&#xE1;rio, &#xE9; poss&#xED;vel que alavanque novas vendas por tornar a obra mais acess&#xED;vel. Por essa l&#xF3;gica, distribuir uma tradu&#xE7;&#xE3;o gratuita n&#xE3;o estaria ferindo o direito patrimonial.</p><p>Por outro lado, &#xE9; poss&#xED;vel argumentar que uma tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; de qualidade duvidosa pode prejudicar a percep&#xE7;&#xE3;o do p&#xFA;blico que consumiu a obra atrav&#xE9;s dela. Uma pessoa que joga um videogame traduzido pela comunidade e acha os di&#xE1;logos ruins ter&#xE1; menor propens&#xE3;o a comprar o segundo jogo da s&#xE9;rie, ou outros jogos do mesmo desenvolvedor - isto &#xE9; dano indireto ao direito patrimonial. O distribuidor do jogo tem o direito de vetar tradu&#xE7;&#xF5;es que n&#xE3;o atendam seus padr&#xF5;es de qualidade.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image-5.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="952" height="548" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image-5.png 600w, https://arara.me/content/images/2020/06/image-5.png 952w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>A tradu&#xE7;&#xE3;o de Ys: Oath in Felghana &#xE9; uma vers&#xE3;o oficializada de uma tradu&#xE7;&#xE3;o feita por f&#xE3;s. <a href="https://legendsoflocalization.com/these-fan-translations-became-official-translations/">Este artigo do Legends of Localization</a> fala sobre estes e outros exemplos de tradu&#xE7;&#xF5;es de f&#xE3; que acabaram virando oficiais.</figcaption></figure><p>Mesmo num caso simples como este, existem v&#xE1;rias &#xF3;ticas e perspectivas em jogo, e v&#xE1;rios argumentos a favor e contra. Dependendo de qual defini&#xE7;&#xE3;o de pirataria nos utilizamos, disponibilizar a tradu&#xE7;&#xE3;o de um jogo pode ser considerado errado ou n&#xE3;o, e isso depende majoritariamente da corrente filos&#xF3;fica que cada um adota. Felizmente, existe uma terceira defini&#xE7;&#xE3;o que independe de filosofias: o que a Lei Brasileira diz a respeito do assunto.</p><p><strong>No C&#xF3;digo Penal brasileiro, a viola&#xE7;&#xE3;o dos direitos autorais &#xE9; um crime</strong> <strong>previsto no <a href="https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10615003/artigo-184-do-decreto-lei-n-2848-de-07-de-dezembro-de-1940">Artigo 184</a></strong>, que pode acarretar deten&#xE7;&#xE3;o de tr&#xEA;s meses a um ano, ou multa. Quando h&#xE1; clara inten&#xE7;&#xE3;o de lucro direto ou indireto, a pena passa a ser de deten&#xE7;&#xE3;o (dois a quatro anos), ou multa.<strong> </strong>Essa lei tem como base <a href="https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10730064/inciso-xxvii-do-artigo-5-da-constituicao-federal-de-1988">o inciso XXVII do artigo 5 da Constitui&#xE7;&#xE3;o Federal</a>, que garante a todos os autores &quot;<em>o direito exclusivo de utiliza&#xE7;&#xE3;o, publica&#xE7;&#xE3;o ou reprodu&#xE7;&#xE3;o de suas obras, transmiss&#xED;vel aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar</em>&quot; - que &#xE9; de 70 anos a partir da publica&#xE7;&#xE3;o.</p><p>A poss&#xED;vel multa &#xE9; discutida em detalhes no Cap&#xED;tulo II do T&#xED;tulo VII da <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm">Lei n&#xBA; 9610</a>, que &quot;altera, atualiza e consolida a legisla&#xE7;&#xE3;o sobre direitos autorais e d&#xE1; outras provid&#xEA;ncias&quot;, e basicamente trata-se de uma multa proporcional ao n&#xFA;mero de c&#xF3;pias vendidas. Al&#xE9;m da multa e da pris&#xE3;o, o detentor dos direitos autorais pode solicitar a <em>suspens&#xE3;o da divulga&#xE7;&#xE3;o</em> (art. 101); <em>implicar judicialmente o servidor </em>onde a tradu&#xE7;&#xE3;o &#xE9; armazenada (art. 103); e <em>apreender os equipamentos utilizados </em>na produ&#xE7;&#xE3;o da tradu&#xE7;&#xE3;o, como computadores (art. 106). </p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image-4.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="620" height="416" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image-4.png 600w, https://arara.me/content/images/2020/06/image-4.png 620w"><figcaption><a href="http://rondoniadigital.com/mais-de-3-milhoes-de-cds-e-dvds-piratas-sao-destruidos-em-porto-velho/">Mais de 3 milh&#xF5;es de CDs e DVDs sendo destru&#xED;dos em Porto Velho</a> (2011)</figcaption></figure><p>Postar a tradu&#xE7;&#xE3;o de um jogo na internet constitui na viola&#xE7;&#xE3;o dos direitos autorais da obra, por se tratar de uma divulga&#xE7;&#xE3;o parcial n&#xE3;o-autorizada do conte&#xFA;do da obra, mesmo que sem inten&#xE7;&#xE3;o de lucro direto ou indireto. Como precedente legal, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2009/02/501366-associacao-antipirataria-tira-do-ar-sites-com-legendas-para-filmes.shtml">em 2009, v&#xE1;rios sites que disponibilizavam legendas traduzidas gratuitamente foram derrubados</a> pela Associa&#xE7;&#xE3;o Antipirataria Cinema e M&#xFA;sica, a APCM.</p><p>Ou seja, em teoria, publicar a tradu&#xE7;&#xE3;o de um jogo pode dar cadeia. Na pr&#xE1;tica, &#xE9; quase imposs&#xED;vel que isso aconte&#xE7;a:</p><ul><li><em>Quase todos os distribuidores e desenvolvedores de jogos est&#xE3;o fora do Brasil</em>, e poucos s&#xE3;o os que tem algum tipo de representa&#xE7;&#xE3;o no Brasil. Isso n&#xE3;o s&#xF3; aumentaria os custos de uma eventual a&#xE7;&#xE3;o, como diminui de maneira geral a visibilidade que essas distribuidoras t&#xEA;m do que acontece por aqui.</li></ul><p>(Uma observa&#xE7;&#xE3;o: a acusa&#xE7;&#xE3;o de viola&#xE7;&#xE3;o de direitos autorais n&#xE3;o precisa partir do detentor dos direitos autorais. Na verdade, segundo <a href="https://tj-mg.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/656674964/apelacao-criminal-apr-10056130132600001-mg?ref=serp">esta decis&#xE3;o do TJ-MG</a>, nem &#xE9; preciso saber quem s&#xE3;o os detentores para caracterizar o crime - basta que um laudo pericial comprove a inautenticidade dos produtos. Portanto, a a&#xE7;&#xE3;o poderia partir de algum &#xF3;rg&#xE3;o p&#xFA;blico, como a Pol&#xED;cia ou a Receita Federal, mas eles n&#xE3;o v&#xE3;o querer se meter num caso t&#xE3;o nebuloso como este.)</p><ul><li><em>A&#xE7;&#xF5;es jur&#xED;dicas s&#xE3;o caras, demoradas e t&#xEA;m resultado incerto</em>. E mesmo se o juiz der ganho de causa pra distribuidora, &#xE9; bem improv&#xE1;vel que ela consiga recuperar os custos da a&#xE7;&#xE3;o. &#xC9; muito mais simples para ela simplesmente solicitar a remo&#xE7;&#xE3;o do conte&#xFA;do atrav&#xE9;s de um pedido formal, seja para o dono do site ou para o servidor onde ele &#xE9; hospedado.</li><li>Mesmo tendo o direito legal de solicitar a remo&#xE7;&#xE3;o do conte&#xFA;do, esse tipo de a&#xE7;&#xE3;o gera <em>publicidade negativa</em> - e a menos que voc&#xEA; seja do tamanho da Nintendo, publicidade negativa geralmente &#xE9; ruim.</li></ul><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2020/06/image-6.png" class="kg-image" alt="Tradu&#xE7;&#xE3;o de f&#xE3; &#xE9; pirataria?" loading="lazy" width="931" height="679" srcset="https://arara.me/content/images/size/w600/2020/06/image-6.png 600w, https://arara.me/content/images/2020/06/image-6.png 931w" sizes="(min-width: 720px) 720px"><figcaption>Fonte: <a href="https://thehardtimes.net/harddrive/nintendo-launches-cease-desist-classic/">The Hard Times</a></figcaption></figure><p>Caso voc&#xEA; tenha um site de tradu&#xE7;&#xF5;es de jogos antigos, existem algumas coisas que voc&#xEA; pode fazer para evitar dor de cabe&#xE7;a e minimizar os riscos pro seu projeto e pra sua equipe: </p><ul><li><em>Sempre credite as empresas que criaram o original</em> - isso impede que o site seja acusado de ferir o direito moral do detentor do copyright, e &#xE9; um motivo a menos para te enquadrar no art. 184 do CP.</li><li><em>N&#xE3;o monetize o seu site</em>: n&#xE3;o coloque ads, n&#xE3;o crie assinaturas, n&#xE3;o abra um Patreon, n&#xE3;o minere bitcoins no navegador. Evite qualquer coisa que possa ser usada como prova de &quot;inten&#xE7;&#xE3;o de lucro direto ou indireto&quot;. Utilize ferramentas gratuitas de hospedagem.</li><li><em>Crie um canal de comunica&#xE7;&#xE3;o para den&#xFA;ncias de viola&#xE7;&#xE3;o de copyright</em> e divulgue-o de maneira clara no seu site. Pode ser um formul&#xE1;rio, um endere&#xE7;o de e-mail, como preferir.</li></ul><p><strong>Em suma: </strong>dizer se essas tradu&#xE7;&#xF5;es amadoras de jogos antigos &#xE9; algo &quot;certo&quot; ou &quot;errado&quot; &#xE9; uma quest&#xE3;o de filosofia pr&#xF3;pria do que uma quest&#xE3;o objetiva. Eu espero que esta discuss&#xE3;o tenha te ajudado a refletir sobre suas pr&#xF3;prias posi&#xE7;&#xF5;es filos&#xF3;ficas, e espero que voc&#xEA; n&#xE3;o seja preso, porque eu n&#xE3;o sou advogado e n&#xE3;o posso te proteger!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[特察 - O status do tokusatsu no mundo moderno]]></title><description><![CDATA[É 2019 e os eventos de anime ainda só querem saber de Jaspion e Jiraiya. Como está o tokusatsu no Brasil e no Japão?]]></description><link>https://arara.me/o-status-do-tokusatsu-no-mundo-moderno/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b93</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Sun, 29 Dec 2019 19:13:15 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/12/img_main_pc.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/12/img_main_pc.jpg" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno"><p>Tudo come&#xE7;ou quando, mais uma vez em 2019, um evento de anime brasileiro anunciou como convidado internacional principal mais um ator coadjuvante de uma s&#xE9;rie <em>tokusatsu </em>que passou no Brasil nos anos 80. Eu comecei a me perguntar se o p&#xFA;blico de <em>tokusatsu</em> no Brasil era grande o suficiente para justificar tamanho investimento e import&#xE2;ncia, e foi assim que eu ca&#xED; no buraco do coelho.</p><p><em>Tokusatsu (&#x7279;&#x64AE;), </em>que em japon&#xEA;s significa &quot;efeitos especiais&quot;, &#xE9; a denomina&#xE7;&#xE3;o de um g&#xEA;nero de s&#xE9;ries de TV que envolvem efeitos pr&#xE1;ticos, explos&#xF5;es, transforma&#xE7;&#xF5;es, computa&#xE7;&#xE3;o gr&#xE1;fica e outros recursos para contar uma hist&#xF3;ria. No Brasil, o termo determina principalmente as s&#xE9;ries japonesas de super-her&#xF3;is que foram trazidas pro pa&#xED;s entre os anos 70, 80 e 90. No Jap&#xE3;o, a classifica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; um pouco mais abrangente, incluindo s&#xE9;ries de horror, s&#xE9;ries de &#xE9;poca com ninjas e samurais, e fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica com aliens e dinossauros. O termo l&#xE1; &#xE9; utilizado inclusive para s&#xE9;ries americanas: a Wikipedia lista <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Red_Dwarf">Red Dwarf</a>, uma s&#xE9;rie brit&#xE2;nica de fic&#xE7;&#xE3;o cient&#xED;fica, como um dos <a href="https://ja.wikipedia.org/wiki/Category:NHK%E3%81%AE%E7%89%B9%E6%92%AE%E7%95%AA%E7%B5%84"><em>tokusatsu </em>da NHK</a>. Pra fins de simplicidade, vou usar o termo pra me referir exclusivamente &#xE0;s s&#xE9;ries de a&#xE7;&#xE3;o japonesas, especialmente para n&#xE3;o ter que tocar no tema Power Rangers. A ind&#xFA;stria de <em>tokusatsu </em>no Jap&#xE3;o tem tr&#xEA;s empresas principais: <strong>Toei, </strong>certamente a maior do mercado e a &#xFA;nica que ainda lan&#xE7;a s&#xE9;ries <em>tokusatsu</em> com regularidade na TV, com as franquias <em>Super Sentai </em>e <em>Kamen Rider </em>presentes na TV japonesa h&#xE1; d&#xE9;cadas<em>; </em><strong>Tsuburaya</strong>, criadores do <em>Ultraman </em>e que voltaram a produzir material da franquia nos &#xFA;ltimos anos; e <strong>Toho,</strong> conhecida no mundo do <em>tokusatsu</em> pelos filmes de <em>Godzilla.</em></p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/capitao-aza.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Na foto: Capit&#xE3;o Aza. &#x1F44D;&#x1F44D;</figcaption></figure><p>A hist&#xF3;ria do <em>tokusatsu </em>na TV brasileira come&#xE7;ou com <em><strong>National Kid</strong></em> (Toei), que estreou na Record em 1964. Em 1968, chegou ao Brasil pela Rede Globo a s&#xE9;rie <em><strong>Ninja Butai Gekko</strong></em> (Toei), seguido de<strong> <em>Giant Robo</em></strong><em> </em>(Toei) em 1969. Ambas seriam anunciadas no Brasil com os nomes <em>Agentes Fantasmas </em>e <em>Rob&#xF4; Gigante</em>. Em 1968, a Bandeirantes trouxe <em><strong>Ultraman</strong></em> e <em><strong>Ultra Q</strong></em> (a s&#xE9;rie que tecnicamente inaugurou a franquia Ultraman), al&#xE9;m de <em><strong>Magma Taishi</strong></em> (Tokyu Agency), baseado num mang&#xE1; de Osamu Tezuka e conhecido aqui como <em>Vingadores do Espa&#xE7;o.</em></p><p>Nos anos 70, o Brasil viu a estreia de <em><strong>Ultraseven </strong></em>(Tsuburaya)<em> </em>em 1971, pela Bandeirantes. A Tupi trouxe <em><strong>&#xC9;sper - O Garoto a Jato </strong></em>(<em>Kousoku Esper, </em>da Senkousha), um <em>tokusatsu </em>baseado no mascote da empresa Toshiba que passou meio despercebido por aqui, e em 1975 trouxe <strong><em>O</em> <em>Regresso de Ultraman</em></strong><em> </em>(Tsuburaya). A Globo trouxe em 1970 a s&#xE9;rie <em><strong>O Pr&#xED;ncipe e o Dinossauro</strong></em> (<em>Kaiju Ouji,</em> da P Pro), e a TVS entrou na briga com a s&#xE9;rie <strong><em>Spectreman</em> </strong>(P Pro), que estreou no fim da d&#xE9;cada mas s&#xF3; foi explodir em popularidade anos depois.</p><p>Foi no fim dos anos 80 que come&#xE7;ou o boom brasileiro de <em>tokusatsu </em>como o conhecemos, protagonizado pela Rede Manchete. A rede trouxe <em><strong>Jaspion </strong></em>e <em><strong>Changeman </strong></em>em 1988; <em><strong>Flashman, Jiraiya</strong> e</em> <em><strong>Lionmaru </strong></em>em 1989; <em><strong>Cybercop </strong></em>e<em> </em><strong><em>Jiban</em> </strong>em 1990; e <strong><em>Kamen Rider Black</em>, <em>Maskman</em></strong> e <em><strong>Spielvan </strong></em>em 1991. Em rea&#xE7;&#xE3;o, a Bandeirantes trouxe <strong><em>Goggle V</em>, <em>Machineman, Sharivan</em></strong><em> </em>e <em><strong>Metalder </strong></em>em 1990; e a Globo trouxe <strong><em>Bycrossers </em></strong>e<strong> <em>Gyaban </em></strong>em 1991. At&#xE9; a Gazeta estreou um tokusatsu: <strong>Shaider</strong>, trazido pela Globo Filmes e lan&#xE7;ado em 1990. Todas essas s&#xE9;ries foram produzidas pela Toei, com a exce&#xE7;&#xE3;o de <em>Lionmaru</em> (P Pro) e de <em>Cybercop </em>(Toho). Mas esse pico de novas s&#xE9;ries foi t&#xE3;o forte quanto breve.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/lp-vinil-jaspion-changeman-single-trem-da-alegria-raro-D_NQ_NP_834822-MLB29223522454_012019-F.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>T&#xE3;o popular que o Trem da Alegria chegou a lan&#xE7;ar um single em vinil <a href="https://www.youtube.com/watch?v=NUHTzSiAjiw">com uma m&#xFA;sica</a> inspirada nas duas s&#xE9;ries</figcaption></figure><p>A Manchete trouxe mais s&#xE9;ries da Toei em 1994 e 1995 (<strong><em>Kamen Rider Black RX</em>, <em>Winspector,</em> <em>Solbrain</em></strong><em> </em>e <em><strong>Poitrine</strong>), </em>mas a rede j&#xE1; estava fragilizada e entrou com fal&#xEA;ncia em 1999. Em 2000, a Record trouxe <em><strong>Ultraman Tiga</strong> </em>(Tsuburaya) e, por fim, a RedeTV em 2009 trouxe <strong><em>Ryukendo</em> </strong>(Shochiku). Mas foi aquele pequeno per&#xED;odo ali em cima, entre 1988 e 1991, que criou uma legi&#xE3;o de f&#xE3;s e colocou o Brasil no mapa dos f&#xE3;s de <em>tokusatsu</em> no mundo todo.</p><p>E isso &#xE9; meio que um problema. Porque essa &#xE9;poca foi formativa para muitas das pessoas que hoje comandam a ind&#xFA;stria otaku brasileira, que agora trazem artistas e atores internacionais para satisfazer um nicho de p&#xFA;blico bastante espec&#xED;fico,<strong><em> </em></strong>de pessoas que assistiram TV num determinado per&#xED;odo que se passou 20 anos atr&#xE1;s e ainda se importam com essas s&#xE9;ries. Meu objetivo com esta pesquisa era descobrir o tamanho do fandom brasileiro de tokusatsu, a relev&#xE2;ncia dessas s&#xE9;ries hoje em dia, e o que leva os eventos brasileiros a adotarem essa estrat&#xE9;gia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/external-content.duckduckgo.com-1.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Confesso que eu n&#xE3;o conhecia Kousoku Esper antes de escrever esta mat&#xE9;ria.</figcaption></figure><h2 id="fase-1-google-trends">Fase 1: Google Trends</h2><p>Meu primeiro teste de tornassol foi o Google Trends, a ferramenta do Google que permite consultar o volume de buscas relativo a um determinado tema, ao longo do tempo. &#xC9; uma ferramenta bastante inteligente, capaz de identificar temas que englobam v&#xE1;rios termos e tamb&#xE9;m tem alguma no&#xE7;&#xE3;o de contexto. Por exemplo, ele &#xE9; mais ou menos capaz de separar o interesse entre os filmes de <em>Sherlock Holmes</em> com o Robert Downey Jr. e a s&#xE9;rie <em>Sherlock </em>com o Benedict Cumberbatch:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-21.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Dois filmes de Sherlock Holmes foram lan&#xE7;ados, em 2009 e 2011. A s&#xE9;rie da BBC teve quatro temporadas, em 2010, 2012, 2014 e 2016, mais um especial em 2015.</figcaption></figure><p>O primeiro passo foi entender quais s&#xE3;o as s&#xE9;ries que passaram no Brasil e ainda t&#xEA;m relev&#xE2;ncia hoje em dia. Para isso, eu dividi as 30 s&#xE9;ries em grupos de 5 (o m&#xE1;ximo que o Google Trends permite comparar por vez), coletei o volume relativo de buscas de cada grupo, depois comparei os &quot;cabe&#xE7;as-de-chave&quot; de cada grupo e fiz uma normaliza&#xE7;&#xE3;o para reunir todos os dados. Por ser uma m&#xE9;trica relativa, eu optei por medir em porcentagem, colocando o t&#xED;tulo mais popular como 100%. Segue abaixo o ranking geral, ou a &quot;Escala Jaspion de Popularidade&quot;:</p><ul><li><strong>100%: </strong><em>Jaspion</em></li><li><strong>72%:</strong> <em>Jiraiya</em></li><li><strong>41%: </strong><em>Ultraman</em></li><li><strong>18%: </strong><em>Changeman</em></li><li><strong>14%: </strong><em>Jiban</em></li><li><strong>13%: </strong><em>Spectreman</em></li><li><strong>11%: </strong><em>Kamen Rider Black</em></li><li><strong>10%: </strong><em>Flashman</em></li><li><strong>8%: </strong><em>Ultraseven, Cybercop, National Kid</em></li><li><strong>7%: </strong><em>Lionmaru</em></li><li><strong>6%: </strong><em>Giant Robo</em></li><li><strong>5%: </strong><em>Winspector, Ryukendo, Maskman, Spielvan</em></li><li><strong>4%: </strong><em>Gyaban, Sharivan, Poitrine, Kamen Rider Black RX</em></li><li><strong>3%: </strong><em>Metalder, Shaider, Machineman, Goggle V</em></li><li><strong>2%: </strong><em>Solbrain, Tiga, Vingadores do Espa&#xE7;o, Bycrossers</em></li><li><strong>1%: </strong><em>O Regresso de Ultraman</em></li><li><strong>0%:</strong> <em>Kousoku Esper</em> (lol)</li></ul><p>Por ser uma m&#xE9;trica relativa, podemos dizer que, no Brasil de 2019, Changeman tem 18% da popularidade de Jaspion, Flashman tem 10% e Winspector tem 5%. N&#xE3;o &#xE9; nenhuma surpresa que Jaspion tenha se destacado - a s&#xE9;rie teve um filme brasileiro anunciado neste ano, al&#xE9;m de uma continua&#xE7;&#xE3;o em mang&#xE1; desenvolvida pela Editora JBC. Certamente ainda se mant&#xE9;m relevante. Compare o interesse nos top 5:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-37.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Al&#xE9;m disso, notaram o pico de <em>Ultraman</em>, perto de abril? Ele coincide com o lan&#xE7;amento de uma s&#xE9;rie animada de <em>Ultraman </em>na Netflix. Ent&#xE3;o, embora Ultraman de modo geral tenha tido alguma tra&#xE7;&#xE3;o no Brasil este ano, n&#xE3;o foi gra&#xE7;as &#xE0; s&#xE9;rie antiga. Como esse valor est&#xE1; inflado artificialmente, eu vou considerar que <em>Jaspion </em>e <em>Jiraya </em>s&#xE3;o os &#xFA;nico <em>tokusatsu</em> que passaram na TV brasileira e ainda se mant&#xEA;m relevantes hoje em dia, com um volume de buscas constantemente mais alto que o das outras s&#xE9;ries.</p><p>Com esse dado em m&#xE3;os, vamos &#xE0; primeira pergunta: como est&#xE1; a popularidade de Jaspion perto de s&#xE9;ries <em>tokusatsu</em> que <strong>n&#xE3;o</strong> passaram no Brasil? No Jap&#xE3;o, a Toei continua a lan&#xE7;ar duas s&#xE9;ries por ano, e a Tsuburaya lan&#xE7;ou v&#xE1;rios Ultraman em anos recentes. Ser&#xE1; que o p&#xFA;blico brasileiro est&#xE1; interessado no que o Jap&#xE3;o est&#xE1; trazendo de novidade? Seguem os resultados da compara&#xE7;&#xE3;o do volume de buscas de <em>Jaspion </em>contra os quatro &#xFA;ltimos <em>Kamen Riders</em>, <em>Super Sentais</em> e <em>Ultramans</em>:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-12.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-13.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-15.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>OK, acho que o Brasil n&#xE3;o est&#xE1; muito interessado no que saiu de tokusatsu nos &#xFA;ltimos quatro anos. Na Escala Jaspion de Popularidade, <em>Kamen Rider Build</em> (2017) pontuaria 3%, <em>Lupinranger x Patranger </em>(2018) pontuaria 3% e <em>Ultraman Orb </em>(2017) pontuaria 1%<em>. </em>Eis outra maneira de colocar essa situa&#xE7;&#xE3;o: no Brasil, as s&#xE9;ries de <em>tokusatsu</em> mais recentes t&#xEA;m menos relev&#xE2;ncia do que <em>La Belle Fille Masqu&#xE8; Poitrine:</em></p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-23.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>&#xC9; enganoso dizer que o brasileiro ama <em>tokusatsu.</em> Certamente existe um p&#xFA;blico pra essas s&#xE9;ries, mas ele &#xE9; motivado principalmente por uma nostalgia que n&#xE3;o se traduz em um interesse mais concreto. Mais honesto seria dizer que o brasileiro ama a Rede Manchete e o material japon&#xEA;s que ela trouxe pro Brasil, independente do g&#xEA;nero. Por exemplo. a popularidade atual de Jaspion se compara com a popularidade de algumas outras s&#xE9;ries de anime trazidas pela Manchete naquela &#xE9;poca:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-24.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Na Escala Jaspion de Popularidade, <em>Yu Yu Hakusho</em> pontua 85% e <em>Sailor Moon</em> pontua 79%, mantendo-se relevantes mesmo depois de um bom per&#xED;odo sem grandes novidades, corroborando a teoria de que a nostalgia pela Rede Manchete &#xE9; o que move boa parte desse p&#xFA;blico. <em>Captain Tsubasa</em> (aqui conhecido como Supercampe&#xF5;es) pontuou 46%, mas sua popularidade foi motivada em grande parte pelo remake de 2018 - notem a queda no volume de buscas quando a s&#xE9;rie acabou. Por fim, <em>Shurato </em>pontuou 8%, o que pode parecer baixo, mas n&#xE3;o est&#xE1; muito longe da maioria das outras s&#xE9;ries de <em>tokusatsu </em>que avaliamos.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/123.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Na foto: Poitrine/Patrine morre pelos nossos pecados</figcaption></figure><p>Ficou estabelecido que as s&#xE9;ries novas de <em>tokusatsu</em> n&#xE3;o t&#xEA;m tra&#xE7;&#xE3;o no Brasil. Mas e quanto aos animes novos? Elas sofrem dos mesmos problemas? A Crunchyroll lan&#xE7;a regularmente um <a href="http://www.infoanimation.com.br/2019/10/conheca-os-animes-mais-assistidos-na.html">top 10 s&#xE9;ries mais assistidas no Brasil</a>, ent&#xE3;o temos alguns nomes para comparar contra o <em>tokusatsu </em>mais popular que temos. Vou consolidar Naruto e Boruto numa coisa s&#xF3; e acrescentar mais 2 s&#xE9;ries importantes que n&#xE3;o est&#xE3;o na lista: Dragon Ball e Saint Seiya. Este &#xE9; o ranking normalizado dessas s&#xE9;ries na Escala Jaspion de Popularidade:</p><ul><li><strong>2992%: </strong><em>Naruto</em></li><li><strong>1012%: </strong><em>Dragon Ball</em></li><li><strong>986%: </strong><em>One Piece</em></li><li><strong>686%:</strong> <em>My Hero Academia</em></li><li><strong>572%: </strong><em>Saint Seiya</em></li><li><strong>550%: </strong><em>Attack on Titan</em></li><li><strong>450%: </strong><em>Black Clover</em></li><li><strong>450%: </strong><em>Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba</em></li><li><strong>318%: </strong><em>JoJo&apos;s Bizarre Adventure</em></li><li><strong>118%: </strong><em>Dr. STONE</em></li><li><strong>118%: </strong><em>Hunter x Hunter</em></li><li><strong>100%: </strong><em>Jaspion</em></li></ul><p>E este &#xE9; o gr&#xE1;fico que compara as quatro s&#xE9;ries do topo com Jaspion:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-47.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>A s&#xE9;rie mais popular de <em>tokusatsu</em> no Brasil de 2019 &#xE9; 30 vezes menos popular do que <em>Naruto</em>. A soma do volume de buscas de todas as s&#xE9;ries <em>tokusatsu</em> que j&#xE1; passaram no Brasil (301%) &#xE9; menor do que o volume de buscas de <em>JoJo&apos;s Bizarre Adventure </em>sozinho. <em>Tokusatsu</em> est&#xE1; longe de ser insignificante, mas &#xE9; um nicho v&#xE1;rias vezes menor do que o p&#xFA;blico de anime hoje em dia.</p><p>Note tamb&#xE9;m que esse p&#xFA;blico de anime est&#xE1; acompanhando as s&#xE9;ries junto com o Jap&#xE3;o: h&#xE1; um crescimento de interesse em Naruto com a nova saga de Boruto, que o levou para a Vila da Folha do passado, e h&#xE1; um aumento not&#xE1;vel de popularidade em My Hero Academia quando a nova temporada entrou em outubro. Diferentemente do <em>tokusatsu</em>, o fandom de anime que explodiu nos anos 80 e 90 se manteve vivo e crescente at&#xE9; os dias de hoje. &#xC9; um p&#xFA;blico que est&#xE1; ativamente consumindo e procurando esse conte&#xFA;do, todos os dias.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/c1b742c6e51cfe983e5634351ce0f2081572303330_full.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>O novo arco de Boruto injetou vida nova na franquia inteira</figcaption></figure><p>Quando eu cheguei nesses resultados, eu pensei em tr&#xEA;s explica&#xE7;&#xF5;es:</p><p>1) O respons&#xE1;vel pela falta de popularidade do <em>tokusatsu </em>no Brasil &#xE9; a falta de acesso e divulga&#xE7;&#xE3;o. <em>Kamen Rider</em> e <em>Super Sentai</em> n&#xE3;o est&#xE3;o dispon&#xED;veis em nenhum lugar pra assistir legalmente, e tamb&#xE9;m por conta disso n&#xE3;o s&#xE3;o divulgados e promovidos por nenhuma empresa. O argumento faz muito sentido e certamente &#xE9; uma parte importante, mas tem seus por&#xE9;ns: <em>Ultraman Orb e Ultraman Geed</em> foram exibidos <a href="https://www.crunchyroll.com/pt-br/ultraman-orb">em simulcast na Crunchyroll</a> e nem assim alcan&#xE7;aram um p&#xFA;blico significativo; <em>Power Rangers</em> &#xE9; TECNICAMENTE um <em>tokusatsu</em>, tem presen&#xE7;a constante em canais de TV a cabo, brinquedos dispon&#xED;veis em todas as RiHappy do pa&#xED;s, e embora tenha uns 300% da popularidade do Jaspion, est&#xE1; em constante decl&#xED;nio.</p><p>2) O respons&#xE1;vel pela falta de popularidade do <em>tokusatsu </em>no Brasil &#xE9; o p&#xFA;blico-alvo dessas s&#xE9;ries. <em>Tokusatsu </em>modernos s&#xE3;o programas familiares, com um apelo muito mais forte com o p&#xFA;blico infantil. Como exemplo, olhe estas tabelas que listam a popularidade de cada um dos epis&#xF3;dios de <a href="https://w.atwiki.jp/shichouseiko/pages/545.html">Kamen Rider Fourze (2011)</a> e de <a href="https://w.atwiki.jp/shichouseiko/pages/512.html">Kaizoku Sentai Gokaiger (2011)</a> de acordo com a faixa et&#xE1;ria, reproduzidas abaixo:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-26.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>As maiores audi&#xEA;ncias s&#xE3;o nas colunas KIDS (entre 4-12 anos) e nas colunas M2 e F2 (respectivamente, homens e mulheres entre 35 e 45 anos de idade - possivelmente pais de fam&#xED;lia que v&#xEA;m na onda das crian&#xE7;as). &#xC9; muito dif&#xED;cil atingir esse p&#xFA;blico, que agora pode assistir o que quiser, quando quiser - especialmente quando seu conte&#xFA;do n&#xE3;o est&#xE1; na TV aberta ou em plataformas de streaming de larga escala. E quando as crian&#xE7;as viram adolescentes, e portanto capazes de correr atr&#xE1;s por vontade pr&#xF3;pria desse conte&#xFA;do, eles perdem o interesse. Isso explica por que <em>Ultraman Orb</em> e <em>Ultraman Geed</em> n&#xE3;o se popularizaram embora dispon&#xED;veis via Crunchyroll (que ainda &#xE9; uma plataforma de nicho), mas n&#xE3;o explica por que o onipresente <em>Power Rangers</em> ainda &#xE9; menos popular do que <em>Black Clover</em>.</p><p>3) O respons&#xE1;vel pela falta de popularidade do <em>tokusatsu </em>no Brasil, al&#xE9;m disso tudo acima, &#xE9; a mudan&#xE7;a dos tempos. Em um mundo p&#xF3;s-MCU, crian&#xE7;as talvez n&#xE3;o se impressionem mais tanto com lutas mal-coreografadas e efeitos especiais baratos. Poderia ser um efeito similar ao que est&#xE1; acontecendo com luta-livre nos EUA, onde o <em>Monday Night RAW</em>, um programa semanal exibido ao vivo &#xE0;s segundas-feiras desde 1993, est&#xE1; atingindo <a href="https://www.wrestlinginc.com/news/2018/12/wwe-raw-hits-new-historic-low-audience-648745/">os menores n&#xED;veis de audi&#xEA;ncia da sua hist&#xF3;ria</a>, mesmo considerando a diminui&#xE7;&#xE3;o na audi&#xEA;ncia de TV ao vivo como um todo. Explicaria o lento decl&#xED;nio de <em>Power Rangers</em>, e at&#xE9; por que t&#xE3;o poucas s&#xE9;ries de <em>tokusatsu </em>est&#xE3;o sendo produzidas hoje em dia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/Ryusoulger.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Ryusoulger &#xE9; o Super Sentai de 2019. A frase de efeito deles &#xE9; &quot;Que Bom!!&quot; - assim mesmo, em portugu&#xEA;s. &#xC8; a primeira coisa que <a href="https://www.youtube.com/watch?v=-2mWvetgP10">eles gritam na abertura</a> e est&#xE1; no t&#xED;tulo do primeiro epis&#xF3;dio.</figcaption></figure><p>Para entender o qu&#xE3;o ver&#xED;dica s&#xE3;o essas &#xFA;ltimas duas afirma&#xE7;&#xF5;es, eu precisei ir mais a fundo na minha pesquisa. Se a afirma&#xE7;&#xE3;o 3 for verdade, por exemplo, os efeitos desse <em>zeitgeist</em> seriam observ&#xE1;veis em outros aspectos da sociedade, e eu seria capaz de encontrar dados para provar o que estou dizendo, ou para calar a minha pr&#xF3;pria boca. Vamos &#xE0; parte 2.</p><h2 id="parte-2-o-ibope-japon-s">PARTE 2: O IBOPE JAPON&#xCA;S</h2><p>No Jap&#xE3;o, a refer&#xEA;ncia na audi&#xEA;ncia de TV e de m&#xED;dia em geral &#xE9; a Video Research Inc. Assim como o Kantar IBOPE no Brasil, n&#xFA;meros detalhados de aferi&#xE7;&#xE3;o de audi&#xEA;ncia s&#xE3;o restritos para clientes da plataforma, que pagam milhares de d&#xF3;lares para terem acesso a intelig&#xEA;ncia de mercado e realizarem decis&#xF5;es ponderadas sobre compra de espa&#xE7;os publicit&#xE1;rios, investimento em licenciamento e similares. Como parte do contrato de fornecimento de servi&#xE7;o, os clientes geralmente possuem uma cl&#xE1;usula de n&#xE3;o-divulga&#xE7;&#xE3;o dos dados, e &#xE9; por isso que voc&#xEA; poucos dados de audi&#xEA;ncia na internet. A Video Research Inc. mede audi&#xEA;ncia em &quot;porcentagem de indiv&#xED;duos que possuem TV&quot;, mas desde meados de 1967 &#xE9; poss&#xED;vel dizer que todo mundo l&#xE1; tem televis&#xE3;o. O gr&#xE1;fico abaixo mostra a quantidade de indiv&#xED;duos com TVs P&amp;B e a cores por l&#xE1;.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-33.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Linha preta = % de indiv&#xED;duos com TVs P&amp;B; Linha rosa: % de indiv&#xED;duos com TVs coloridas</figcaption></figure><p>Mas em algum momento, um grupo de usu&#xE1;rios do board 5chan se uniu para reunir todas as informa&#xE7;&#xF5;es de audi&#xEA;ncia de <em>tokusatsu</em> que eles tinham em uma wiki, provenientes de revistas, fontes independentes e recortes antigos de jornais. &#xC9; um trabalho intermin&#xE1;vel de classifica&#xE7;&#xE3;o, averigua&#xE7;&#xE3;o e catalogagem que voc&#xEA; pode conferir <a href="https://w.atwiki.jp/shichouseiko/">neste link</a> (use a barra de busca ou o menu lateral esquerdo para navegar). Eles possuem dados de audi&#xEA;ncia para mais de 500 s&#xE9;ries, desde as mais atuais at&#xE9; cl&#xE1;ssicos e coisas bem obscuras tipo, sei l&#xE1;. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=NVIEGIew8Io">Vanny Knights</a>.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/gekkokamen.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Gekko Kamen (1958), batia uma m&#xE9;dia de 40% de audi&#xEA;ncia e chegou a atingir um pico de 67.8% em um dos epis&#xF3;dios - certamente um fen&#xF4;meno</figcaption></figure><p>Meu intuito original era puxar apenas as m&#xE9;dias das franquias mais famosas. Depois, eu decidi puxar as m&#xE9;dias de todas as s&#xE9;ries que passaram no Brasil, tamb&#xE9;m. A&#xED; eu percebi que o gr&#xE1;fico ficaria mais completo se eu pegasse os dados de cada epis&#xF3;dio. A essa altura, eu j&#xE1; tinha escrito um <em>crawler</em> pra ripar os dados da p&#xE1;gina pra mim, ent&#xE3;o eu pensei: por que n&#xE3;o pegar todos os dados de audi&#xEA;ncia da hist&#xF3;ria do <em>tokusatsu</em>?</p><p>Contemplem:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-32.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Um pouco confuso, n&#xE3;o? A wiki possui dados sobre mais de 500 s&#xE9;ries, ent&#xE3;o &#xE9; natural que haja muito ru&#xED;do e fique dif&#xED;cil de entender. As vers&#xF5;es abaixo incluem apenas as franquias <em>Super Sentai, Kamen Rider, Ultraman </em>e <em>Metal Heroes</em>:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-30.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-31.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Algumas observa&#xE7;&#xF5;es:</p><ul><li>Todas as s&#xE9;ries observaram quedas ao longo das d&#xE9;cadas. Mesmo com longos hiatos, Ultraman ainda conseguia disputar o topo da audi&#xEA;ncia nos anos 1980 (<em>Ultraman 80</em>), nos anos 1990 (<em>Powered, G, Tiga, Dyna, Gaia</em>) e nos anos 2000 (<em>Cosmos</em>), mas as novas s&#xE9;ries est&#xE3;o bem abaixo de seus concorrentes.</li><li>Quando <em>Goranger</em>, o primeiro <em>Super Sentai</em> estreou, ele era exibido &#xE0;s noites de s&#xE1;bado. Ao passar dos anos, as s&#xE9;ries subsequentes foram movidas para hor&#xE1;rios mais cedo, at&#xE9; a programa&#xE7;&#xE3;o ser movida para as tardes de sexta-feira em 1989. Isso causou uma queda abrupta de audi&#xEA;ncia, mas o programa continuou est&#xE1;vel nos anos 90. Em 1997, o bloco de <em>Super Sentai</em> foi movido para os domingos de manh&#xE3;, onde est&#xE1; at&#xE9; hoje.</li><li><em>Kamen Rider</em> teve uma hist&#xF3;ria parecida. Exibido nas noites de s&#xE1;bado at&#xE9; 1980 (<em>Kamen Rider Super-1</em>), quando foi movido para domingos de manh&#xE3;. Mas entre 1980 e 2000, apenas <em>Kamen Rider BLACK</em> e sua continua&#xE7;&#xE3;o foram lan&#xE7;adas na franquia, com a Toei depositando seu foco na franquia Metal Heroes. Inicialmente lan&#xE7;ados nas noites de s&#xE1;bado, os Metal Heroes foram movidos para as manh&#xE3;s de domingo a partir de 1987, com <em>Metalder. </em>A partir do ano 2000, <em>Kamen Rider</em> voltaria com a s&#xE9;rie <em>Kuuga </em>e formaria um bloco de uma hora de tokusatsu nas manh&#xE3;s japonesas que perdura h&#xE1; 20 anos.</li><li>Gra&#xE7;as a esse bloco unificado, a audi&#xEA;ncia de <em>Kamen Rider </em>e de <em>Super Sentai</em> se consolidou de tal forma que a empolga&#xE7;&#xE3;o com uma s&#xE9;rie acaba puxando a outra junto. Em 1999, <em>Kamen Rider Kuuga </em>e <em>Agito</em> foram recebidos com bastante empolga&#xE7;&#xE3;o e trouxeram v&#xE1;rios f&#xE3;s para o bloco, causando uma subida nos n&#xFA;meros do <em>Super Sentai.</em> Similarmente, em 2009, <em>Kamen Rider Decade </em>reuniu todos os Riders da d&#xE9;cada numa trama unificada, gerando um aumento significativo em audi&#xEA;ncia que se refletiu em <em>Shinkenger.</em></li></ul><p><em>Tokusatsu</em> tamb&#xE9;m est&#xE1; perdendo audi&#xEA;ncia no Jap&#xE3;o, simplesmente por existir. Entre 1996 e 2019, a popula&#xE7;&#xE3;o do pa&#xED;s aumentou apenas 0.5%, mas a popula&#xE7;&#xE3;o de crian&#xE7;as de at&#xE9; 14 anos diminuiu 20%. O g&#xEA;nero enfrenta competi&#xE7;&#xE3;o de videogames e uma ind&#xFA;stria explosiva de animes, mais op&#xE7;&#xF5;es de entretenimento do que nunca. E enquanto a Netflix e a Amazon Prime japonesas disputam a tapa cada um dos t&#xED;tulos de animes produzidos toda temporada, os <em>tokusatsu</em> da Toei s&#xE3;o distribu&#xED;dos apenas pelos servi&#xE7;os Toei Tokusatsu Fan Club e por um servi&#xE7;o menor chamado VideoPass. E pra piorar, por dependerem muito do p&#xFA;blico infantil, eles dependem muito da televis&#xE3;o para distribuir o conte&#xFA;do. E a audi&#xEA;ncia de televis&#xE3;o est&#xE1; <strong>despencando.</strong></p><p>N&#xE3;o acredita? Pois eu tamb&#xE9;m n&#xE3;o acreditava muito.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/external-content.duckduckgo.com-4.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Esse a&#xED; &#xE9; o Kamen Rider Decade. Ele usa cartas pra se transformar nos 9 Riders anteriores e essencialmente &#xE9; tudo culpa dele.</figcaption></figure><p>Como eu disse, o Video Research Inc. n&#xE3;o revela de gra&#xE7;a todos os dados que audi&#xEA;ncia que possui. Mas assim como o Kantar IBOPE, ele solta algumas informa&#xE7;&#xF5;es como forma de <em>branding:</em> mantendo o p&#xFA;blico interessado no discurso de audi&#xEA;ncia como sinal de qualidade, posicionando-se como a fonte de verdade na medi&#xE7;&#xE3;o de audi&#xEA;ncia, etc. No caso do Video Research Inc., o que eles fazem &#xE9; liberar um reporte semanal com os 10 programas mais assistidos em 8 categorias diferentes: &quot;notici&#xE1;rios&quot;, &quot;educacionais&quot;, &quot;novelas&quot;, &quot;musicais&quot;, &quot;filmes&quot;, &quot;anime&quot;, &quot;esportes&quot; e &quot;outros&quot;.</p><p>Ciente do valor dos dados, eles disponibilizam o cat&#xE1;logo de relat&#xF3;rios apenas para os &#xFA;ltimos cinco anos. Mas eles s&#xE3;o uma empresa com v&#xE1;rios anos de mercado, o site deles est&#xE1; no ar h&#xE1; d&#xE9;cadas, e felizmente o Internet Archive disponibiliza vers&#xF5;es antigas do site com dados que datam desde 1996. Ent&#xE3;o eu lhes apresento o seguinte gr&#xE1;fico, que calcula a audi&#xEA;ncia m&#xE9;dia semanal dos top 10 programas japoneses de TV, divididos pelas 8 categorias:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-39.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Os programas menos afetados foram os notici&#xE1;rios, que perderam em torno de 18% da audi&#xEA;ncia. A seguir temos programas educacionais (que inclui talk shows matinais, travelogues e programas de variedades), que perderam 25%; novelas, esportes e filmes, que perderam de 40% a 50% da audi&#xEA;ncia; e animes e musicais, que perderam ~65% da audi&#xEA;ncia. A narrativa aqui &#xE9; bem simples: quanto mais jovem o p&#xFA;blico-alvo de um programa ou g&#xEA;nero, mais ele sofreu com a queda.</p><p>Dos anos 1996 pra c&#xE1;, <em>Super Sentai </em>e <em>Kamen Rider </em>despontaram 16 vezes nesse top 10 semanal, em exibi&#xE7;&#xF5;es do filmes das s&#xE9;ries. Em 28 de dezembro de 2011, a TV Asahi exibiu o filme <em>Kamen Rider Decade: All Riders x Daishocker </em>&#xE0;s 23:20 de uma quarta-feira e marcou 3.9% de audi&#xEA;ncia. Isso acontece porque a categoria de filmes &#xE9; a menos disputada das 8 e permite essas surpresas em semanas de menos movimento. As s&#xE9;ries semanais s&#xE3;o consideradas novelas/doramas, e o pior colocado do top 10 geralmente tem o triplo da audi&#xEA;ncia dos <em>Super Sentai</em> e dos <em>Kamen Rider</em>.</p><p>As crian&#xE7;as, os adolescentes e os jovens adultos est&#xE3;o, em propor&#xE7;&#xF5;es distintas, abandonando a TV linear em favor de servi&#xE7;os on-demand. Um sinal bastante forte disso s&#xE3;o os &quot;time-shift ratings&quot; que a Video Research Inc. distribui, calculando a audi&#xEA;ncia das pessoas que gravaram o programa para assistir depois. Eles fornecem poucos dados gratuitos, mas &#xE9; poss&#xED;vel ver neste link e na tabela abaixo que muitas vezes a audi&#xEA;ncia time-shift &#xE9; maior que a pr&#xF3;pria audi&#xEA;ncia ao vivo:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-40.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>&#xDA;ltimas tr&#xEA;s colunas s&#xE3;o audi&#xEA;ncia ao vivo (%), audi&#xEA;ncia time-shift (%) e total (%). Os quadradinhos da segunda coluna indicam a natureza do programa - no caso, as 10 maiores audi&#xEA;ncias de time-shift do Jap&#xE3;o s&#xE3;o doramas.</figcaption></figure><p>Com esses dados, podemos comparar as audi&#xEA;ncias de Kamen Rider e Super Sentai com algumas das s&#xE9;ries de anime mais longevas do Jap&#xE3;o:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-38.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Varia&#xE7;&#xF5;es de audi&#xEA;ncia no per&#xED;odo entre 2001 e 2019, quando todas as s&#xE9;ries j&#xE1; estavam no ar:</p><ul><li><em>Chibi Maruko-chan</em>: <strong>-42%</strong></li><li><em>Sazae-san</em>: <strong>-43%</strong></li><li><em>Crayon Shin-chan</em>: <strong>-53%</strong></li><li><em>Detective Conan</em>: <strong>-59%</strong></li><li><em>Super Sentai</em>: <strong>-70%</strong></li><li><em>Kamen Rider</em>: <strong>-73%</strong></li></ul><p>Em m&#xE9;dia, entre 2001 e 2019, os animes perderam <strong>49%</strong> de sua audi&#xEA;ncia, enquanto os <em>tokusatsu</em> perderam<strong> 72%</strong> de sua audi&#xEA;ncia. E isso vale tanto para s&#xE9;ries com mais apelo entre o p&#xFA;blico adulto, como Sazae-san, quanto s&#xE9;ries mais jovens como Detective Conan. Mesmo num mercado em queda como a TV, mesmo comparado com s&#xE9;ries bastante infantis, <em>tokusatsu</em> est&#xE1; caindo numa velocidade bem maior que o resto.</p><p>Por fim, podemos tamb&#xE9;m comparar os <em>tokusatsu</em> com as s&#xE9;ries de anime que tamb&#xE9;m passam de domingo de manh&#xE3; no Jap&#xE3;o:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-45.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"></figure><p>Tem uma briga de peixe grande nas manh&#xE3;s japonesas entre a Fuji TV e a TV Asahi. </p><p>A Fuji TV tem um bloco chamado <strong>Strong 9 </strong>que come&#xE7;a &#xE0;s 9:00 (como o pr&#xF3;prio nome diz), tem dura&#xE7;&#xE3;o de uma hora e exibe dois lan&#xE7;amentos. One Piece estreou em 1999 nas noites de quarta-feira, mas desde 2001 ele ocupa o slot das 9:30 de domingo. O slot das 9:00 &#xE9; um pouco mais bagun&#xE7;ado, e de 1996 at&#xE9; 2019 ele exibiu 14 s&#xE9;ries diferentes, como <em>Digimon</em>, <em>Dragon Ball Super</em> e <em>Toriko</em> - <a href="https://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%83%95%E3%82%B8%E3%83%86%E3%83%AC%E3%83%93%E6%97%A5%E6%9B%9C%E6%9C%9D9%E6%99%82%E5%8F%B0%E6%9E%A0%E3%81%AE%E3%82%A2%E3%83%8B%E3%83%A1#%E4%BD%9C%E5%93%81%E3%83%AA%E3%82%B9%E3%83%88%EF%BC%889:00%EF%BC%89">a lista completa est&#xE1; aqui</a>. Por algum tempo, a Fuji TV tamb&#xE9;m colocou um anime &#xE0;s 8:30 da manh&#xE3; de domingo, mas o bloco n&#xE3;o resistiu &#xE0; competi&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Por sua vez, a TV Asahi tem o bloco Super Hero Time, que come&#xE7;a &#xE0;s 7:30 com <em>Super Sentai, </em>8:00 com <em>Kamen Rider </em>e 8:30 com Pretty Cure. Ou melhor, come&#xE7;ava: desde meados de 2017, as duas s&#xE9;ries de <em>tokusatsu </em>foram movidas para 9:00 e 9:30<em>, </em><a href="https://ja.wikipedia.org/wiki/%E3%82%B5%E3%83%B3%E3%83%87%E3%83%BCLIVE!!#%E4%B8%BB%E3%81%AA%E3%82%B3%E3%83%BC%E3%83%8A%E3%83%BC">dando lugar a um talk show de 3 horas e meia</a>, mas isso n&#xE3;o parece ter afetado muito a audi&#xEA;ncia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/Marineford-Marnga.png" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Luffy desafia tr&#xEA;s Almirantes da Marinha durante o Arco de Marineford</figcaption></figure><p>Comparando a varia&#xE7;&#xE3;o de audi&#xEA;ncia em 2005 e 2019, quando todas as s&#xE9;ries j&#xE1; estavam no ar:</p><ul><li>One Piece: <strong>-52%; </strong>Pretty Cure: <strong>-56%; </strong>M&#xE9;dia dos animes: <strong>-54%</strong></li><li>Kamen Rider: <strong>-62%; </strong>Super Sentai: <strong>-64%; </strong>M&#xE9;dia dos <em>tokusatsu:</em> <strong>-63%</strong></li></ul><p>Em suma: mesmo comparando as s&#xE9;ries <em>tokusatsu</em> em exibi&#xE7;&#xE3;o com outras s&#xE9;ries animadas, com o mesmo p&#xFA;blico-alvo e exibidas no mesmo dia, quase na mesma hora e at&#xE9; no mesmo canal, <em>tokusatsu </em>continua caindo numa velocidade maior do que o anime. <em>Tokusatsu </em>est&#xE1; perdendo o charme entre as crian&#xE7;as, por algum motivo que n&#xE3;o &#xE9; distribui&#xE7;&#xE3;o, n&#xE3;o &#xE9; promo&#xE7;&#xE3;o, e n&#xE3;o &#xE9; acessibilidade. A nova gera&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o se empolga ou se impressiona tanto quanto as gera&#xE7;&#xF5;es anteriores.</p><p>Todos esses dados de audi&#xEA;ncia que eu coletei est&#xE3;o dispon&#xED;veis <a href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/144xHDDHVI9ngpHJuiGQ8d_P9asOXQCYGoJMjrskqyPA/edit?usp=sharing">neste link aqui.</a> Fique &#xE0; vontade para trabalhar em cima dos dados independentemente, ou apenas para ver a audi&#xEA;ncia de suas s&#xE9;ries favoritas!</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/81He6GDI18L._RI_-1.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Kamen Rider Hibiki, considerado pelas pessoas de bom gosto como O Melhor Kamen Rider</figcaption></figure><h2 id="conclus-o">CONCLUS&#xC3;O</h2><p>Coisas que sabemos: As &#xFA;nicas s&#xE9;ries de tokusatsu verdadeiramente populares no Brasil de 2019 s&#xE3;o Jaspion e Jiraiya, e todas as outras s&#xE9;ries s&#xE3;o de 5 a 30 vezes menos relevantes do que elas. Qualquer s&#xE9;rie da nova gera&#xE7;&#xE3;o tem express&#xE3;o basicamente nula em territ&#xF3;rio brasileiro. E embora Jaspion especificamente seja bastante popular, ele faz menos sucesso do que a maioria das s&#xE9;ries populares de anime que sa&#xED;ram na &#xFA;ltima d&#xE9;cada.</p><p><em>Tokusatsu </em>n&#xE3;o &#xE9; um g&#xEA;nero pequeno que est&#xE1; crescendo. Ele est&#xE1; encolhendo a cada ano aqui no Brasil. No Jap&#xE3;o, as novas gera&#xE7;&#xF5;es se importam menos e menos com <em>tokusatsu, </em>mesmo levando em conta o envelhecimento da popula&#xE7;&#xE3;o japonesa. As audi&#xEA;ncias dos shows de l&#xE1; est&#xE3;o despencando, mais r&#xE1;pido que qualquer outra categoria de programas de TV. As poucas franquias que restam est&#xE3;o sofrendo para se manter de p&#xE9;, e a distribui&#xE7;&#xE3;o delas est&#xE1; limitada a servi&#xE7;os de nicho.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/external-content.duckduckgo.com-5.jpg" class="kg-image" alt="&#x7279;&#x5BDF; - O status do tokusatsu no mundo moderno" loading="lazy"><figcaption>Animado pelo Studio TRIGGER, SSSS.GRIDMAN ficou bastante popular e &#xE9; considerado um dos melhores animes de 2018. N&#xE3;o &#xE9; tokusatsu, mas t&#xE1; ali.</figcaption></figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>&#xD3;bvio que nem tudo est&#xE1; perdido. A Tsuburaya, por exemplo, entende que &#xE9; preciso reconstruir a marca e alcan&#xE7;ar o p&#xFA;blico. Al&#xE9;m de lan&#xE7;ar v&#xE1;rias de suas s&#xE9;ries na Crunchyroll, tamb&#xE9;m est&#xE3;o lan&#xE7;ando um monte de conte&#xFA;do gratuitamente em seu canal oficial de YouTube, incluindo a nova s&#xE9;rie Ultraman Taiga que &#xE9; lan&#xE7;ada hoje em dia na TV japonesa. Uma nova vers&#xE3;o animada de Ultraman est&#xE1; sendo distribu&#xED;da mundialmente pela Netflix, assim como SSSS.GRIDMAN, baseada em outra franquia da empresa e que foi bastante aclamada pela cr&#xED;tica. Veremos com o tempo se essa estrat&#xE9;gia vai se pagar, mas com o an&#xFA;ncio recente de uma nova temporada de SSSS.GRIDMAN, as perspectivas s&#xE3;o interessantes. A Toei ensaiou algo parecido, com Kamen Rider Amazons (exclusivo da Amazon Prime), <s>mas que encontra-se indispon&#xED;vel no Brasil no momento.</s> <strong>CORRE&#xC7;&#xC3;O:</strong> Kamen Rider Amazons est&#xE1; dispon&#xED;vel, sim, no Brasil, sob o nome Amazon Riders. Obrigado a <a href="http://www.twitter.com/DouglasSenpai">@DouglasSenpai</a> e <a href="http://www.twitter.com/felipevinha">@felipevinha</a> pela corre&#xE7;&#xE3;o!</p>
<!--kg-card-end: markdown--><p>Minha inten&#xE7;&#xE3;o original era entender o porqu&#xEA; de tantos eventos brasileiros de anime investirem tanto em atores e atrizes de <em>tokusatsu </em>antigos, ao inv&#xE9;s de qualquer outra coisa mais recente de anime. Depois de olhar todos esses dados, a minha conclus&#xE3;o &#xE9;: sei l&#xE1;? Eu quero muito ver os eventos de anime crescerem e trazerem novidades e convidados que me interessem, mas tem alguma desconex&#xE3;o entre a estrat&#xE9;gia deles e a realidade que eu enxergo que eu n&#xE3;o consigo conectar. A minha esperan&#xE7;a &#xE9; que outros eventos sigam o exemplo do Animazon, que trouxe em 2019 o <a href="https://www.animazon.com.br/noticias1/257-kohei-ashiya-diretor-de-animacao">diretor de anima&#xE7;&#xE3;o de JoJo&apos;s Bizarre Adventure</a> para falar de sua experi&#xEA;ncia na obra e interagir com os f&#xE3;s da franquia, e que conseguiu ganhar at&#xE9; <a href="https://me.me/i/the-lead-animator-of-part-5-kohei-ashiya-recently-had-aa968dcf080b402da3b23f47959c77bd">um pouco de tra&#xE7;&#xE3;o internacional</a> gra&#xE7;as &#xE0; entrevista que fizeram com ele.</p><p><em>(Colaboraram com o post <a href="twitter.com/DAIGREON">Douglas Yung</a>, que revisou as datas de estreia das s&#xE9;ries de TV no Brasil, e <a href="https://twitter.com/Deufo">Deufo</a>, que revisou a metodologia. Dados coletados da <a href="https://w.atwiki.jp/shichouseiko/">Tokusatsu Shichouritsu Hokan</a> e do site da <a href="http://www.videor.co.jp">Video Research Inc.</a>, atrav&#xE9;s do <a href="https://archive.org/">Internet Archive</a>.)</em></p><p><strong>UPDATE: </strong>a conta de Twitter @MegaPowerBrasil fez uma mini-thread falando sobre o contexto de Power Rangers nos &#xFA;ltimos anos e eu recomendo a leitura!</p><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Louv&#xE1;vel a apura&#xE7;&#xE3;o do Arara com essa mat&#xE9;ria super pontual sobre a popularidade.<br><br>Sobre Power Rangers ser menos popular se tra&#xE7;armos um comparativo com d&#xE9;cadas passadas &#xE9; bem simples. Entre 2008 e 2010 a s&#xE9;rie perdeu for&#xE7;as e destaque na TV brasileira [... continua...] <a href="https://t.co/GxyJ00VDek">https://t.co/GxyJ00VDek</a></p>&#x2014; Mega Power Brasil #RumoAos100K (@MegaPowerBrasil) <a href="https://twitter.com/MegaPowerBrasil/status/1211396736536764419?ref_src=twsrc%5Etfw">December 29, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><p><strong>UPDATE 2:</strong> as datas de lan&#xE7;amentos de <em>tokusatsu</em> na TV brasileira foram atualizadas e corrigidas gra&#xE7;as ao feedback do <a href="https://twitter.com/MossmannMatheus/">Matheus Mossmann</a>!</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[As editoras de mangá estão com a razão, acredite]]></title><description><![CDATA[As editoras de mangá não estão investindo em formatos baratos para popularizar a venda de mangá - e eles sabem o que estão fazendo.]]></description><link>https://arara.me/as-editoras-de-manga-estao-com-a-razao-acredite/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b92</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Tue, 10 Dec 2019 23:43:24 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/12/external-content.duckduckgo.com.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/12/external-content.duckduckgo.com.jpg" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite"><p>Neste &#xFA;ltimo post, eu mergulhei fundo nos n&#xFA;meros de bancas de jornais pelo Brasil inteiro pra mostrar como a distribui&#xE7;&#xE3;o est&#xE1; cada vez mais dif&#xED;cil para a m&#xED;dia impressa, especialmente o mang&#xE1;, e como isso influencia tanto nos pre&#xE7;os quanto nas estrat&#xE9;gias adotadas pelas empresas para defini&#xE7;&#xE3;o de formato de produto e p&#xFA;blico-alvo. O artigo teve uma recep&#xE7;&#xE3;o muito boa, e eu agrade&#xE7;o de cora&#xE7;&#xE3;o a todo mundo que comentou, mas eu n&#xE3;o acho que eu consegui pintar o quadro catacl&#xED;smico que eu queria. Vi muitas respostas de como as editoras de mang&#xE1; &quot;n&#xE3;o fazem marketing direito&quot; e deviam &quot;baratear as edi&#xE7;&#xF5;es para alcan&#xE7;ar um p&#xFA;blico maior e expandir o mercado&quot; - o mesmo discurso que rola no mundo cr&#xED;tico h&#xE1; muito tempo.</p><p>Ent&#xE3;o eu vou ser mais direto desta vez: mesmo que houvesse uma grande conflu&#xEA;ncia de fatores favor&#xE1;veis, mang&#xE1; nunca vai voltar a vender como antes. Mesmo que o mercado n&#xE3;o fosse assolado por problemas de distribui&#xE7;&#xE3;o e log&#xED;stica, crises de papel, calotes e recess&#xF5;es econ&#xF4;micas, o p&#xFA;blico de mang&#xE1; n&#xE3;o vai voltar a ser enorme como era 20 anos atr&#xE1;s, e a culpa n&#xE3;o &#xE9; das editoras - foi o jogo inteiro que mudou muito desde ent&#xE3;o.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-1.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>Cavaleiros do Zod&#xED;aco foi o programa de maior audi&#xEA;ncia da Manchete por mais de um ano consecutivo</figcaption></figure><h2 id="nas-ltimas-duas-d-cadas-o-mang-perdeu-seu-principal-canal-de-divulga-o-e-n-o-eram-as-bancas">Nas &#xFA;ltimas duas d&#xE9;cadas, o mang&#xE1; perdeu seu principal canal de divulga&#xE7;&#xE3;o - e n&#xE3;o eram as bancas</h2><p>Tem um conceito de publicidade que diz que o consumidor precisa ser impactado pela propaganda do seu produto <a href="https://www.tutorialspoint.com/management_concepts/the_rule_of_seven.htm">sete vezes</a> antes de decidir compr&#xE1;-lo. Apenas ver o mang&#xE1; na banca n&#xE3;o &#xE9; o suficiente pra fazer o consumidor m&#xE9;dio comprar um volume: ele precisa ter visto o an&#xFA;ncio de lan&#xE7;amento, lido alguma mat&#xE9;ria a respeito, notado coment&#xE1;rios em redes sociais, conversado com algu&#xE9;m a respeito, antes de reparar o mang&#xE1; na banca e decidir comprar. Nos anos 90, os mang&#xE1;s da Conrad eram promovidos em outras revistas da editora, e as pr&#xF3;prias bancas serviam como uma esp&#xE9;cie de vitrine publicit&#xE1;ria, mas a grande for&#xE7;a da propaganda vinha de um outro canal principal: a televis&#xE3;o.</p><p>Quando a ind&#xFA;stria de mang&#xE1; come&#xE7;ou a pegar embalo no Brasil, anime j&#xE1; tinha presen&#xE7;a cativa na Globo, SBT, Record, Manchete, Band e v&#xE1;rios canais de TV a cabo, e atingia milh&#xF5;es de espectadores no pa&#xED;s todo. Em 2001, quando Bambulu&#xE1; passava <em>Sakura Card Captors</em> e outras s&#xE9;ries nas manh&#xE3;s da Globo, o programa atingia entre 9 e 10 pontos no IBOPE (<a href="https://www.bastidoresdatv.com.br/audiencia/relembre-audiencia-das-emissoras-de-tv-em-maio-de-2001">1</a> <a href="https://www.bastidoresdatv.com.br/audiencia/relembre-a-audiencia-da-globo-sbt-e-record-em-setembro-de-2001">2</a> <a href="https://www.bastidoresdatv.com.br/audiencia/relembre-a-audiencia-das-emissoras-de-tv-em-dezembro-de-2001-casa-dos-artistas">3</a>). Isso equivalia a 400 mil consumidores em potencial, s&#xF3; na cidade de S&#xE3;o Paulo, s&#xF3; em um canal, assistindo anime diariamente. &#xA0;Ent&#xE3;o, quando o mang&#xE1; foi publicado pela JBC, eles j&#xE1; tinham uma base enorme para trabalhar em cima que j&#xE1; conheciam muito bem o material. Similarmente, na Manchete dos anos 90, <em>Cavaleiros do Zod&#xED;aco</em> reunia 7% de share (269 mil espectadores) em S&#xE3;o Paulo, <em>Shurato</em> fazia 6% e <em>Kamen Rider Black/Cybercops</em> faziam 4% a 5%. A fonte &#xE9; <a href="https://dynablack.wordpress.com/2017/03/07/as-audiencias-da-rede-manchete-parte-2/">este artigo do Dynablack</a>, que &#xE9; leitura recomendada com v&#xE1;rias outras informa&#xE7;&#xF5;es sobre audi&#xEA;ncia e contexto da &#xE9;poca.</p><p>Isso &#xE9; um ponto muito importante que nem sempre &#xE9; t&#xE3;o notado: TV era um ve&#xED;culo forte pra burro pras editoras. Todo o modelo de produzir volumes de mang&#xE1; em massa s&#xF3; funcionava porque tinha milh&#xF5;es de crian&#xE7;as em potencial para comprar seu produto. Os animes tamb&#xE9;m eram um tipo de propaganda bastante espec&#xED;fico e muito efetivo, porque o cliente em potencial j&#xE1; sabia o que esperar ao comprar o produto. E acima de tudo, era gratuito. As editoras n&#xE3;o tinham que gastar para anunciar na TV porque o pr&#xF3;prio conte&#xFA;do da TV era propaganda pra eles. Mas essa &#xE9;poca passou, e o jogo mudou totalmente:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-3.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>A Rede Brasil de Televis&#xE3;o &#xE9; um dos poucos canais de TV que ainda exibem anime regularmente</figcaption></figure><ul><li>Ainda temos anime na TV aberta, mas em bem menor quantidade. O bloco da Crunchyroll TV na Rede Brasil tem cinco horas semanais de dura&#xE7;&#xE3;o e uma m&#xE9;dia de 0.5 pontos de audi&#xEA;ncia, ou 100 mil telespectadores na cidade de S&#xE3;o Paulo. &#xC9; uma m&#xE9;dia quatro vezes menor do que <em>Samurai X</em> fazia na rede do Roberto Marinho, e com bem menos tempo de tela do que naquela &#xE9;poca. Al&#xE9;m disso, a RBTV tem <a href="https://rbtv.com.br/upload_arquivos/2019/10/2019100354907001572008964.pdf">uma audi&#xEA;ncia bem mais adulta</a>, devido ao resto de sua programa&#xE7;&#xE3;o e &#xE0; natural evas&#xE3;o do p&#xFA;blico mais jovem a canais tradicionais lineares.</li><li>Na TV paga, o Cartoon Network fez <a href="https://criticalhits.com.br/anime/gracas-dragon-ball-super-cartoon-network-dobra-de-audiencia-e-volta-ser-o-canal-mais-assistido-da-tv-paga/">muito sucesso com <em>Dragon Ball Super</em></a>, a continua&#xE7;&#xE3;o do que &#xE9; provavelmente o anime mais popular no Brasil, mas n&#xE3;o teve o mesmo sucesso com o remake de <em>Supercampe&#xF5;es</em> (<em>Captain Tsubasa</em>), outra s&#xE9;rie de nobre pedigree que tamb&#xE9;m foi exibido originalmente na Manchete. A Crunchyroll fechou um novo acordo com a PlayTV, mas no momento em que escrevo este artigo, n&#xE3;o temos dados de audi&#xEA;ncia. E como se n&#xE3;o bastasse, a TV a cabo enfrenta sua pr&#xF3;pria crise, com <a href="http://www.abta.org.br/dados_do_setor.asp">uma queda de 19%</a> no n&#xFA;mero de assinantes nos &#xFA;ltimos cinco anos.</li><li>Streaming e conte&#xFA;do on demand s&#xE3;o o futuro, e n&#xE3;o &#xE9; por engano que empresas como Panini e JBC estejam priorizando o licenciamento de t&#xED;tulos que tiveram animes de sucesso em anos recentes. A Netflix possui mais de 150 milh&#xF5;es de assinantes no mundo todo, e <a href="https://www.tecmundo.com.br/cultura-geek/146323-netflix-tem-10-milhoes-assinantes-brasil.htm">pelo menos 10 milh&#xF5;es deles est&#xE3;o no Brasil</a>. N&#xE3;o sabemos quantos desses 10 milh&#xF5;es de usu&#xE1;rios est&#xE3;o interessados em anime, mas certamente &#xE9; algum n&#xFA;mero na faixa das centenas de milhares. A Crunchyroll possui <a href="https://techcrunch.com/2019/03/22/crunchyroll-raises-its-monthly-subscription-price-to-7-99/">12 milh&#xF5;es de usu&#xE1;rios ativos no mundo</a>, entre espectadores do plano gratuito e do plano pago. O Brasil figura entre os 5 maiores pa&#xED;ses do servi&#xE7;o, o que lhe confere uma audi&#xEA;ncia otaku de tamanho compar&#xE1;vel &#xE0; da Netflix.</li></ul><p>OK, o jogo mudou. Todo mundo que quer ver anime, est&#xE1; vendo na internet, e possivelmente h&#xE1; mais f&#xE3;s de anime hoje em dia do que duas d&#xE9;cadas atr&#xE1;s. Netflix e Crunchyroll s&#xE3;o grandes o bastante pra ocupar o v&#xE1;cuo deixado pelos canais de antigamente. Ent&#xE3;o por que o mercado de mang&#xE1; encolheu?</p><p>Um dos motivos, claro, &#xE9; a pirataria: n&#xE3;o h&#xE1; como uma edi&#xE7;&#xE3;o f&#xED;sica, que custa dinheiro e leva tempo pra chegar &#xE0;s suas m&#xE3;os, competir com acesso instant&#xE2;neo, gratuito e ilimitado a centenas de s&#xE9;ries pirateadas. Mas embora pirataria seja uma for&#xE7;a muito relevante, &#xE9; tamb&#xE9;m um assunto muito pobre de conte&#xFA;do, porque n&#xE3;o h&#xE1; muito o que se dizer sobre ela, e o mang&#xE1; n&#xE3;o &#xE9; o &#xFA;nico mercado que sofre com ela. Outros fatores t&#xE3;o relevantes quanto ela tamb&#xE9;m merecem a nossa aten&#xE7;&#xE3;o, como por exemplo...</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>Marvel Disk Wars &#xE9; um anime estrelando os her&#xF3;is da franquia em aventuras epis&#xF3;dicas</figcaption></figure><h2 id="o-modelo-de-propaganda-anime-mang-n-o-funciona-mais-t-o-bem-um-estudo-de-caso-similar">O modelo de propaganda anime -&gt; mang&#xE1; n&#xE3;o funciona mais t&#xE3;o bem: um estudo de caso similar</h2><p>Os quatro filmes dos Vingadores que a Disney lan&#xE7;ou nesta &#xFA;ltima d&#xE9;cada figuram entre <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_highest-grossing_films">as dez maiores bilheterias de cinema</a> de todos os tempos. Com 21 filmes desde 2010, o Universo Cinem&#xE1;tico da Marvel j&#xE1; arrecadou mais do que <em>Star Wars</em> e <em>Harry Potter</em> juntos. Fora do MCU, sa&#xED;ram quatro filmes do Homem-Aranha (<em>Venom</em>, <em>Spider-Verse</em> e os dois do Andrew Garfield), quatro filmes de X-Men, dois do Deadpool, dois solos do Wolverine, todos com n&#xED;veis variados de sucesso de audi&#xEA;ncia e cr&#xED;tica. O MCU ainda gerou s&#xE9;ries de TV como <em>Agents of S.H.I.E.L.D</em>, s&#xE9;rie de Netflix como <em>Daredevil</em>, videogames, eventos, presen&#xE7;a em m&#xED;dia, tudo o que voc&#xEA; possa imaginar. N&#xE3;o &#xE9; exagero dizer que a Marvel &#xE9; a maior for&#xE7;a cultural desta d&#xE9;cada, para o bem ou para o mal.</p><p>Mas e o mercado de quadrinhos? Tudo no mercado editorial brasileiro &#xE9; envolto em mist&#xE9;rio e segredo, ent&#xE3;o n&#xE3;o podemos olhar os n&#xFA;meros daqui. Felizmente, os EUA possuem dados mais abertos e, por serem um mercado muito maior, tamb&#xE9;m s&#xE3;o um objeto de an&#xE1;lise mais interessante. O site Comichron lista dados de vendas de quadrinhos americanos por m&#xEA;s e por ano, com base nos dados de diversas fontes diferentes. Alguns pontos importantes antes de prosseguirmos:</p><ul><li><a href="https://www.comichron.com/yearlycomicssales.html">Esta an&#xE1;lise usa os dados da distribuidora Diamond</a>, que fornece quadrinhos para lojas em todo o pa&#xED;s, mas ignora vendas em livrarias (que s&#xE3;o abastecidas por outras distribuidoras), canais digitais e outros como Kickstarter.</li><li>N&#xF3;s s&#xF3; temos acesso ao n&#xFA;mero de vendas dos 1000 t&#xED;tulos mais populares do ano, e o mercado americano publica bem mais do que mil t&#xED;tulos por ano. Para refer&#xEA;ncia, em 2010, o mil&#xE9;simo t&#xED;tulo mais vendido nos EUA foi a edi&#xE7;&#xE3;o Thor For Asgard #3, que vendeu 23.700 c&#xF3;pias.</li><li>A an&#xE1;lise distingue &quot;comics&quot;, o formato americano barato que custa em m&#xE9;dia 3 a 4 d&#xF3;lares, e &quot;graphic novels&quot;, formatos mais caros que custam de 10 a 30 d&#xF3;lares. &quot;Trade paperbacks&quot;, aquelas colet&#xE2;neas de hist&#xF3;rias que compilam um arco ou um peda&#xE7;o de hist&#xF3;ria, s&#xE3;o considerados &quot;graphic novels&quot; para fins de an&#xE1;lise.</li></ul><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-2.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>The Reflection &#xE9; um anime de super-her&#xF3;is concebido por Stan Lee que tem um estilo bastante &#xFA;nico</figcaption></figure><p>Em 2010, a Marvel vendeu 24.999.700 unidades de 554 comics diferentes em lojas de comics. Seu t&#xED;tulo mais vendido foi a edi&#xE7;&#xE3;o #1 de Avengers, com 175.100 unidades (n&#xE3;o estranhem a numera&#xE7;&#xE3;o - a Marvel adotou a pr&#xE1;tica de resetar a numera&#xE7;&#xE3;o de tempos em tempos em determinados eventos para atrair p&#xFA;blico). Eles tamb&#xE9;m venderam 765.600 unidades de 290 graphic novels diferentes, com a edi&#xE7;&#xE3;o #25 capa-dura de Kick-Ass se sobressaindo com 36.700 c&#xF3;pias. Juntos, comics e graphic novel faturaram mais de 107 milh&#xF5;es de d&#xF3;lares para a Marvel em lojas de quadrinhos. 2010 tamb&#xE9;m foi o ano em que Homem de Ferro 2 saiu, arrecadando 623 milh&#xF5;es s&#xF3; de bilheteria.</p><p>Em 2018, ap&#xF3;s oito anos de MCU, a Marvel vendeu 26.540.180 unidades de 535 comics diferentes em lojas de comics. O faturamento aumentou em 30%, primariamente porque o pre&#xE7;o m&#xE9;dio dos volumes tamb&#xE9;m acompanhou o aumento. Ela tamb&#xE9;m vendeu 864.151 unidades de 312 graphic novels diferentes, com destaque para a graphic novel de Infinity Gauntlet, que vendeu 40.458 unidades a $24.99. No total, a Marvel faturou $138.5 milh&#xF5;es de d&#xF3;lares com lojas de quadrinhos em 2018. 2018 tamb&#xE9;m foi o ano em que a Marvel lan&#xE7;ou os filmes Homem-Formiga e Vespa, Pantera Negra e Avengers: Infinity War, faturando mais de 4 bilh&#xF5;es de d&#xF3;lares apenas com bilheteria.</p><p>Importante notar que, diferentemente do Brasil, os EUA n&#xE3;o sofreram uma infla&#xE7;&#xE3;o no pre&#xE7;o dos quadrinhos motivada por falta de papel, problemas de distribui&#xE7;&#xE3;o ou calote de livrarias. De acordo com a Diamond, o pre&#xE7;o m&#xE9;dio de um quadrinho aumentou de $2.62 em 1997 para $4.00 em 2018, um aumento de 52.6% que est&#xE1; abaixo dos ~60% de infla&#xE7;&#xE3;o que o pa&#xED;s sofreu nesse per&#xED;odo. Contudo, enquanto a Marvel conseguiu aumentar em 543% vezes seu faturamento de cinema de 2010 pra c&#xE1;, o volume de quadrinhos vendidos aumentou apenas 6%. &#xC9; um sinal de que os filmes, seriados e outras m&#xED;dias da Marvel n&#xE3;o produziram um efeito muito profundo nas vendas dos quadrinhos.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/Untitled-1.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>Dados do Comichron+ICV2 para o mercado de quadrinhos nos EUA. Leia abaixo para an&#xE1;lise</figcaption></figure><p>Al&#xE9;m dos dados da Diamond, o Comichron tamb&#xE9;m <a href="https://www.comichron.com/yearlycomicssales/industrywide/2018-industrywide.html">analisa dados do ICv2.com</a>, que abrange a ind&#xFA;stria como um todo. Neste link, d&#xE1; pra tirar algumas conclus&#xF5;es interessantes. Caiu a venda de lojas de quadrinhos (que trabalham principalmente com comics), mas aumentou a venda em livrarias (que preferem graphic novels), e possivelmente as livrarias se tornar&#xE3;o o principal meio de vendas de quadrinhos ao final de 2019. A venda digital segue pequena, respons&#xE1;vel por apenas 10% da fatia. Tamb&#xE9;m por conta da import&#xE2;ncia das livrarias, as vendas de graphic novels aumentaram ~50% de 2013 para 2018, enquanto as vendas de comics sofreram leve queda. Ou seja: h&#xE1; um crescimento. Mas &#xE9; um crescimento de um p&#xFA;blico que est&#xE1; disposto a gastar 15 d&#xF3;lares num volume capa dura de Saga, mas n&#xE3;o 4 d&#xF3;lares no volume de Homem-Aranha da semana.</p><p>Nem a m&#xE1;quina de m&#xED;dia mais poderosa da hist&#xF3;ria do planeta conseguiu convencer a molecada a comprar gibi barato e colorido do Hulk, galera. Fazer stories no Instagram ou rodar ad de Facebook n&#xE3;o vai conseguir viabilizar o <em>Black Clover</em> preto-e-branco de papel-jornal.</p><p>(Antes de seguirmos, uma curiosidade: &#xE9; dif&#xED;cil analisar as vendas de mang&#xE1;s com base nos dados do Comichron porque ele s&#xF3; lista os 1000 volumes mais vendidos, e poucos mang&#xE1;s acabam entrando. Mas d&#xE1; pra pegar alguns dados da Viz! Em 2010, ela s&#xF3; tinha 35 t&#xED;tulos no top 1000, que venderam 88.400 unidades a um pre&#xE7;o m&#xE9;dio de $9.78. Em 2018, ela conseguiu emplacar 58 t&#xED;tulos no top 1000, que venderam 151.077 unidades a um pre&#xE7;o m&#xE9;dio de $12.31. Parece que o mercado vai bem pra Viz por l&#xE1;!)</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-6.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>Este OVA de 50 minutos custava R$ 30,00 em 1995. Ajustado pelo IPCA para valores atuais, esse valor passa dos R$ 150,00.</figcaption></figure><h2 id="n-s-vivemos-em-uma-sociedade">N&#xF3;s vivemos em uma sociedade</h2><p>OK. Anime n&#xE3;o &#xE9; mais divulgado na TV, matando o que foi um dos principais canais de divulga&#xE7;&#xE3;o do mang&#xE1;. E mesmo se anime estivesse em todas as TVs brasileiras o tempo todo, ele n&#xE3;o teria o mesmo efeito que tinha 20 anos atr&#xE1;s. Se a Marvel n&#xE3;o consegue esse efeito, ningu&#xE9;m consegue. Mas o motivo por tr&#xE1;s dessa mudan&#xE7;a cultural n&#xE3;o s&#xE3;o t&#xE3;o &#xF3;bvios, e a melhor explica&#xE7;&#xE3;o que eu posso oferecer &#xE9; um palpite sem fundamento em dados s&#xF3;lidos: o entretenimento de hoje em dia &#xE9; muito mais sofisticado por um pre&#xE7;o muito mais baixo.</p><p>20 anos atr&#xE1;s, o cidad&#xE3;o podia comprar um VHS com 2 ou 3 epis&#xF3;dios de <em>Cavaleiros do Zod&#xED;aco</em> por R$ 30,00. Hoje, por R$ 25,00, o usu&#xE1;rio tem acesso a centenas de horas de anime para assistir quando quiser - incluindo Cavaleiros completo. O jogo que sairia por R$ 200,00 alguns anos atr&#xE1;s est&#xE1; sendo dado de gra&#xE7;a pela Epic Games ou pela PS Plus, ou dispon&#xED;vel ilimitado por 15 reais ao m&#xEA;s no Xbox Game Pass. YouTube &#xE9; de gra&#xE7;a. MMORPGs, <em>Pokemon GO</em>, <em>Fortnite</em>, <em>League of Legends</em>, todos s&#xE3;o de gra&#xE7;a. Microtransa&#xE7;&#xF5;es. Loot boxes. Pay-to-win. At&#xE9; a pirataria &#xE9; gratuita e digital hoje em dia - 10 anos atr&#xE1;s, loja pirata vendendo DVD a R$ 10,00 era presen&#xE7;a garantida em qualquer evento de anime.</p><p>A competi&#xE7;&#xE3;o do mang&#xE1; n&#xE3;o &#xE9; mais apenas com o bolso do consumidor. &#xC9; tamb&#xE9;m com a aten&#xE7;&#xE3;o, e em um mundo onde est&#xE1; todo mundo disposto a jogar o pre&#xE7;o no ch&#xE3;o para ter algumas migalhas de aten&#xE7;&#xE3;o do consumidor, entretenimento est&#xE1; mais barato do que nunca. E tempo &#xE9; algo que as crian&#xE7;as e adolescentes t&#xEA;m de sobra - dinheiro, n&#xE3;o. Entre gastar o pouco dinheiro que t&#xEA;m com um gibi ou jogar uma partida de LoL de gra&#xE7;a, assistir um YouTuber engra&#xE7;ado de gra&#xE7;a, ou ler um monte de mang&#xE1; pirata de gra&#xE7;a, a escolha &#xE9; &#xF3;bvia.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/12/image-8.png" class="kg-image" alt="As editoras de mang&#xE1; est&#xE3;o com a raz&#xE3;o, acredite" loading="lazy"><figcaption>Fortnite - jogado por mais de 250 milh&#xF5;es de jogadores, completamente gratuito.</figcaption></figure><p>Mas embora eu acredite que o mang&#xE1; nunca voltar&#xE1; a vender como vendia antigamente, eu n&#xE3;o acho que tudo est&#xE1; perdido. A molecada americana est&#xE1; parando de comprar gibis, mas o mercado de graphic novels est&#xE1; crescendo bem. S&#xE3;o produtos mais premium para um p&#xFA;blico mais adulto, mais criterioso com o que consomem e que quer algo dur&#xE1;vel para ficar bonito na prateleira. E veja s&#xF3;, &#xE9; exatamente o caminho que as editoras brasileiras de mang&#xE1; est&#xE3;o tomando. Quem diria que profissionais com dezenas de anos de mercado entendem de mercado, n&#xE3;o &#xE9; mesmo?</p><p><em>(Colaboraram nesta mat&#xE9;ria <a href="http://dynablack.wordpress.com">Dynablack</a>, que forneceu os dados e as explica&#xE7;&#xF5;es de medi&#xE7;&#xE3;o de audi&#xEA;ncia, e <a href="http://twitter.com/daigreon">DAIGREON</a>, que era a &#xFA;nica pessoa velha o suficiente do meu c&#xED;rculo de amigos que lembrava o pre&#xE7;o do VHS dos Cavaleiros do Zod&#xED;aco.)</em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Vamos conversar sobre mangás, bancas de jornal e distribuição]]></title><description><![CDATA[Um olhar sobre o mercado de distribuição editorial nos últimos 20 anos e sua relação com o mercado de mangás brasileiro]]></description><link>https://arara.me/vamos-conversar-sobre-bancas-de-jornal/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b91</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Tue, 12 Nov 2019 04:27:13 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/11/Ome-Piece-Brook-Reading-Newspaper.png" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/11/Ome-Piece-Brook-Reading-Newspaper.png" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o"><p>Este post &#xE9; uma esp&#xE9;cia de reflex&#xE3;o sobre os dados apresentados na palestra do mercado brasileiro de mang&#xE1;, realizado na Japan House neste &#xFA;ltimo dia 7 de novembro, conforme cobertura do blog <a href="https://maisdeoitomil.wordpress.com/2019/11/08/pergunta-da-plateia-faz-editores-de-mangas-perderem-o-rebolado-em-mesa-redonda/">Mais de Oito Mil.</a> Especificamente, os dados sobre tiragem de edi&#xE7;&#xF5;es mencionados por Marcelo del Greco, da Editora JBC: ele comenta que <em>Samurai X</em> e <em>Sakura Card Captors </em>vendiam de 30 a 40 mil exemplares por edi&#xE7;&#xE3;o em 2001, enquanto t&#xED;tulos de sucesso em 2019 vendem 5 mil c&#xF3;pias no m&#xE1;ximo. 85% &#xE9; uma baita de uma queda, sim, mas eu fiquei curioso para saber como o resto do mercado reagiu aos problemas da ind&#xFA;stria editorial nestes &#xFA;ltimos anos.</p><p>E um aviso: se voc&#xEA; n&#xE3;o gosta de n&#xFA;meros, sinto muito, mas veio ao lugar errado.</p><h2 id="antes-de-tudo-concorr-ncia-interna">ANTES DE TUDO: CONCORR&#xCA;NCIA INTERNA</h2><p>Em 2002, havia em torno de 16 t&#xED;tulos de mang&#xE1; sendo publicados em bancas: 7 da Conrad (<em>Dragon Ball Z, Evangelion, Vagabond, Saint Seiya, Fushigi Yugi, One Piece e Dr. Slump</em>), 8 da JBC (<em>Kenshin, Sakura, Video Girl Ai, Rayearth, Love Hina, InuYasha, A Princesa e o Cavaleiro e Yu Yu Hakusho</em>) e 1 da Planet Mang&#xE1;/Panini (<em>Gundam Wing</em>). </p><p>Em 2018, de acordo com <a href="https://twitter.com/BBMangas/status/1194045839108378626">a pesquisa realizada pelo blog Biblioteca Brasileira de Mang&#xE1;s,</a> refer&#xEA;ncia no assunto, foram publicados pelo menos 1 volume de 112 s&#xE9;ries diferentes, e um total de 391 volumes diferentes. Aproximadamente metade dessas s&#xE9;ries &#xE9; publicada pela Editora Panini, mas com mais concorrentes no mercado (JBC, NewPOP, al&#xE9;m de pequenas participa&#xE7;&#xF5;es de Devir, Pipoca &amp; Nanquim, Veneta e outros).</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-5.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Retirada deste <a href="https://twitter.com/BBMangas/status/1194045839108378626">tweet.</a> Siga @BBMangas para insights sobre o mercado de mang&#xE1;s no Brasil e no mundo</figcaption></figure><p>O mercado de mang&#xE1;s n&#xE3;o encolheu - ao contr&#xE1;rio. Ele se diversificou para n&#xE3;o morrer. Cada volume vende 8x menos, mas tem 8x mais t&#xED;tulos diferentes no mercado. E com essa variedade, temos mais acesso a mang&#xE1;s experimentais, como Boa Noite Punpun, <em>shoujos</em> como Furi Fura, e outros. Por essa &#xF3;tica, o mercado n&#xE3;o est&#xE1; t&#xE3;o ruim.</p><p>Infelizmente, n&#xE3;o &#xE9; poss&#xED;vel estudar muito a fundo o mercado de mang&#xE1;s. Dados de tiragem n&#xE3;o s&#xE3;o divulgados, nem auditados por &#xF3;rg&#xE3;os independentes como o <a href="https://ivcbrasil.org.br/#/home">IVC </a>ou a <a href="https://aner.org.br/wp-institucional/wp-content/uploads/2014/05/Factbook_2015_Site-FINAL.pdf">ANER</a>. Todas as empresas s&#xE3;o privadas e n&#xE3;o divulgam seus faturamentos. Este gr&#xE1;fico divulgado pela sempre excelente <a href="https://blogbbm.com/2019/01/09/shoujos-somente-o-ano-2000-foi-pior-do-que-2018/">Biblioteca Brasileira de Mang&#xE1;s</a> mostra que, &#xE0; exce&#xE7;&#xE3;o de um pico incomum em 2013-2015, o n&#xFA;mero de volumes publicado ano a ano cresce com estabilidade, mesmo com uma economia em recess&#xE3;o. Ent&#xE3;o vamos com calma, porque as coisas poderiam estar bem melhores, mas n&#xE3;o est&#xE3;o t&#xE3;o ruins quanto aparentam.</p><h2 id="distribui-o">DISTRIBUI&#xC7;&#xC3;O</h2><p>Cada empresa no Brasil &#xE9; obrigada a declarar que tipo de atividades comerciais elas realizam Esse tipo de atividade &#xE9; determinada atrav&#xE9;s de um c&#xF3;digo chamado CNAE (Classifica&#xE7;&#xE3;o Nacional de Atividade Econ&#xF4;mica), e a lista de todos os CNAEs v&#xE1;lidos &#xE9; gerida por um &#xF3;rg&#xE3;o do IBGE. O CNAE correspondente ao da atividade de vendas de jornais e revistas &#xE9; o &quot;<a href="https://concla.ibge.gov.br/busca-online-cnae.html?subclasse=4761002&amp;view=subclasse">4761-0/02 Com&#xE9;rcio varejista de jornais e revistas</a>&quot;, uma subclasse do &quot;47.61-0 Com&#xE9;rcio varejista de livros, jornais, revistas e papelaria&quot;, que engloba tamb&#xE9;m livrarias e papelarias.</p><p>Por conta do enorme n&#xFA;mero de subclasses, o IBGE n&#xE3;o revela o n&#xFA;mero de empresas da subclasse espec&#xED;fica dos jornaleiros e afins, mas &#xE9; poss&#xED;vel obter dados sobre a classe geral que tamb&#xE9;m envolve papelarias e livrarias. A <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6449">tabela 6449 do Cadastro Geral de Empresas</a> permite obter o n&#xFA;mero de empresas e funcion&#xE1;rios de uma classe espec&#xED;fica, divididos por ano e por estado da Federa&#xE7;&#xE3;o. Ent&#xE3;o j&#xE1; temos nossos primeiros dados:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-20.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Curiosidade: <a href="https://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/11/1375147-bancas-de-jornal-querem-aproveitar-nova-lei-para-reconquistar-publico-perdido.shtml">voc&#xEA;s sabiam que</a>, at&#xE9; os anos 90, 40% das vendas em bancas de jornal era de pornografia? Em 2013, j&#xE1; era menos que 5%</figcaption></figure><ul><li>Entre 2006 e 2017, o n&#xFA;mero de varejos de livros, jornais, revistas e papelaria no Brasil caiu de 50.414 para 35.434 (-30%). O pico foi em 2010, quando esse n&#xFA;mero chegou a 53.160, sofrendo quedas constantes desde ent&#xE3;o.</li><li>Em 2017, os cinco estados com maior n&#xFA;mero de varejos desse tipo s&#xE3;o S&#xE3;o Paulo (10.888), Minas Gerais (3.767), Paran&#xE1; (3.126), Rio de Janeiro (2.741) e Rio Grande do Sul (2.636).</li><li>Todos os estados sofreram quedas grandes, exceto Amazonas (+8.7%) e Acre (+3.8%). As maiores quedas foram em S&#xE3;o Paulo (-38%) e Rio Grande do Sul (-35%).</li><li>O n&#xFA;mero de trabalhadores na ind&#xFA;stria caiu de 165.514 em 2006 para 149.158 em 2017 (-10%). A m&#xE9;dia de funcion&#xE1;rios por estabelecimento aumentou de 3.28 funcion&#xE1;rio/varejo para 4.21, indicando uma tend&#xEA;ncia de consolida&#xE7;&#xE3;o do mercado.</li><li>As maiores quedas foram registradas em Sergipe (-25%) e S&#xE3;o Paulo (-18%). Muitos estados do Norte e Nordeste registraram aumento de pessoal, com os maiores aumentos registrados no Amazonas (+75%!) e Alagoas (+25%). Todos os estados observaram aumento de n&#xFA;mero m&#xE9;dio de funcion&#xE1;rios por estabelecimento.</li></ul><p>Esses dados nos mostram uma retra&#xE7;&#xE3;o geral da ind&#xFA;stria, uma consolida&#xE7;&#xE3;o do mercado em torno de empresas maiores, e um crescimento latente em estados do Norte e Nordeste. &#xC9; uma situa&#xE7;&#xE3;o ruim, mas &#xE9; s&#xF3; uma queda de 30%, e est&#xE1; longe de explicar as vendas dez vezes menores dos t&#xED;tulos de mang&#xE1; da JBC. Al&#xE9;m disso, esse n&#xFA;mero inclui papelarias, que n&#xE3;o nos interessa nesta an&#xE1;lise. Outras fontes n&#xE3;o-oficiais nos permitem ter uma ideia mais acertada do tamanho do problema:</p><ul><li>Segundo a tese de doutorado <a href="http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/10894/TESE-FINAL-final%C3%ADssima-finalmente-%C3%BAltima_forma-vers%C3%A3o_mais_recente-absoluta-enfim-2.pdf">&quot;EXTRA! EXTRA! Os jornaleiros e as bancas de jornais como espa&#xE7;o de disputas pelo controle da distribui&#xE7;&#xE3;o da imprensa e da economia pol&#xED;tica dos meios&quot;</a>, em 2006, a ANER afirmou que &quot;nos &#xFA;ltimos 20 anos, o n&#xFA;mero de pontos de venda no Brasil cresceu de cerca de 23 mil para aproximadamente 30 mil. No entanto, a mesma fonte aponta que os novos pontos correspondem em sua maioria absoluta a outros estabelecimentos que n&#xE3;o bancas, como livrarias, revistarias, padarias, bares etc. Isto &#xE9;: o n&#xFA;mero de bancas manteve-se est&#xE1;vel, se n&#xE3;o decaiu.&quot;</li><li>Em 2014, segundo <a href="http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/ideias/Archive/como-montar-uma-banca-de-revistas,0c287a51b9105410VgnVCM1000003b74010aRCRD">o SEBRAE</a>, a ANER (Associa&#xE7;&#xE3;o Nacional de Editores de Revistas) afirmou haver 23.000 pontos de venda de revistas no Brasil (incluindo bancas de jornais e PDVs alternativos, como revistarias e charutarias).</li><li>No <a href="https://total.abril.com.br/dinap/entrega-direta-de-impressos/">site oficial da DINAP</a>, a maior distribuidora do pa&#xED;s, esse n&#xFA;mero &#xE9; agora de 17.000 pontos de venda.</li></ul><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-12.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Esta tese de doutorado n&#xE3;o s&#xF3; &#xE9; muito informativa, como possui um filename extremamente peculiar. <a href="bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/10894/TESE-FINAL-final%C3%ADssima-finalmente-%C3%BAltima_forma-vers%C3%A3o_mais_recente-absoluta-enfim-2.pdf">Baixe-a na &#xED;ntegra aqui</a></figcaption></figure><p>Ou seja: de 1986 para 2006, o n&#xFA;mero de pontos de venda de revistas e jornais aumentou de 23 mil para 30 mil, e em algum momento caiu para 12-13 mil em 2018. &#xC9; uma queda de 60% entre 2006 e 2018 - maior que os 30% que vimos ali em cima, mas que ainda &#xE9; apenas uma pe&#xE7;a do quebra-cabe&#xE7;as.</p><p>Afinal, o que realmente nos interessa &#xE9; a banca de jornal. Por muito tempo, a banca de jornal serviu n&#xE3;o s&#xF3; como meio de distribui&#xE7;&#xE3;o como tamb&#xE9;m meio de divulga&#xE7;&#xE3;o. A banca tornava muito conveniente que uma crian&#xE7;a ou adolescente pudesse comprar quadrinhos e revistas sem ter que se deslocar at&#xE9; uma livraria, e o pr&#xF3;prio formato da banca dava aos mang&#xE1;s um destaque especial que nem sempre se tinha em outros lugares. </p><p>O problema &#xE9; que n&#xE3;o existe uma fonte segura e consistente sobre dados de bancas de jornal em &#xE2;mbito nacional, capaz de nos fornecer uma s&#xE9;rie hist&#xF3;rica, como o IBGE. O jeito ser&#xE1; puxar v&#xE1;rios dados de v&#xE1;rias fontes diferentes, sem a esperan&#xE7;a deles fazerem sentido entre si, mas torcendo para que eles contem uma hist&#xF3;ria mais ou menos coesa.</p><ul><li>O dado mais antigo que eu consegui achar sobre n&#xFA;mero de bancas de jornais em S&#xE3;o Paulo vem de <a href="http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/157827215695151500829990738147149600819.pdf">uma fala de 1969 do Victor Civita</a>, fundador da editora Abril, onde ele fala que uma das vantagens de se vender fasc&#xED;culos ao inv&#xE9;s de enciclop&#xE9;dias &#xE9; o alcance: &quot;12.000 bancas de jornal contra 800 livrarias.&quot;</li><li><a href="http://revistapegn.globo.com/Empresasenegocios/0,19125,ERA463231-2481,00.html">Publicado na revista Pequenas Empresas, Grandes Neg&#xF3;cios em 2001:</a> &quot;Segundo a Dinap, em 1994 existiam no pa&#xED;s cerca de 23 mil bancas. Pouco &#xA0;depois do Plano Real, com a estabiliza&#xE7;&#xE3;o da moeda, elas passaram a somar 33 mil. O pr&#xF3;prio mercado se encarregou de fazer a sele&#xE7;&#xE3;o natural &#xA0;e, mais ou menos de quatro anos para c&#xE1;, o n&#xFA;mero se estabilizou em 24 mil.&quot; &quot;Em 2002, vai faltar pouco para alcan&#xE7;ar R$ 1,5 bilh&#xE3;o, segundo previs&#xF5;es.&quot;</li><li>Na tese de doutorado <a href="http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/10894/TESE-FINAL-final%C3%ADssima-finalmente-%C3%BAltima_forma-vers%C3%A3o_mais_recente-absoluta-enfim-2.pdf">&quot;EXTRA! EXTRA! Os jornaleiros e as bancas de jornais como espa&#xE7;o de disputas pelo controle da distribui&#xE7;&#xE3;o da imprensa e da economia pol&#xED;tica dos meios&quot;</a>, uma tabela publicada pela Revista Banca Brasil revela que, em 2000, haviam 23.247 bancas de jornal no Brasil, com 64% delas na regi&#xE3;o Sudeste e 36% delas no Estado de S&#xE3;o Paulo.</li><li><a href="http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/_ed752_banca_de_jornal_tenta_aumentar_o_portfolio/">Jos&#xE9; Ant&#xF4;nio Mantovani</a>, presidente do Sindicato dos Jornaleiros de S&#xE3;o &#xA0;Paulo (Sindjorsp), diz que, por volta de 2003, havia 20 mil bancas no pa&#xED;s e o faturamento do setor era de R$ 140 milh&#xF5;es. Em 2013, s&#xE3;o 15 mil pontos de venda que faturam R$ 80 milh&#xF5;es.</li><li>No <a href="https://total.abril.com.br/dinap/entrega-direta-de-impressos/">site oficial da DINAP</a>, a maior distribuidora do pa&#xED;s, eles dizem atender 12.000 bancas de jornal.</li></ul><p>T&#xED;nhamos em torno de 12 mil bancas nos anos 70, 23 mil bancas em 1994, 33 mil bancas em meados de 1998, 23 mil bancas em 2000/2001, 20 mil bancas em 2003, 15 mil bancas em 2013 e 12 mil bancas em 2019. Conclus&#xE3;o: O setor da ind&#xFA;stria caiu uns 30%, o n&#xFA;mero de pontos de venda caiu 60%, e o n&#xFA;mero de bancas de jornal acompanhou. Temos hoje, em 2019, o mesmo n&#xFA;mero de bancas de jornal que t&#xED;nhamos 50 anos atr&#xE1;s. E essa tend&#xEA;ncia se observa tamb&#xE9;m nos dados espec&#xED;ficos de v&#xE1;rias cidades:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-13.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Banca de jornal na Pra&#xE7;a da S&#xE9; (1940), retirada do site do <a href="https://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra10943/banca-na-se-sao-paulo-sp-praca-da-se-sao-paulo-sp">Ita&#xFA; Cultural</a></figcaption></figure><ul><li><a href="https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2012/08/14/sp-perde-uma-banca-ao-dia-editoras-lamentam.html">A cidade de S&#xE3;o Paulo perde uma banca por dia.</a> De mais de 5.000 em 2007 para menos de 3.500 em 2017. Hoje, em 2019, restam <a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/09/29/em-queda-bancas-de-jornal-adotam-visual-alternativo-e-viram-ate-cafeteria-em-sp.ghtml">2.638 bancas de jornal </a>regularizadas com a Prefeitura, uma queda de 48%.</li><li>No estado de S&#xE3;o Paulo, em 2000, haviam 8.558 bancas de jornal. <a href="https://www.dci.com.br/comercio/banca-de-jornal-tera-servicos-bancarios-1.697464">Em 2018, sobraram em torno de 5.000</a>, uma queda de 42%.</li><li>No Paran&#xE1; entre 2010 a 2014, <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/economia/numero-de-bancas-de-revista-cai-40-no-parana-eh4d2kn5t9ghd2txcigkkpd8u/">o n&#xFA;mero de bancas de jornal caiu 40%</a>, de 6.000 para 3.600.</li><li>Em Pernambuco, entre 2006 a 2016, <a href="https://curiosamente.diariodepernambuco.com.br/project/bancas-de-revistas-resistem-numa-metropole-que-le-cada-vez-menos/">o n&#xFA;mero de bancas de jornal caiu incr&#xED;veis 82%</a>, de 2.251 para 407.</li><li>Em Porto Alegre, <a href="https://abras.com.br/clipping.php?area=1&amp;clipping=38118">o n&#xFA;mero caiu de 350 em 1993</a> para 200 em 2013, uma queda de 43%.</li></ul><p>P&#xE9;ssimas not&#xED;cias, de modo geral - e um p&#xE9;ssimo momento para ser uma editora no Brasil, visto que a <a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/10/livraria-cultura-entra-com-pedido-de-recuperacao-judicial.shtml">Livraria Cultura</a> e a <a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/11/23/rede-de-livrarias-saraiva-faz-pedido-de-recuperacao-judicial.ghtml">Livraria Saraiva</a> entraram com pedido de recupera&#xE7;&#xE3;o judicial e detonaram outro canal importante de distribui&#xE7;&#xE3;o. Mas, infelizmente, as m&#xE1;s not&#xED;cias n&#xE3;o param por a&#xED; - porque, al&#xE9;m de existirem s&#xF3; metade das bancas de jornal hoje em dia, elas est&#xE3;o vendendo cada vez menos revistas e jornais. Para explicar melhor essa hist&#xF3;ria, vamos nos aprofundar um pouco na hist&#xF3;ria de S&#xE3;o Paulo</p><h2 id="as-bancas-de-jornal-em-s-o-paulo">AS BANCAS DE JORNAL EM S&#xC3;O PAULO</h2><p>Em S&#xE3;o Paulo, as bancas foram regularizadas em 1954, pelo prefeito J&#xE2;nio Quadros. Em 1986, o novamente prefeito J&#xE2;nio Quadros promulgou a <a href="https://leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/lei-ordinaria/1986/1007/10072/lei-ordinaria-n-10072-1986-dispoe-sobre-a-instalacao-de-bancas-de-jornais-e-revistas-em-logradouros-publicos-e-da-outras-providencias">LEI N&#xBA; 10.072</a>, que define v&#xE1;rios aspectos da atividade de jornaleiro, incluindo valor dos tributos devidos, regras das licita&#xE7;&#xF5;es para novas bancas e at&#xE9; a cor e o formato padr&#xE3;o das bancas. No artigo 13 da lei, fica expresso que as &#xFA;nicas atividades comerciais que cabem ao permission&#xE1;rio (aquele que recebe permiss&#xE3;o da prefeitura) &#xE9; a venda de material editorial e a utiliza&#xE7;&#xE3;o da estrutura para fins publicit&#xE1;rios. </p><p>Mas por volta dos anos 2000, as bancas j&#xE1; come&#xE7;aram a sofrer com a concorr&#xEA;ncia de outros estabelecimentos, que tamb&#xE9;m vendiam jornais e revistas, como postos de gasolina e supermercados, e organizaram uma press&#xE3;o junto &#xE0; C&#xE2;mara de Vereadores para &quot;afrouxar&quot; um pouco as leis. O <a href="http://legislacao.prefeitura.sp.gov.br/leis/decreto-40184-de-26-de-dezembro-de-2000/">Decreto n&#xBA;40.184</a>, promulgado por Celso Pitta no ano 2000, expande a lista de itens pass&#xED;veis de venda, incluindo fitas, CDs e DVDs, desde que encartados em publica&#xE7;&#xF5;es; bilhetes de loteria; ingressos de cinema e teatro; p&#xF4;steres; e itens de fumo, como cigarros e isqueiros. Especialmente, permite a venda de pequenos produtos aliment&#xED;cios industrializados, de at&#xE9; 30g, desde que n&#xE3;o ocupe mais do que 1m&#xB2; de &#xE1;rea da banca, que t&#xEA;m em geral 10m&#xB2;. Isso n&#xE3;o foi o suficiente para resolver o problema, porque:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-14.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Infelizmente, at&#xE9; um pacote de bala Halls j&#xE1; pesa mais do que 30 gramas</figcaption></figure><p>Embora expandisse o rol de itens, a rela&#xE7;&#xE3;o ainda era bastante restritiva. V&#xE1;rias bancas tiveram seus TPUs (termos de permiss&#xE3;o de uso) cassados por <a href="https://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2013/11/1375147-bancas-de-jornal-querem-aproveitar-nova-lei-para-reconquistar-publico-perdido.shtml">venderem itens fora da lista</a>. Al&#xE9;m disso, em 2010, o ent&#xE3;o prefeito Gilberto Kassab amea&#xE7;ou retirar 50 bancas de jornal do centro da cidade a t&#xED;tulo de promover a seguran&#xE7;a p&#xFA;blica, argumentando que as bancas de jornal eram &quot;ponto cego&quot; para a pol&#xED;cia e abrigo de bandidos. E para piorar, n&#xE3;o era poss&#xED;vel repor essas bancas: a cidade n&#xE3;o realizara nenhuma licita&#xE7;&#xE3;o para novas bancas desde 1994.</p><p>Em 2013, o prefeito Fernando Haddad promulgou a <a href="https://leismunicipais.com.br/a/sp/s/sao-paulo/lei-ordinaria/2013/1589/15895/lei-ordinaria-n-15895-2013-altera-a-redacao-do-art-13-da-lei-n-10072-de-09-de-junho-de-1986-que-dispoe-sobre-a-instalacao-de-bancas-de-jornais-e-revistas-em-logradouros-publicos-e-da-outras-providencias">Lei 15.895</a>, que fornece uma reda&#xE7;&#xE3;o mais abrangente da lei original. Entre os novos itens est&#xE3;o bebidas n&#xE3;o-alco&#xF3;licas, doces e biscoitos de at&#xE9; 200g, produtos de papelaria, itens eletr&#xF4;nicos, al&#xE9;m de servi&#xE7;os como recarga de celular. Mas acima de tudo, passou a exigir que apenas um m&#xED;nimo de 75% do espa&#xE7;o da banca fosse destinado a essas atividades. De 1m&#xB2;, esse espa&#xE7;o passou a ser 2,5m&#xB2; em bancas de 10m&#xB2;.</p><p>A venda de itens &quot;alternativos&quot; em bancas de jornal acabou se tornando a parcela maiorit&#xE1;ria do faturamento das bancas. No Rio Grande do Sul, em 2013, os itens j&#xE1; representavam <a href="https://abras.com.br/clipping.php?area=1&amp;clipping=38118">50% do faturamento do setor.</a> Em S&#xE3;o Paulo, ainda no ano 2000, eles j&#xE1; representavam <a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/tudo/ct3004200003.htm">30% do faturamento</a>. S&#xE3;o itens com margens de lucro maiores do que as revistas, onde tradicionalmente o jornalista fica com 25% do pre&#xE7;o de capa, ent&#xE3;o basicamente todo jornaleiro vai decidir investir nesses itens para aumentar o faturamento. Mas tirar 25% da &#xE1;rea editorial implica em retirar alguns itens menos rent&#xE1;veis, e adivinha quem saiu prejudicado?</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-15.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>A Banca Tatu&#xED;, no Centro de S&#xE3;o Paulo, aposta em um visual bem PRAFRENTEX pra chamar a aten&#xE7;&#xE3;o do p&#xFA;blico. Roubado da <a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/09/29/em-queda-bancas-de-jornal-adotam-visual-alternativo-e-viram-ate-cafeteria-em-sp.ghtml">mat&#xE9;ria do G1</a>&#xA0;</figcaption></figure><p>Para resumir: desde o lan&#xE7;amento de Samurai X at&#xE9; os dias atuais, a ind&#xFA;stria de mang&#xE1; perdeu metade de seus pontos de venda, metade das bancas de jornal, e tamb&#xE9;m perderam 25% de espa&#xE7;o nas bancas que sobreviveram. Ah, e as duas maiores livrarias do Brasil faliram, dando <a href="https://twitter.com/arara_/status/1066377393735168000">calotes milion&#xE1;rios</a> nas editoras. Ah, e eu mencionei que o mercado de distribui&#xE7;&#xE3;o para bancas &#xE9; basicamente um monop&#xF3;lio da DINAP, ap&#xF3;s ela <a href="http://www.intervozes.org.br/direitoacomunicacao/?p=19692">ter absorvido a Chinaglia em 2007</a>? E eu contei que a DINAP &#xE9; do Grupo Abril, que TAMB&#xC9;M pediu <a href="https://duckduckgo.com/?q=grupo+abril+recupera%C3%A7%C3%A3o+judicial&amp;t=ffab&amp;atb=v150-1&amp;ia=web">recupera&#xE7;&#xE3;o judicial</a> em 2018?</p><h2 id="curva-de-elasticidade">CURVA DE ELASTICIDADE</h2><p>O fato da ind&#xFA;stria brasileira de mang&#xE1;s continuar a aumentar o n&#xFA;mero de t&#xED;tulos e volumes publicados ano a ano, mesmo nestas condi&#xE7;&#xF5;es de distribui&#xE7;&#xE3;o, &#xE9; um baita m&#xE9;rito deles. Mas com bancas de jornais, livrarias e distribuidoras fechando, indo &#xE0; fal&#xEA;ncia e dando calote, &#xE9; muito mais dif&#xED;cil fazer um produto de nicho direcionado a um p&#xFA;blico mainstream. </p><p>O objetivo de todo plano de neg&#xF3;cios &#xE9; maximizar o lucro de um certo produto. Como lucro total &#xE9; <em>lucro por unidade x unidades vendidas</em>, voc&#xEA; tem que maximizar os dois elementos da equa&#xE7;&#xE3;o para maximizar o lucro total. O problema &#xE9; que, a menos que voc&#xEA; mexa no produto, aumentar o lucro por unidade significa aumentar o pre&#xE7;o, e aumentar o pre&#xE7;o significa diminuir o n&#xFA;mero de unidades vendidas. A rela&#xE7;&#xE3;o entre esses fatores e o lucro total geralmente &#xE9; representado por um gr&#xE1;fico chamado &quot;curva de elasticidade&quot;. Confira um exemplo simples:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-3.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>graphic design is my passion</figcaption></figure><p>A linha azul &#xE9; o &quot;pre&#xE7;o&quot; do produto. Ele acompanha o valor do eixo horizontal. A linha vermelha &#xE9; o &quot;p&#xFA;blico&quot;, e ela diminui conforme o pre&#xE7;o aumenta. A linha verde &#xE9; a receita total, a multiplica&#xE7;&#xE3;o das duas linhas - e como voc&#xEA;s podem ver, neste caso, ela atinge seu m&#xE1;ximo quando pre&#xE7;o e p&#xFA;blico s&#xE3;o 50%.</p><p>Na vida real, a reta vermelha &#xE9; bem mais maluca e complicada. Pessoas compram mais quando o produto custa R$ 9,99 do que quando ele custa R$ 10,00. Pessoas comparam o pre&#xE7;o com outros produtos similares. Certos clientes v&#xE3;o comprar mesmo que custe 10 vezes mais do que merece, e por a&#xED; vai. O &#xFA;nico jeito de determinar a curva de elasticidade &#xE9; atrav&#xE9;s de pesquisa de mercado e experi&#xEA;ncia e dados de venda anteriores.</p><p>Mas o que acontece quando surge um problema de distribui&#xE7;&#xE3;o, como o modelo anterior? Voc&#xEA; bate num &quot;teto&quot; de p&#xFA;blico. Voc&#xEA; n&#xE3;o consegue alcan&#xE7;ar um p&#xFA;blico maior baixando os pre&#xE7;os ou fazendo edi&#xE7;&#xF5;es mais baratas... Ent&#xE3;o voc&#xEA; aumenta o pre&#xE7;o pra lucrar mais. E a&#xED; voc&#xEA; percebe que, se fizer um produto um pouquinho melhor, com papel de mais qualidade, com mais p&#xE1;ginas, a sua base <em>hardcore </em>estar&#xE1; disposta a pagar um pouquinho mais. E a&#xED; voc&#xEA; pode economizar, deixando de enviar pras bancas, e enviando direto pras lojas onde sua base compra, ou via e-commerce. Voc&#xEA; perde um pouco de p&#xFA;blico, mas aumenta a margem.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-16.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Devilman, da NewPOP, sabe que &#xE9; um produto de nicho do nicho e n&#xE3;o tem o menor pudor de ser extremamente extravagante</figcaption></figure><p>Em 2001 fazia sentido vender meio-tankobons a pre&#xE7;o de banana nas bancas, porque tinha 10 t&#xED;tulos de mang&#xE1; na banca, porque tinha o dobro de bancas e as bancas n&#xE3;o eram mini-bombonieres espalhadas pela cidade. Hoje em dia, com todos esses problemas, a conta n&#xE3;o fecha. A Panini ainda consegue distribuir pra bancas por <a href="https://blogbbm.com/2017/08/09/editora-panini-passara-a-distribuir-seus-produtos-por-conta-propria/">ter uma distribuidora pr&#xF3;pria</a>, mas as outras t&#xEA;m mais dificuldade.</p><h2 id="os-outros-jornais-e-revistas">OS OUTROS JORNAIS E REVISTAS</h2><p>Mas antes de partirmos pra conclus&#xE3;o, vamos dar uma olhada no resto da banca. Revistas e jornais tamb&#xE9;m dependem fortemente das bancas para distribui&#xE7;&#xE3;o, ent&#xE3;o devemos ver sintomas similares. </p><ul><li>Em 2010, a Editora Abril circulou <a href="https://web.archive.org/web/20120428232321/http://www.grupoabril.com.br/institucional/editora-abril.shtml">196 milh&#xF5;es de exemplares de 54 revistas diferentes</a>. Em 2012, <a href="https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2012/08/14/sp-perde-uma-banca-ao-dia-editoras-lamentam.html">50% de sua tiragem </a>era vendida em bancas de jornal. Em 2019, ela circulou <a href="http://publiabril.abril.com.br/svp/tabelas/circulacao?platform=revista-impressa-mais-digital">14.7 milh&#xF5;es de exemplares de 10 revistas diferentes</a>, e <a href="http://publiabril.abril.com.br/svp/tabelas/circulacao?platform=revista-impressa-mais-digital">apenas 9% de sua tiragem &#xE9; vendida &quot;avulsa&quot;</a>, o que inclui bancas de jornal, livrarias e outros</li><li>Em 2012/2013, a Editora Globo circulou <a href="http://editora.globo.com/midiakit/epoca/arquivos/MidiaKit_Epoca.pdf">3.3 milh&#xF5;es de exemplares</a> de 16 revistas diferentes. Em 2015, foram <a href="http://editora.globo.com/midiakit/arquivos/MidiaKit_Institucional.pdf">2.5 milh&#xF5;es de exemplares</a>, uma queda de 25% em dois anos e meio.</li><li>Este <a href="https://sag.ivcbrasil.org.br/conteudos/pesquisas_estudos/estudo_revistas_set2011.pdf">primeiro estudo do IVC</a> revela que as tiragens de revistas se mantiveram relativamente est&#xE1;veis durante o per&#xED;odo entre 2000 e 2011. <a href="https://sag.ivcbrasil.org.br/conteudos/pesquisas_estudos/BalancoMeioRevista2014.pdf">Neste segundo estudo</a>, que compreende o per&#xED;odo at&#xE9; 2014, as vendas de revistas come&#xE7;am a cair (-9,6%), principalmente por culpa das vendas avulsas (-19,8%), mas assinaturas se mant&#xE9;m est&#xE1;veis (-3,2%) e surge um in&#xED;cio do mercado digital. </li><li><a href="https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/679/1/FBarbosa.pdf">Em 2006, a revista Veja tinha tiragem de 1.224.930 exemplares.</a> Em 2019, a revista possui tiragem de 253.301 exemplares impressos, e 314.690 exemplares digitais. Olhando apenas para os exemplares impressos, &#xE9; uma queda de 80% de circula&#xE7;&#xE3;o.</li><li><a href="https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/679/1/FBarbosa.pdf">Em 2006, a revista &#xC9;poca tinha tiragem de 514.259 exemplares.</a> Em 2014, essa <a href="http://editora.globo.com/midiakit/epoca/arquivos/MidiaKit_Epoca.pdf">tiragem era de 388.000 mil</a>. No come&#xE7;o de 2017, a &#xC9;poca registrava<a href="https://www.poder360.com.br/midia/jornais-e-revistas-continuam-avancando-em-2017-com-suas-edicoes-digitais/"> 94 mil assinantes digitais</a>. Em 2014, <a href="http://editora.globo.com/midiakit/epoca/arquivos/MidiaKit_Epoca.pdf">apenas 9% dos leitores da &#xC9;poca</a> compravam a revista avulsa em bancas e revistarias.</li><li>Em 2008, <a href="https://lista10.org/diversos/as-10-revistas-semanais-mais-vendidas-do-brasil/">a revista Isto&#xE9;</a> tinha tiragem de 344.273 exemplares. <a href="http://www.editora3.com.br/downloads/2019/midiakit_istoe.pdf">Em seu m&#xED;dia kit de 2019</a>, a tiragem total anunciada &#xE9; de 253.893 exemplares, embora n&#xE3;o fique claro quantas dessas c&#xF3;pias s&#xE3;o digitais.</li><li>O mesmo se d&#xE1; com jornais. <a href="https://sag.ivcbrasil.org.br/conteudos/pesquisas_estudos/BalancoMeioJornal2014.pdf">Queda de vendas avulsas a partir de 2010,</a> com aumento de assinaturas e c&#xF3;pias digitais. Em 2015, os 11 maiores jornais do pa&#xED;s produziram 1.3 milh&#xE3;o de exemplares impressos todo dia. <a href="https://www.poder360.com.br/midia/jornais-e-revistas-continuam-avancando-em-2017-com-suas-edicoes-digitais/">No come&#xE7;o de 2017, a m&#xE9;dia foi de 891 mil exemplares</a> (-32%). Nesse mesmo per&#xED;odo, o n&#xFA;mero de assinantes digitais aumentou de 532 mil para 588 mil (+10%).</li><li>Entre janeiro e dezembro de 2018, <a href="https://www.brasilagro.com.br/conteudo/a-brutal-queda-de-leitores-e-assinantes-de-jornais-e-revistas.html">o n&#xFA;mero de c&#xF3;pias digitais dos 10 maiores jornais </a>aumentou 5.4%, enquanto o n&#xFA;mero de c&#xF3;pias impressas caiu 10%. Em um ano. Tamb&#xE9;m em janeiro de 2018, o n&#xFA;mero de c&#xF3;pias digitais superou o n&#xFA;mero de c&#xF3;pias impressas.</li><li>Em agosto de 1994, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/8/14/brasil/7.html">a Folha de S&#xE3;o Paulo batia um recorde hist&#xF3;rico</a> com uma tiragem de 1.1 milh&#xE3;o de exemplares para um jornal di&#xE1;rio. Em dezembro de 2018, <a href="https://www.brasilagro.com.br/conteudo/a-brutal-queda-de-leitores-e-assinantes-de-jornais-e-revistas.html">a tiragem da Folha foi de 103.501 exemplares</a> - ainda que ela tenha o dobro de leitores online.</li></ul><p>A queda dos jornais e das revistas se deu majoritariamente a partir de 2010. A queda se deu principalmente nas vendas avulsas, que despencaram, indicando que eles tamb&#xE9;m sofreram gravemente com os efeitos da banca. Os jornais sobrevivem hoje gra&#xE7;as a assinaturas e vers&#xF5;es digitais - duas coisas que posam problemas fundamentais para editoras de mang&#xE1;.</p><p>A negocia&#xE7;&#xE3;o de direitos digitais &#xE9; literalmente uma nova negocia&#xE7;&#xE3;o de direitos com a editora. Panini e JBC j&#xE1; investem bastante em publicar seus t&#xED;tulos como e-books, mas ainda n&#xE3;o existe uma cultura muito bem firmada de compra de mang&#xE1; digital no Brasil, al&#xE9;m de ser um esfor&#xE7;o extra para cada t&#xED;tulo do acervo deles.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-18.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"><figcaption>Curiosidade: diz a lenda que a primeira banca de jornais do Brasil foi montada na frente do Caf&#xE9; Lamas, no Rio de Janeiro, por um imigrante chamado Carmine Labanca. Como as pessoas diziam que &quot;iam ao Labanca&quot;, o nome &quot;banca&quot; acabou pegando. Acreditem se quiserem</figcaption></figure><p>Quanto a assinaturas, jornais e revistas t&#xEA;m uma vantagem que as editoras n&#xE3;o t&#xEA;m: jornais e revistas n&#xE3;o t&#xEA;m fim. Se voc&#xEA; assina a Folha, voc&#xEA; continua assinante da Folha at&#xE9; voc&#xEA; decidir conscientemente que n&#xE3;o quer mais a Folha. Mas se voc&#xEA; &#xE9; assinante de Naruto... Bom, uma hora, Naruto acaba, e a Panini automaticamente perde uma assinatura, e tem que gastar recursos para conquistar o usu&#xE1;rio de volta. &#xC9; um mercado fundamentalmente mais ingrato.</p><h2 id="conclus-o">CONCLUS&#xC3;O</h2><p>&#xC9; um pouco cruel dizer que as editoras n&#xE3;o est&#xE3;o fazendo nada para melhorar o mercado quando elas est&#xE3;o fazendo exatamente o que as maiores empresas do mercado est&#xE3;o tentando fazer para preservar suas bases, tendo que competir n&#xE3;o s&#xF3; com Marvel e DC por espa&#xE7;o em banca, mas tamb&#xE9;m com paletas mexicanas e recarga de Bilhete &#xDA;nico - especialmente quando o mercado n&#xE3;o vai t&#xE3;o mal, e os produtos se adaptaram a uma nova realidade onde mesmo que elas quisessem ser acess&#xED;veis, a distribui&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o lhes permitiria.</p><p>Pessoalmente, eu acho que material impresso vai naturalmente migrar para se tornar material de luxo, ou ao menos colecion&#xE1;vel. Edi&#xE7;&#xF5;es baratas e descart&#xE1;veis n&#xE3;o parecem ter lugar num mundo progressivamente dominado pelo digital, e um dia dinossauros como eu v&#xE3;o morrer ou se adaptar. A nova gera&#xE7;&#xE3;o j&#xE1; est&#xE1; consumindo toda a m&#xED;dia de que precisa digitalmente, a inclus&#xE3;o digital est&#xE1; mais forte do que nunca, e o fim das bancas de jornal parece ser um caminho sem volta.</p><p>Obrigado por virem para o meu TED Talk.</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image-19.png" class="kg-image" alt="Vamos conversar sobre mang&#xE1;s, bancas de jornal e distribui&#xE7;&#xE3;o" loading="lazy"></figure>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[A verdade sobre a semana de 4 dias úteis da Microsoft Japan]]></title><description><![CDATA[O que os números realmente nos dizem sobre esse experimento?]]></description><link>https://arara.me/a-verdade-sobre-a-semana-de-4-dias-uteis-da-microsoft-japan/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b90</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Tue, 05 Nov 2019 03:34:42 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/11/ms.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/11/ms.jpg" alt="A verdade sobre a semana de 4 dias &#xFA;teis da Microsoft Japan"><p>A Microsoft Japan fez um experimento: durante o m&#xEA;s de agosto de 2019, eles estabeleceram semanas &#xFA;teis de quatro dias, dando a sexta-feira de gra&#xE7;a para o trabalhador. Recentemente, eles publicaram os resultados, e a internet n&#xE3;o consegue parar de falar deles. Tem brasileiro tuitando:</p><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Durante um m&#xEA;s, todos os funcion&#xE1;rios da Microsoft Jap&#xE3;o trabalharam de segunda a quinta, sem mexer no sal&#xE1;rio. O faturamento aumentou 40% e o uso de eletricidade caiu 23%.<a href="https://t.co/Esum0wIcPM">https://t.co/Esum0wIcPM</a></p>&#x2014; Paula Zogbi (@ZogbiPaula) <a href="https://twitter.com/ZogbiPaula/status/1191325884193660929?ref_src=twsrc%5Etfw">November 4, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><p>Tem americano tuitando:</p><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">Microsoft Japan&#x2019;s 4-day workweek experiment sees productivity jump 40% <a href="https://t.co/a3xz82nWg0">https://t.co/a3xz82nWg0</a></p>&#x2014; CNBC Make It (@CNBCMakeIt) <a href="https://twitter.com/CNBCMakeIt/status/1191390933339779074?ref_src=twsrc%5Etfw">November 4, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><p>Tem at&#xE9; gamer tuitando:</p><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="en" dir="ltr">Microsoft Japan proves that a four-day work week is better for everyone <a href="https://t.co/M8kFzlY2Rk">https://t.co/M8kFzlY2Rk</a> <a href="https://t.co/1Y8ljWCueA">pic.twitter.com/1Y8ljWCueA</a></p>&#x2014; PC Gamer (@pcgamer) <a href="https://twitter.com/pcgamer/status/1191520520224804865?ref_src=twsrc%5Etfw">November 5, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><p>Nossa! Mais folga pro trabalhador e mais resultado pra empresa! &#xC9; o sonho de todo mundo. Mas vamos com calma: de onde veio essa not&#xED;cia? O que foi que a Microsoft disse, realmente?</p><p>A fonte mais &quot;original&quot; que eu consegui &#xE9; do<a href="https://tech.nikkeibp.co.jp/atcl/nxt/news/18/06325/?n_cid=nbpnxt_twbn"> NikkeiBP XTech</a>, um site de not&#xED;cias sobre tecnologia e neg&#xF3;cios. Ele fala sobre os resultados, que est&#xE3;o todos convenientemente concentrados neste slide, comparando o m&#xEA;s de agosto/2019 com o m&#xEA;s de agosto dos anos anteriores:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/11/image.png" class="kg-image" alt="A verdade sobre a semana de 4 dias &#xFA;teis da Microsoft Japan" loading="lazy"></figure><p>O slide est&#xE1; dividido em tr&#xEA;s colunas: &#x524A;&#x6E1B; (cortes), &#x5411;&#x4E0A; (melhoria) e &#x6E80;&#x8DB3; (satisfa&#xE7;&#xE3;o). Cada coluna possui par&#xE2;metros enumerados de A a K, ent&#xE3;o vamos falar sobre cada um deles em ordem:</p><ul><li><strong>[A] N&#xFA;mero de folgas requisitadas no m&#xEA;s ca&#xED;ram 25.4%; </strong>Uma boa parcela das folgas requisitadas por funcion&#xE1;rios existe para resolver problemas da vida adulta que s&#xF3; podem ser resolvidos em dias &#xFA;teis (banco, m&#xE9;dicos, advogados, etc.) Naturalmente, se todo mundo tem a sexta de folga, fica mais f&#xE1;cil se programar pra aproveitar a sexta pra <em>fazer os corres</em>. Mas &#xE9; surpreendente que essa porcentagem n&#xE3;o &#xE9; MAIOR - mesmo com quatro folgas extras por m&#xEA;s, a grande maioria das folgas continuou sendo requisitada. &#xD3;bvio que esse n&#xFA;mero nunca chegaria a zero (por causa de folgas por motivos de sa&#xFA;de, pra come&#xE7;o de conversa), mas redu&#xE7;&#xE3;o de apenas 25% nas folgas parece muito baixo.</li><li><strong>[B] Consumo de papel no m&#xEA;s caiu 58,7%; </strong>&#xC9; aqui que come&#xE7;am meus problemas com esses resultados. O gr&#xE1;fico mostra que o consumo de papel na Microsoft vem caindo constantemente ano a ano, e eles comparam o consumo de papel em 2019 com o consumo de papel em 2016 para chegar a esse n&#xFA;mero. Se n&#xE3;o houvesse o fim de semana de tr&#xEA;s dias, &#xE9; poss&#xED;vel que o consumo de papel ainda teria ca&#xED;do. N&#xE3;o estou convencido.</li><li><strong>[C] Consumo de energia no m&#xEA;s caiu 23.1%; </strong>Agosto teve 22 dias &#xFA;teis e 5 sextas-feiras. 5/22 = 22.7%. Naturalmente, se o seu escrit&#xF3;rio funciona em apenas 77% do tempo, n&#xE3;o &#xE9; de se espantar que ele consuma 77% da energia. Mesmo com equipamentos que ficam ligados constantemente, como servidores e roteadores, o grosso da energia &#xE9; consumida por equipamentos que s&#xF3; est&#xE3;o ligados quando o escrit&#xF3;rio est&#xE1; funcionando (luzes, computadores, impressoras, etc.) Mas v&#xE1; l&#xE1;, &#xE9; um resultado v&#xE1;lido.</li><li><strong>[D] Produtividade aumentou 40%; </strong>Eles usam o termo &#x52B4;&#x50CD;&#x751F;&#x7523;&#x6027; (<em>roudouseisansei</em>) que literalmente significa &quot;produtividade da for&#xE7;a de trabalho&quot;. Segundo os par&#xEA;nteses, ele &#xE9; calculado como &quot;vendas/funcion&#xE1;rio&quot;, e medido em ienes/pessoa. O aumento &#xE9; medido em rela&#xE7;&#xE3;o ao ano anterior, e parece impressionante, mas todos os anos antes dele tamb&#xE9;m tiveram aumentos proporcionais expressivos. Mais uma vez, dif&#xED;cil afirmar sem os n&#xFA;meros crus, mas a tend&#xEA;ncia dos anos anteriores indica que o crescimento seria mais ou menos nessa faixa, com ou sem fim-de-semana prolongado. Mas ainda &#xE9; um &#xF3;timo argumento a favor dele; n&#xE3;o porque ele AUMENTA a produtividade, e sim porque ele N&#xC3;O IMPACTA a produtividade. </li><li><strong>[E, F, G] Aumento em n&#xFA;mero de reuni&#xF5;es de 30 minutos (+46%), reuni&#xF5;es &quot;remotas&quot; (+21%) e &quot;networking&quot; (+10%); </strong>A estrutura do slide d&#xE1; a entender que a Microsoft acredita que o aumento da produtividade est&#xE1; relacionado a estes fatores. Ou seja: com um dia a menos na semana, os funcion&#xE1;rios tiveram que &quot;espremer&quot; mais reuni&#xF5;es no calend&#xE1;rio e fazer mais calls, e a hist&#xF3;ria aqui &#xE9; que isso n&#xE3;o impactou no resultado delas. Mas &#xE9; uma m&#xE9;trica ruim: se uma reuni&#xE3;o de 1 hora &#xE9; dividida em tr&#xEA;s reuni&#xF5;es remotas e menos eficientes de 30 minutos, as m&#xE9;tricas v&#xE3;o subir sem afetar a produtividade. O que seria interessante saber aqui &#xE9; se o tempo total gasto em reuni&#xF5;es diminuiu, mas isso &#xE9; algo que n&#xE3;o sabemos.</li><li><strong>[H] 92.1% dos respondentes &quot;gostaram&quot; da medida, versus 7.9% de respondentes que &quot;n&#xE3;o gostaram&quot; ou &quot;s&#xE3;o indiferentes&quot;. </strong>Esta &#xE9; uma informa&#xE7;&#xE3;o muito importante: caso os funcion&#xE1;rios tivessem que espremer reuni&#xF5;es pra caber na semana, eles poderiam ter ficado estressados ou estafados, sem conseguir aproveitar a folga que ganharam. Mas parece que a esmagadora maioria das pessoas gostou da medida, ent&#xE3;o n&#xE3;o deve ter sido o caso. E eu de fato me surpreenderia se as pessoas n&#xE3;o tivessem gostado de fim-de-semana prolongado.</li><li><strong>[I, J, K] Como voc&#xEA; gastou o seu tempo livre? </strong>N&#xE3;o h&#xE1; muito o que comentar. Trabalho volunt&#xE1;rio, fam&#xED;lia, estudos, lazer, etc.</li></ul><p>O que eu queria ressaltar com este post &#xE9; o exagero da narrativa em cima desta a&#xE7;&#xE3;o. O projeto n&#xE3;o foi respons&#xE1;vel por um aumento de 40% da produtividade e queda de 60% do consumo de papel - ambas as coisas teriam acontecido em intensidades similares, com ou sem as sextas livres. O que o projeto nos mostra &#xE9; que d&#xE1; pra reduzir a maioria das reuni&#xF5;es pela metade, economizar tempo de tr&#xE2;nsito fazendo calls pela internet, e ainda assim obter os mesmos resultados - reduzindo o consumo de energia no escrit&#xF3;rio e aumentando a qualidade de vida dos funcion&#xE1;rios.</p><p>Um &#xFA;ltimo ponto: a Microsoft convenientemente n&#xE3;o colocou as estat&#xED;sticas de hora extra na apresenta&#xE7;&#xE3;o, e eu estou muito curioso para saber como elas performaram no per&#xED;odo. &#x1F440;</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[O que o MAL pode nos dizer sobre o público dos animes]]></title><description><![CDATA[Analisando os dados do MAL para compreender a fundo o que o público ocidental gosta de verdade - com FATOS e LÓGICA]]></description><link>https://arara.me/o-que-o-mal-pode-nos-dizer-sobre-animes-e-quais-provavelmente-serao-os-melhores-animes-da-proxima-temporada/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b8d</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Sun, 18 Aug 2019 23:47:30 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/08/1512590212474.png" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/08/1512590212474.png" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes"><p>No come&#xE7;o da temporada de primavera 2019, eu vi muita gente falando que seria a pior temporada em muito tempo, que n&#xE3;o tinha absolutamente nada de interessante pra assistir e que era a temporada de assistir coisas antigas. Eu fiquei um pouco intrigado por essa posi&#xE7;&#xE3;o e comecei a pensar se isso era mesmo verdade.</p><p>Algumas horas depois, eu havia puxado informa&#xE7;&#xF5;es sobre todos os animes do MAL lan&#xE7;ados entre 2000 e 2018. Eu vou publicar o resultado completo, o banco de dados e o c&#xF3;digo utilizado na an&#xE1;lise em breve, mas descrevo abaixo alguns resultados preliminares. Eu concentrei minha an&#xE1;lise em dois fatores: &quot;popularidade&quot;, medida atrav&#xE9;s do n&#xFA;mero de membros do anime, e &quot;qualidade&quot;, medida atrav&#xE9;s da m&#xE9;dia de votos recebida pela s&#xE9;rie.</p><p>Um <em>disclaimer:</em> toda e qualquer informa&#xE7;&#xE3;o abaixo precisa ser levada com uma pitada de sal. O p&#xFA;blico do MAL n&#xE3;o &#xE9; representativo do p&#xFA;blico geral que &#xE9; f&#xE3; de anime. O f&#xE3; m&#xE9;dio de Dragon Ball Super n&#xE3;o faz conta no MAL. Essa &#xE9; uma an&#xE1;lise do p&#xFA;blico um pouco mais entusiasta do anime, e essa distin&#xE7;&#xE3;o ser&#xE1; importante em alguns aspectos. Al&#xE9;m disso, o p&#xFA;blico do MAL &#xE9; majoritariamente ocidental - e a ind&#xFA;stria de anime ainda tem os olhos voltados principalmente para o mercado interno. Por fim, quando eu me refiro a &quot;qualidade&quot;, entendam como qualidade subjetiva e percebida pelo p&#xFA;blico do MAL, e n&#xE3;o qualidade objetiva (muito mais dif&#xED;cil de mensurar).</p><h2 id="o-melhor-ano-do-anime-das-duas-ltimas-d-cadas-foi-2008">O melhor ano do anime das duas &#xFA;ltimas d&#xE9;cadas foi 2008</h2><p>&#xC9; sabido que a quantidade anual de s&#xE9;ries de anime lan&#xE7;adas nas &#xFA;ltimas duas d&#xE9;cadas tem aumentado consideravelmente ano a ano. O gr&#xE1;fico abaixo compara a m&#xE9;dia de &quot;popularidade&quot; e &quot;qualidade&quot; de cada ano:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/06/year-1.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>O n&#xFA;mero de s&#xE9;ries saltou de 224 no ano 2000 para 632 em 2016, quase triplicando o mercado. Comparativamente, a popularidade m&#xE9;dia de cada anime saltou de 16 mil em 2001 para 59 mil em 2012, quase quadruplicando. A popularidade do anime come&#xE7;ou a crescer bem antes da explos&#xE3;o do mercado, devido &#xE0; facilidade do acesso via internet e &#xE0; prolifera&#xE7;&#xE3;o dos fansubs. A partir de 2006, quando a Crunchyroll, a Funimation e outros servi&#xE7;os do g&#xEA;nero come&#xE7;am a tomar for&#xE7;a e puxar o mercado internacional de animes, o n&#xFA;mero de produ&#xE7;&#xF5;es acompanha e sobe gradativamente.</p><p>Contudo, a qualidade dessas s&#xE9;ries n&#xE3;o conseguiu acompanhar todo o crescimento, tendo um pico de 6.98 de m&#xE9;dia em 2008 e depois estabilizando entre 6.7 e 6.75 nos anos seguintes. Isso possivelmente est&#xE1; ligado aos cronogramas exigentes dos est&#xFA;dios de anima&#xE7;&#xE3;o, fruto de uma demanda imensa por obras que n&#xE3;o consegue ser suprida pela m&#xE3;o-de-obra atual.</p><p>2008 foi o ano de lan&#xE7;amento de <em>Clannad: After Story</em>, <em>Code Geass R2, Natsume&apos;s Book of Friends, Toradora! </em>e <em>Spice and Wolf.</em></p><h2 id="o-poder-do-seinen-psicol-gico">O poder do &quot;seinen psicol&#xF3;gico&quot;</h2><p>Outra coisa que analisei foram os g&#xEA;neros. Cada s&#xE9;rie pode ser &quot;rotulada&quot; com um ou mais g&#xEA;neros, a crit&#xE9;rio da comunidade. O MAL estabelece um total de 43 g&#xEA;neros diferentes para classificar as s&#xE9;ries. Confira o gr&#xE1;fico abaixo:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/06/genres-1.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Os g&#xEA;neros de com&#xE9;dia, a&#xE7;&#xE3;o e drama s&#xE3;o os mais comuns, mas tamb&#xE9;m os mais gen&#xE9;ricos. Praticamente todo anime pode ser considerado um anime de com&#xE9;dia, a&#xE7;&#xE3;o ou drama. Os menos representados s&#xE3;o os g&#xEA;neros<em> </em>Shoujo Ai, Shounen Ai, Yaoi e Yuri. Shounen est&#xE1; no top 10, assim como Hentai.</p><p>Na medi&#xE7;&#xE3;o de popularidade, j&#xE1; vemos algo interessante: o topo &#xE9; dominado por g&#xEA;neros &quot;s&#xE9;rios&quot;, como Thriller, Psychological e Mystery. Shounen, que &#xE9; indubitavelmente o g&#xEA;nero mais popular do mundo, fica atr&#xE1;s de Horror na m&#xE9;trica de &quot;popularidade&quot;. Hentai, um dos dez g&#xEA;neros mais produzidos de anime, est&#xE1; na &#xFA;ltima posi&#xE7;&#xE3;o de popularidade: um sinal de que muito <em>hentai</em> est&#xE1; sendo produzido, mas pouca gente est&#xE1; assistindo (ou admitindo que assistiu em sua conta pessoal no MAL).</p><p>Em quest&#xE3;o de qualidade, &#xE9; interessante ressaltar que os g&#xEA;neros Shoujo Ai e Shounen Ai, embora tenham t&#xED;tulos escassos e pouco conhecidos, geralmente s&#xE3;o bem-avaliados por quem assistiu, indicando que existe um nicho grande a ser explorado dessas obras. N&#xE3;o &#xE9; o caso de Yaoi e Yuri, que est&#xE3;o junto com Hentai na lanterninha das avalia&#xE7;&#xF5;es. Aparentemente, quem admite ter assistido Hentai logo diz que n&#xE3;o gostou nem um pouco.</p><h2 id="contrariando-expectativas">Contrariando expectativas</h2><p>Se me perguntassem um m&#xEA;s atr&#xE1;s qual &#xE9; o tipo de anime que mais tem chance de ter uma boa qualidade, eu diria que &#xE9; o anime original. Enquanto animes adaptados de mang&#xE1;s e novels muitas vezes s&#xE3;o utilizados como mera ferramenta de marketing para impulsionar as vendas de outro produto, animes originais s&#xF3; podem confiar em si mesmo para serem rent&#xE1;veis, e exigem mais comprometimento e risco da produ&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Eu estaria errado.</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/06/source.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Para realizar esta an&#xE1;lise, eu modifiquei levemente o campo &quot;Source&quot; do MAL. O estudo completo entra mais em detalhes, mas a ideia geral &#xE9; reduzir os 16 diferentes tipos de origem em 8, agrupando alguns com menor presen&#xE7;a.</p><p>Os animes mais populares do MAL s&#xE3;o baseados em light novels, seguido de mang&#xE1;s, livros em geral e do resto. Animes originais s&#xE3;o em m&#xE9;dia t&#xE3;o populares quanto animes baseados em jogos de videogame ou VNs. A explica&#xE7;&#xE3;o &#xE9; que produ&#xE7;&#xF5;es experimentais, s&#xE9;ries curtas e principalmente obras infantis costumam ser s&#xE9;ries originais, o que puxa para baixo a popularidade e a qualidade percebida delas.</p><p>&#xC9; interessante perceber como o perfil da origem dos animes mudou nas &#xFA;ltimas duas d&#xE9;cadas:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/06/genres-year.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Em 2001, 40% dos animes lan&#xE7;ados foram baseados em alguma Visual Novel. VNs s&#xE3;o geralmente mal-avaliadas e impopulares porque uma parcela grande delas s&#xE3;o consideradas hentai. Coincid&#xEA;ncia ou n&#xE3;o, 2001 marca o lan&#xE7;amento do anime da VN <em>Bible Black</em>. Com o passar dos anos, a parcela de animes baseados em VNs diminuiu, </p><p>&#xC9; tamb&#xE9;m interessante notar que, embora existam poucos animes baseados em livros normais, os poucos que existem costumam ser muito bem recebidos. Animes populares baseados em livros incluem <em>O Castelo Animado, Paprika </em>e <em>Run with the Wind</em>. Contudo, &#xE9; dif&#xED;cil determinar o que distingue um livro de uma light novel para os padr&#xF5;es do MAL, ainda que eles sejam estatisticamente distintos.</p><h2 id="o-tamanho-certo">O tamanho certo</h2><p>A televis&#xE3;o ainda &#xE9; um dos canais de faturamento mais importantes da ind&#xFA;stria do anime. E como os canais n&#xE3;o podem ter buracos em sua programa&#xE7;&#xE3;o, eles est&#xE3;o constantemente em busca de produzir novas s&#xE9;ries para preencher o espa&#xE7;o das que acabam. Para facilitar as negocia&#xE7;&#xF5;es e para dar um pouco mais de alavancagem para os comit&#xEA;s de produ&#xE7;&#xE3;o, a maioria das s&#xE9;ries come&#xE7;a e termina mais ou menos na mesma &#xE9;poca, numa troca que acontece trimestralmente. Da&#xED; vem o costume de agregar as s&#xE9;ries em temporadas, de nome&#xE1;-las com as esta&#xE7;&#xF5;es do ano, e de medir a dura&#xE7;&#xE3;o das s&#xE9;ries em <em>cour </em>(derivado do franc&#xEA;s <em>cours,</em> que significa per&#xED;odo). Um cour equivale a 3 meses de dura&#xE7;&#xE3;o da s&#xE9;rie, entre 12-13 epis&#xF3;dios. Abaixo voc&#xEA; pode ver a distribui&#xE7;&#xE3;o de s&#xE9;ries de acordo com sua dura&#xE7;&#xE3;o, no per&#xED;odo entre 2000-2018:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/08/cours-pie.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Para fazer essa divis&#xE3;o, eu estabeleci o seguinte crit&#xE9;rio: &quot;One-Offs&quot; incluem filmes, especiais, OVAs &#xFA;nicos - tudo que existe no MAL e que possui apenas um &quot;epis&#xF3;dio&quot;. &quot;Shorts/OVAs&quot; corresponde a todas as s&#xE9;ries que possuem at&#xE9; 6 epis&#xF3;dios, incluindo s&#xE9;ries canceladas, trilogias de filmes, enfim. Da&#xED; em diante, eu encaixei a s&#xE9;rie na categoria que mais faz sentido. Para esta categoria, eu n&#xE3;o fiz distin&#xE7;&#xE3;o entre filmes, OVAs e s&#xE9;ries de TV - a maioria dos filmes e OVAs v&#xE3;o cair nas categorias acima.</p><p>Hoje em dia, a dura&#xE7;&#xE3;o da maioria das s&#xE9;ries &#xE9; de apenas um <em>cour</em>, mas n&#xE3;o foi sempre assim. Nos anos 70 e 80, era bem comum ver s&#xE9;ries com 3 cours ou mais, e a maioria das s&#xE9;ries dessa &#xE9;poca que se tornaram cl&#xE1;ssicos t&#xEA;m v&#xE1;rias dezenas de epis&#xF3;dios. Mas o mercado foi mudando, em parte devido &#xE0; crise que se abateu na ind&#xFA;stria de anime nos anos 90, em parte devido &#xE0;s mudan&#xE7;as culturais - a TV perdeu relev&#xE2;ncia comparado &#xE0; internet, que oferece acesso a s&#xE9;ries antigas e novas e a uma variedade de entretenimento muito maior. &#xC0; medida que a competi&#xE7;&#xE3;o aumentou, aumentaram tamb&#xE9;m os riscos - e apostar em s&#xE9;ries de 1 ou 2 cours foi se tornando uma maneira de minimizar o risco do investimento. Acompanhe a evolu&#xE7;&#xE3;o da dura&#xE7;&#xE3;o m&#xE9;dia das s&#xE9;ries ao longo dos anos:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/08/eps-year-1.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Importante notar que o MAL cont&#xE9;m uma entrada para cada temporada distinta de uma s&#xE9;rie, ent&#xE3;o uma s&#xE9;rie como <em>Chihayafuru </em>vai constar como duas entradas de 2 <em>cour,</em> ao inv&#xE9;s de uma entrada de 4 cour. Mas e quanto &#xE0; qualidade/popularidade de cada categoria?</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/08/cours-table.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>S&#xE9;ries de 2 cours costumam ser mais populares e bem-avaliadas do que s&#xE9;ries de 1 cour, mas isso n&#xE3;o significa que mais epis&#xF3;dios os torna melhor. Como eu disse, para um projeto ser aprovado com 2 cours ou mais, ele precisa ser uma aposta mais confi&#xE1;vel - e os resultados mostram que os comit&#xEA;s de produ&#xE7;&#xE3;o t&#xEA;m alguma capacidade de estimar esse risco.</p><p>&quot;Mas se &#xE9; preciso ser uma aposta mais segura para conseguir mais epis&#xF3;dios, as s&#xE9;ries de 3+ cours deveriam ser ainda melhores!&quot; Verdade, Verdade, mas a partir do terceiro cour, a maioria das s&#xE9;ries come&#xE7;a a ter retorno diminu&#xED;do - o p&#xFA;blico come&#xE7;a a se cansar e largar no meio, e as chances de tomar uma decis&#xE3;o criativa que afaste os f&#xE3;s aumenta. Al&#xE9;m disso, em geral, quanto maior a s&#xE9;rie, menor a chance que ela v&#xE1; ser pega por um f&#xE3; casual para assistir. Esses efeitos s&#xE3;o bem conhecidos pela Netflix, que sabidamente <a href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=1&amp;cad=rja&amp;uact=8&amp;ved=2ahUKEwjVk9K644zkAhUEK7kGHcq-CQ4QFjAAegQIAxAB&amp;url=https%3A%2F%2Fwww.businessinsider.com%2Fnetflix-cancels-many-tv-shows-after-2-or-3-seasons-report-2019-4&amp;usg=AOvVaw0mSq4GVYJExGuj6rzSdfDg">cancela shows ap&#xF3;s a segunda ou terceira temporada</a> por motivos similares, mesmo quando s&#xE3;o s&#xE9;ries de sucesso.</p><p>Outro motivo &#xE9; que as s&#xE9;ries de 3+ cours incluem muitas s&#xE9;ries voltadas ao p&#xFA;blico infantil (<em>Bono Bono</em>, <em>Shounen Ashibe! Go Go Goma-chan</em>), al&#xE9;m de s&#xE9;ries com intuito puramente promocional (<em>Cardfight! Vanguard</em>, <em>Beyblade</em>, <em>Shinkalion</em>). Embora elas sejam rent&#xE1;veis por possuirem um p&#xFA;blico cativo na TV japonesa e darem retorno de vendas em merchandising, &#xE9; de se esperar que nenhuma dessas s&#xE9;ries sejam bem recebida pelo p&#xFA;blico otaku hardcore. O que &#xE9; um &#xF3;timo segway para o pr&#xF3;ximo assunto:</p><h2 id="nem-infantil-demais-nem-adulto-demais">Nem infantil demais, nem &quot;adulto&quot; demais</h2><p>Tem uma &#xFA;ltima informa&#xE7;&#xE3;o que podemos extrair do MAL, que &#xE9; a classifica&#xE7;&#xE3;o et&#xE1;ria. N&#xE3;o sei dizer at&#xE9; que ponto ela &#xE9; oficial ou n&#xE3;o, mas dado que ele usa o sistema americano de classifica&#xE7;&#xE3;o de filmes, &#xE9; seguro dizer que &#xE9; uma recomenda&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o-oficial dos membros da plataforma. Contudo, ela fornece uma ideia geral do conte&#xFA;do da s&#xE9;rie. Ela tem bastante em comum com a tag de g&#xEA;neros, mas s&#xE9;ries podem possuir v&#xE1;rios g&#xEA;neros, o que acaba misturando um pouco os efeitos. Classifica&#xE7;&#xF5;es et&#xE1;rias no MAL s&#xE3;o divididas em 6 categorias - aqui est&#xE1; uma breve descri&#xE7;&#xE3;o de cada uma delas, assim como alguns dos t&#xED;tulos mais bem-avaliados de cada um:</p><ul><li>G: Todas as idades, nenhuma restri&#xE7;&#xE3;o. Ex.: <em>O Castelo Animado, O Conto da Princesa Kaguya, Pingu in the City</em></li><li>PG: Crian&#xE7;as podem assistir, mas &#xE9; recomendada a supervis&#xE3;o de um adulto. Ex.: <em>A Viagem de Chihiro</em>, <em>Cardcaptor Sakura</em>, <em>Little Witch Academia (TV)</em></li><li>PG-13: Pode conter material n&#xE3;o indicado para crian&#xE7;as com menos de 13 anos. Ex.: <em>Steins;Gate, Hunter x Hunter, Gintama.</em></li><li>R-17: N&#xE3;o recomendado para crian&#xE7;as com menos de 17 anos. Geralmente envolve viol&#xEA;ncia gratuita e expl&#xED;cita. Ex.: <em>Fullmetal Alchemist: Brotherhood, Made in Abyss, Code Geass</em></li><li>R+: O mesmo que o R-17, mas com nudez total ou parcial. Ex.:<em> Monster, Nana, Berserk.</em></li><li>Rx: Tecnicamente pornografia. Todos os t&#xED;tulos nessa categoria t&#xEA;m a tag &quot;hentai&quot;, ent&#xE3;o j&#xE1; sabe o que esperar.</li></ul><p>E esta &#xE9; a m&#xE9;dia de popularidade e avalia&#xE7;&#xE3;o de cada classifica&#xE7;&#xE3;o:</p><figure class="kg-card kg-image-card"><img src="https://arara.me/content/images/2019/08/age-rating.png" class="kg-image" alt="O que o MAL pode nos dizer sobre o p&#xFA;blico dos animes" loading="lazy"></figure><p>Como j&#xE1; vimos nos outros t&#xF3;picos, conte&#xFA;do voltado para crian&#xE7;as &#xE9; muito pouco assistido na comunidade. Embora tenha alguns t&#xED;tulos bem-avaliados, como os blockbusters da Ghibli, a maioria &#xE9; ignorada ou rejeitada. Hentai tamb&#xE9;m &#xE9; mal assistido e mal avaliado, como j&#xE1; vimos na se&#xE7;&#xE3;o das tags. As outras classifica&#xE7;&#xF5;es s&#xE3;o mais interessantes. O p&#xFA;blico de anime gosta de suas s&#xE9;ries com bastante sangue, viol&#xEA;ncia e palavr&#xF5;es, mas n&#xE3;o tanto de <em>ecchi </em>e <em>fanservice</em>.</p><h2 id="conclus-o">Conclus&#xE3;o?</h2><ul><li>Est&#xE3;o saindo mais animes a cada ano, mas isso n&#xE3;o afeta a qualidade deles - o p&#xFA;blico continua gostando deles da mesma forma.</li><li>O p&#xFA;blico do MAL gosta do <em>seinen adult&#xE3;o</em>: s&#xE9;ries com tags Thriller, Psychological e Mystery, com rating R-17.</li><li>O p&#xFA;blico costuma gostar mais de s&#xE9;ries de 2 cours do que s&#xE9;ries de 1 cour, mas isso &#xE9; provavelmente um resultado das estrat&#xE9;gias de planejamento dos comit&#xEA;s de produ&#xE7;&#xE3;o, que s&#xF3; aprovam s&#xE9;ries mais longas quando t&#xEA;m mais confian&#xE7;a no resultado.</li><li>Animes baseados em VNs est&#xE3;o morrendo; Animes baseados em mang&#xE1; est&#xE3;o praticamente est&#xE1;veis, mas webcomics e s&#xE9;ries 4-koma est&#xE3;o ganhando mais for&#xE7;a que mang&#xE1;s tradicionais; Animes baseados em livros e light novels est&#xE3;o crescendo rapidamente.</li></ul><p>E a pergunta original? A temporada de primavera 2019 foi mesmo t&#xE3;o ruim?</p><p>As 44 s&#xE9;ries que o MAL rankeou t&#xEA;m nota m&#xE9;dia de 6.86, que o coloca acima da m&#xE9;dia hist&#xF3;rica dos &#xFA;ltimos dez anos. S&#xE3;o sete s&#xE9;ries com nota acima de 8.0 (<em>Attack on Titan, Demon Slayer, Ace of the Diamond, Bungo Stray Dogs, Carole &amp; Tuesday, Fruits Basket</em> e a adapta&#xE7;&#xE3;o de TV de <em>GUNDAM THE ORIGIN</em>), al&#xE9;m de mais 10 s&#xE9;ries com nota acima de 7.0, incluindo surpresas como <em>Hitoribocchi no Marumaru Seikatsu</em> e <em>Sarazanmai.</em> Por isso, eu n&#xE3;o acho que a temporada de primavera 2019 foi t&#xE3;o ruim quanto pintavam.</p><p>E voc&#xEA;? Tem alguma quest&#xE3;o sobre o banco de dados do MAL e o que as pessoas est&#xE3;o assistindo? Tem alguma pergunta sobre a an&#xE1;lise? Compartilhe conosco nos coment&#xE1;rios.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Churn - ou uma breve análise/previsão sobre o mercado de SVOD dos próximos anos]]></title><description><![CDATA[Vídeo na internet não vai virar um grande serviço de TV a cabo, mas sim uma grande locadora - e isso é bom pra gente e terrível pras empresas.]]></description><link>https://arara.me/uma-breve-previsao-sobre-o-mercado-de-svod-dos-proximos-anos/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b8c</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Apr 2019 05:08:28 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/04/mustafa.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<!--kg-card-begin: markdown--><img src="https://arara.me/content/images/2019/04/mustafa.jpg" alt="Churn - ou uma breve an&#xE1;lise/previs&#xE3;o sobre o mercado de SVOD dos pr&#xF3;ximos anos"><p><em>(Imagem de capa: Mustafa Ali, meu <s>wrestler</s> sports entertainer favorito da atualidade - Divulga&#xE7;&#xE3;o: WWE)</em></p>
<p>Em sua reuni&#xE3;o trimestral com investidores nesta &#xFA;ltima ter&#xE7;a-feira (23), Vince McMahon, CEO da WWE, revelou alguns dados sobre o WWE Network, seu servi&#xE7;o de streaming que disponibiliza todo o conte&#xFA;do criado pela empresa. De acordo com o <a href="https://www.f4wonline.com/wwe-news/vince-mcmahon-talent-absences-blame-declining-wwe-numbers-282366?utm_source=dlvr.it&amp;utm_medium=twitter">Wrestling Observer</a>:</p>
<blockquote>
<p>WWE Network closed at 1.58 million paid subscribers for the quarter, hitting 2 million on April 8th, the day after WrestleMania. The Q2 projection is 1.7 million paid. They said they had 300 million hours of content viewed last quarter.</p>
</blockquote>
<p>A WWE Network &#xE9; um servi&#xE7;o de streaming de nicho. Ela atende um p&#xFA;blico bastante espec&#xED;fico (f&#xE3;s de wrestling), tem um conte&#xFA;do 100% voltado para eles e conta como atrativos s&#xE9;ries exclusivas da plataforma, como o NXT, tido como um dos melhores programas semanais de wrestling do mundo. Ele &#xE9; um dos dez maiores servi&#xE7;os de SVOD do mundo, com um tamanho compar&#xE1;vel ao da Crunchyroll, outro servi&#xE7;o de nicho com 2 milh&#xF5;es de assinantes globais. E mesmo assim, a WWE Network enfrenta um enorme desafio na quest&#xE3;o do &apos;churn&apos;.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/04/customer-churn.jpg" class="kg-image" alt="Churn - ou uma breve an&#xE1;lise/previs&#xE3;o sobre o mercado de SVOD dos pr&#xF3;ximos anos" loading="lazy"><figcaption>(Retirado deste blog, que &#xE9; uma boa leitura: https://www.livechatinc.com/blog/churn-rate/)</figcaption></figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Para explicar o que &#xE9; &apos;churn&apos;, &#xE9; preciso explicar um pouco sobre o conceito de funil de compra/funil de marketing/funil de convers&#xE3;o. O conceito &#xE9; simples: todo consumidor passa por v&#xE1;rias etapas desde o momento em que ele &#xE9; apresentado ao seu produto at&#xE9; o momento em que ele realiza a compra. Cada modelo de neg&#xF3;cios possui um &quot;funil&quot; diferente, e esse modelo ajuda a estabelecer prioridades para cada etapa do funil. No caso de servi&#xE7;os de v&#xED;deo por assinatura, um poss&#xED;vel funil (totalmente n&#xE3;o-cient&#xED;fico) &#xE9; o seguinte:</p>
<ul>
<li>Apresenta&#xE7;&#xE3;o, quando o usu&#xE1;rio em potencial &#xE9; apresentado ao servi&#xE7;o</li>
<li>Convencimento, quando o usu&#xE1;rio em potencial &#xE9; convencido das vantagens do servi&#xE7;o</li>
<li>Aquisi&#xE7;&#xE3;o, quando o usu&#xE1;rio adquire o servi&#xE7;o</li>
<li>Fideliza&#xE7;&#xE3;o, quando o usu&#xE1;rio se torna assinante do servi&#xE7;o por um per&#xED;odo indefinido de tempo</li>
<li>Monetiza&#xE7;&#xE3;o, quando o usu&#xE1;rio passa a gastar mais no servi&#xE7;o</li>
</ul>
<p>Cada uma dessas etapas exige t&#xE9;cnicas diferentes e estrat&#xE9;gias diferentes para ser otimizada. Um comercial de TV pode ajudar na apresenta&#xE7;&#xE3;o e no convencimento, mas ajuda menos na parte da aquisi&#xE7;&#xE3;o, que &#xE9; afetada por quest&#xF5;es t&#xE9;cnicas (suporte a meios de pagamento, disponibilidade regional, compatibilidade de dispositivos, etc.) Com esse funil em mente, &quot;churn&quot; ou &quot;churn rate&quot; &#xE9; a taxa de pessoas que adquire o servi&#xE7;o, mas que permanecem por um curto per&#xED;odo de tempo. Um churn alto &#xE9; terr&#xED;vel porque interfere demasiado no planejamento da empresa - crescimento baixo &#xE9; ruim, mas determinar or&#xE7;amentos sem saber quantos usu&#xE1;rios continuar&#xE3;o assinando o servi&#xE7;o no m&#xEA;s seguinte &#xE9; bem pior.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/04/cobrakai.jpg" class="kg-image" alt="Churn - ou uma breve an&#xE1;lise/previs&#xE3;o sobre o mercado de SVOD dos pr&#xF3;ximos anos" loading="lazy"><figcaption>Imagem de divulga&#xE7;&#xE3;o de Cobra Kai, uma obra fant&#xE1;stica e altamente recomendada, dispon&#xED;vel no YouTube Red</figcaption></figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>No caso da WWE Network, entre o fim do Q1 (1.58 milh&#xF5;es) e o Wrestlemania (2 milh&#xF5;es), eles ganharam 400 mil assinantes, um crescimento de 25%. Mas eles estimam que apenas 100 mil desses assinantes continuar&#xE3;o assinantes at&#xE9; o fim do Q2 (1.7 milh&#xF5;es). Muita gente assinou s&#xF3; por causa do Wrestlemania e n&#xE3;o est&#xE1; muito interessada no resto. Embora seja um desafio, o churn n&#xE3;o &#xE9; um grande problema para a WWE Network porque ela ainda enxerga crescimento, e o interesse aumentado pelo maior show do ano se traduz diretamente em interesse pelos outros programas semanais, visto que s&#xE3;o todos de um mesmo nicho.</p>
<p>O mesmo n&#xE3;o pode ser dito de outros servi&#xE7;os de SVOD que certamente sofrer&#xE3;o bastante com isso. Muita gente assinou a HBO Go por causa Game of Thrones, mas muita gente vai cancelar a assinatura quando a s&#xE9;rie acabar, porque interesse por Game of Thrones n&#xE3;o se traduz diretamente em interesse por Mandrake ou Silicon Valley. Talvez por Roma. Outro bom exemplo &#xE9; o YouTube Red (que agora &#xE9; YouTube Premium?), que hospeda s&#xE9;ries um tanto d&#xED;spares em qualidade e g&#xEA;nero, como o excelente Cobra Kai (cuja rec&#xE9;m-lan&#xE7;ada segunda temporada tamb&#xE9;m &#xE9; excelente), s&#xE9;ries como Weird City e document&#xE1;rios como The Boy Band Con. E eu digo isso como algu&#xE9;m que assinou os dois servi&#xE7;os por causa de uma &#xFA;nica s&#xE9;rie e tem total inten&#xE7;&#xE3;o de cancelar a assinatura quando terminar de assistir esses shows.</p>
<p>O mercado de streaming est&#xE1; se fragmentando. Est&#xE3;o surgindo novos servi&#xE7;os, bancados por enormes conglomerados de m&#xED;dia, que tendem a bagun&#xE7;ar bastante o mercado nos pr&#xF3;ximos dois anos. N&#xE3;o &#xE9; &#xE0; toa que Netflix e Amazon t&#xEA;m investido tanto em s&#xE9;ries originais, porque &#xE9; inevit&#xE1;vel que cada est&#xFA;dio e conglomerado tenha seu pr&#xF3;prio servi&#xE7;o. E com isso, muita gente teme que isso gere um novo servi&#xE7;o de pacotes como a TV a cabo, onde voc&#xEA; &#xE9; obrigado a pagar v&#xE1;rios servi&#xE7;os para ter acesso a um acervo variado de conte&#xFA;do.</p>
<p>Mas, ao contr&#xE1;rio disso, eu acredito que o mercado vai acabar mudando de mentalidade. Da mesma forma que a Netflix alterou nossa vis&#xE3;o de entretenimento ao oferecer um servi&#xE7;o &#xFA;nico com assinatura mensal fixa para assistir qualquer coisa <em>on demand</em>, o p&#xFA;blico vai aos poucos migrar para uma vis&#xE3;o de ticket de cinema <em>a la carte</em>: eles v&#xE3;o assinar determinados servi&#xE7;os apenas pelo tempo necess&#xE1;rio para assistir o que querem, cancelando ap&#xF3;s seu uso, e mantendo um ou outro servi&#xE7;o assinado por conveni&#xEA;ncia. Ao inv&#xE9;s de TV a cabo, teremos tickets de cinema - e o churn vai aumentar consideravelmente em todos os servi&#xE7;os.</p>
<p>E a coisa engra&#xE7;ada do churn &#xE9; que s&#xF3; tem um &#xFA;nico jeito bom de aumentar a fideliza&#xE7;&#xE3;o de um cliente: oferecendo conte&#xFA;do novo e relevante com regularidade. Nesse sentido, servi&#xE7;os de nicho como a Crunchyroll ou a WWE Network levam vantagem porque todo o conte&#xFA;do que eles oferecem com regularidade j&#xE1; &#xE9; relevante para o p&#xFA;blico deles. Por outro lado, qualquer servi&#xE7;o mais abrangente vai ter dificuldade em atender os gostos de todo mundo, o tempo todo. Voc&#xEA; tamb&#xE9;m pode aumentar a fideliza&#xE7;&#xE3;o encaixando o servi&#xE7;o num pacote de terceiros, por exemplo: muita gente no Brasil &#xE9; fidelizado ao Deezer e nem percebe. Mas isso n&#xE3;o resolve a longo prazo, porque n&#xE3;o &#xE9; interessante repartir todo o seu lucro com um terceiro se voc&#xEA; pode conquistar o cliente diretamente.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/04/firefox_2019-04-29_02-02-16.png" class="kg-image" alt="Churn - ou uma breve an&#xE1;lise/previs&#xE3;o sobre o mercado de SVOD dos pr&#xF3;ximos anos" loading="lazy"><figcaption>Dados recentes sobre a Netflix. Na ordem, temos a d&#xED;vida a longo prazo em 2018 (10.31 bi USD), o patrim&#xF4;nio l&#xED;quido (5.70 bi USD), e a raz&#xE3;o entre os dois - a d&#xED;vida &#xE9; 80% maior que o patrim&#xF4;nio l&#xED;quido. Para refer&#xEA;ncia, a receita da Netflix em 2018 foi de 15.7 bi USD. Fonte: https://www.macrotrends.net/stocks/charts/NFLX/netflix/debt-equity-ratio</figcaption></figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>A Netflix tenta resolver isso com uma linha de produ&#xE7;&#xE3;o de conte&#xFA;do, guiada pelos dados de visualiza&#xE7;&#xE3;o e pelos algoritmos da empresa, que cria mais conte&#xFA;do ligado &#xE0;quilo que as pessoas est&#xE3;o assistindo - note por exemplo a explos&#xE3;o de s&#xE9;ries sobre narcotr&#xE1;fico que vieram na onda de Narcos. De certa forma, &#xE9; uma profecia autorrealizada que &quot;molda&quot; os gostos do p&#xFA;blico: se voc&#xEA; s&#xF3; d&#xE1; o que eles querem assistir, e eles s&#xF3; assistem o que voc&#xEA; quer lhes dar, voc&#xEA; abre caminho para que outras empresas criem projetos genuinamente criativos que conquiste o cora&#xE7;&#xE3;o delas. Mas funciona pra Netflix, ent&#xE3;o ela deve saber o que faz.</p>
<p>J&#xE1; para outras empresas menores de SVOD (ou seja, todas as outras), a solu&#xE7;&#xE3;o vai ser se fundir e se agregar. &#xC9; inevit&#xE1;vel, porque dado o or&#xE7;amento limitado do usu&#xE1;rio e os pre&#xE7;os fixos e altos dos servi&#xE7;os, a fragmenta&#xE7;&#xE3;o do mercado n&#xE3;o se traduz em fragmenta&#xE7;&#xE3;o do or&#xE7;amento. Eu n&#xE3;o posso deixar de pagar 30 reais pra Netflix e passar a pagar 15 pra Netflix e 15 pra Disney+. A fragmenta&#xE7;&#xE3;o do mercado se traduz em duas coisas: aumento de churn (at&#xE9; onde o usu&#xE1;rio pode pagar) e aumento de pirataria (quando o usu&#xE1;rio j&#xE1; n&#xE3;o pode/quer mais pagar.)</p>
<p>Ent&#xE3;o anote a&#xED;: vivemos numa bolha crescente de servi&#xE7;os onde todo mundo acha que pode replicar o sucesso da Netflix com sua fatia horizontal de cat&#xE1;logo e tecnologia duvidosa. Netflix, por sua vez, se afunda em d&#xED;vidas para produzir conte&#xFA;do original programaticamente determinado que s&#xF3; n&#xE3;o mostra sinais de cansa&#xE7;o porque &#xE9; mais conveniente assistir a primeira recomenda&#xE7;&#xE3;o meia-boca que o Netflix te indica do que assistir um filme na TV a cabo come&#xE7;ado do meio e cheio de propagandas. Servi&#xE7;os de nicho v&#xE3;o sobreviver, a menos que eles sejam absorvidos pelos servi&#xE7;os grandes para complementar seus cat&#xE1;logos desapontadores.</p>
<p>Voc&#xEA; concorda? Discorda? Deixe seu coment&#xE1;rio sobre a situa&#xE7;&#xE3;o logo abaixo e participe da discuss&#xE3;o! No pr&#xF3;ximo post, que j&#xE1; est&#xE1; sendo escrito, eu vou voltar a falar de dois dos meus assuntos favoritos: animes e estat&#xED;stica.</p>
<!--kg-card-end: markdown-->]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso]]></title><description><![CDATA[Continuando a análise de sites piratas de anime, com novas fontes de dados e novas perspectivas]]></description><link>https://arara.me/sites-piratas-de-anime-um-follow-up-e-um-novo-caso/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b8b</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Sun, 24 Mar 2019 03:42:28 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/03/sunny.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/03/sunny.jpg" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso"><p>No meu <a href="https://arara.me/analise-de-sites-piratas/">post anterior</a>, eu analisei o padr&#xE3;o de consumo de tr&#xEA;s sites piratas, procurando informa&#xE7;&#xF5;es sobre as s&#xE9;ries mais populares e filtrando pela disponibilidade das s&#xE9;ries nos sistemas legais de <em>streaming</em>. Gerou uma discuss&#xE3;o interessante no Twitter e nas minhas DMs, e eu agrade&#xE7;o a todo mundo que mandou coment&#xE1;rios e sugest&#xF5;es.</p><p>Desde ent&#xE3;o, eu descobri uma nova fonte de dados: depois de ter sido derrubado em fevereiro, o AnimesTelecine voltou, e ele tamb&#xE9;m exibe abertamente seus dados de visualiza&#xE7;&#xE3;o. Ele &#xE9; interessante por ser consideravelmente mais antigo e famoso que os outros sites, o que se reflete em seu n&#xFA;mero de views totais - por volta de 30 milh&#xF5;es, o que &#xE9; tr&#xEA;s vezes maior que a soma dos tr&#xEA;s sites do primeiro post.</p><p>E apesar disso:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-24.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso" loading="lazy"></figure><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-29.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso" loading="lazy"></figure><p>O padr&#xE3;o de consumo &#xE9; bem parecido com os dos outros sites. Quatro em cada cinco s&#xE9;ries do site est&#xE1; dispon&#xED;vel em sites legalizados de streaming; dois ter&#xE7;os deles dispon&#xED;veis na Crunchyroll. Caso o site removesse todas as s&#xE9;ries licenciadas, n&#xE3;o s&#xF3; ele perderia 80% do conte&#xFA;do, como ele tamb&#xE9;m perderia 86% dos views. As s&#xE9;ries da Netflix s&#xE3;o as mais populares, seguidas das s&#xE9;ries da Crunchyroll e da Amazon Prime. &#xC9; interessante notar que, mesmo num site t&#xE3;o grande, o padr&#xE3;o de consumo se mant&#xE9;m bem parecido, e o p&#xFA;blico busca majoritariamente s&#xE9;ries recentes que est&#xE3;o dispon&#xED;veis legalmente em outros lugares.</p><p>Tamb&#xE9;m me perguntaram como ficaria essa an&#xE1;lise em rela&#xE7;&#xE3;o ao ano do anime. Felizmente, a maioria dos sites tamb&#xE9;m informa o ano de lan&#xE7;amento, o que me poupa do trabalho bra&#xE7;al de catalogar cada uma das s&#xE9;ries na m&#xE3;o. Contudo, &quot;ano de lan&#xE7;amento&quot; n&#xE3;o &#xE9; um dado muito preciso e acaba enviesando a pesquisa, favorecendo s&#xE9;ries mais antigas que duram v&#xE1;rios anos. One Piece est&#xE1; no ar h&#xE1; 20 anos, mas todos os views da s&#xE9;rie est&#xE3;o concentrados em 1999, e n&#xE3;o espalhados pelos anos. Para facilitar a leitura na primeira an&#xE1;lise, eu separei as s&#xE9;ries por d&#xE9;cadas. Eis os resultados:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-27.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso" loading="lazy"></figure><p>Pelo menos 75% de todas as s&#xE9;ries dos tr&#xEA;s sites piratas analisados s&#xE3;o da &#xFA;ltima d&#xE9;cada, assim como pelo menos 85% de todos os views. A d&#xE9;cada de 90 ganha relev&#xE2;ncia gra&#xE7;as a One Piece (1999), e a d&#xE9;cada 2000 conta com Naruto (2002), Naruto Shippuden (2007), Bleach (2004) e Fairy Tail (2009) - todas s&#xE9;ries excepcionalmente longas e populares. Caso essas cinco s&#xE9;ries n&#xE3;o existissem, o n&#xFA;mero de views da d&#xE9;cada 2010 no AnimesOnlineHD aumentaria de 84% para 94%.</p><p>One Piece, Fairy Tail e Naruto Shippuden s&#xE3;o casos ainda mais curiosos, pois sua longevidade fez com que muitos de seus epis&#xF3;dios fossem passados na d&#xE9;cada 2010, e s&#xE3;o um exemplo de como classificar as s&#xE9;ries por &quot;data de lan&#xE7;amento&quot; naturalmente enviesa a an&#xE1;lise. Entretanto, mesmo com um vi&#xE9;s que favorece as d&#xE9;cadas mais antigas, um fato &#xE9; esmagadoramente claro: o que interessa &#xE0; grande massa dos consumidores de sites piratas s&#xE3;o animes lan&#xE7;ados na &#xFA;ltima d&#xE9;cada. Segue aqui um &quot;zoom&quot; da &#xFA;ltima d&#xE9;cada, para os curiosos:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-28.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso" loading="lazy"></figure><p>Dentro da d&#xE9;cada, o perfil de consumo muda bastante de site pra site. O maior deles, AnimesTC, tem uma quantidade similar de t&#xED;tulos de 2015 a 2018. Os t&#xED;tulos do AnimesOnlineHD est&#xE3;o bem distribu&#xED;dos por toda a d&#xE9;cada, enquanto o AnimesOnlineCo, talvez devido &#xE0; sua idade, tem uma concentra&#xE7;&#xE3;o bem alta de t&#xED;tulos de 2018. Na parte de views, os dados s&#xE3;o mais bagun&#xE7;ados, devido a suscetibilidade dessa an&#xE1;lise a outliers populares, mas nota-se que a segunda metade da d&#xE9;cada foi mais agitada que a primeira.</p><p>Uma coisa &#xE9; indiscut&#xED;vel: a maior parte dos views dos sites piratas v&#xEA;m de material licenciado porque isso &#xE9; basicamente tudo que eles oferecem. N&#xE3;o s&#xF3; a maior parte das s&#xE9;ries &#xE9; licenciada, a imensa parte das s&#xE9;ries est&#xE1; concentrada na &#xFA;ltima d&#xE9;cada. Os sites legais de <em>streaming</em> ainda tem um longo caminho a percorrer se quiserem preservar a hist&#xF3;ria da anima&#xE7;&#xE3;o japonesa, mas nem os sites piratas enxergam vantagem em perseguir esse alvo - seja porque &#xE9; mais vantajoso para eles dedicar esfor&#xE7;os a se manter em dia com as novas temporadas, seja porque o esfor&#xE7;o em ca&#xE7;ar s&#xE9;ries antigas &#xE9; muito grande, seja porque quaisquer custos de opera&#xE7;&#xE3;o envolvidos em colocar s&#xE9;ries antigas no ar j&#xE1; seja impeditivo para eles.</p><p>E voc&#xEA;? Qual &#xE9; a sua opini&#xE3;o? Deixe seu coment&#xE1;rio, d&#xFA;vida ou sugest&#xE3;o nos coment&#xE1;rios abaixo, logo depois do Harlock!</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/harlock2.jpg" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime: um follow-up e um novo caso" loading="lazy"></figure>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Sites piratas de anime - uma análise de três casos]]></title><description><![CDATA[Uma análise dos dados de consumo de conteúdo de três sites piratas que disponibilizam abertamente seus dados de visualizações.]]></description><link>https://arara.me/analise-de-sites-piratas/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b8a</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Thu, 07 Mar 2019 21:15:46 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/03/merry.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/03/merry.jpg" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos"><p>No fim de semana, eu estava de bobeira no Twitter quando vi algu&#xE9;m mencionar a arroba da Netflix no Twitter, pedindo Harry Potter. Quando eu vi isso, minha imediata rea&#xE7;&#xE3;o foi pensar: &quot;a maior parte das pessoas que pedem Harry Potter na Netflix pede por lealdade &#xE0; comunidade de f&#xE3;s, e provavelmente n&#xE3;o assistiria se estivesse publicado na plataforma.&quot; Logo veio o paralelo imediato &#xE0; massa de f&#xE3;s de anime que pede s&#xE9;ries enormes, como Yu Yu Hakusho, Bucky e Shurato, e que provavelmente n&#xE3;o assistiria se elas fossem disponibilizadas oficialmente.</p><p>Contudo, diferentemente das outras vezes, desta vez eu fiquei em d&#xFA;vida. Ser&#xE1; que eles assistiriam? Ser&#xE1; que existe um p&#xFA;blico que quer mesmo assistir essas s&#xE9;ries? O qu&#xE3;o popular elas realmente s&#xE3;o em 2019?</p><p>Eu dei uma procurada em v&#xED;deos de YouTube de algumas s&#xE9;ries mais populares, mas n&#xE3;o obtive resultados muito bons - o Content ID retira v&#xE1;rios v&#xED;deos, tem v&#xE1;rias s&#xE9;ries com epis&#xF3;dios cortados em m&#xFA;ltiplas partes, e eu teria que procurar as s&#xE9;ries uma a uma para tirar qualquer conclus&#xE3;o. A mesma coisa para o Google Alerts, que s&#xF3; me revela o quanto as pessoas FALAM de determinada s&#xE9;rie, mas n&#xE3;o necessariamente o quanto elas ASSISTEM a dita cuja.</p><p>Minha busca me levou pra um site pirata, o que me deu uma ideia: ser&#xE1; que tem algum site pirata que revela quantos views cada epis&#xF3;dio teve? O YouTube revela, ent&#xE3;o algu&#xE9;m deve ter tido essa ideia e implementado. Talvez d&#xEA; pra tirar alguma conclus&#xE3;o a partir desses dados. Algumas p&#xE1;ginas de Google depois, e eu achei tr&#xEA;s sites diferentes, com caracter&#xED;sticas e apresenta&#xE7;&#xF5;es bastante distintas, e dados completamente escancarados para nosso escrut&#xED;nio.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/rui-2.jpg" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>Um breve perfil dos tr&#xEA;s sites visitados:</p><p><strong>AnimesOnlineHD.com.br</strong></p><p>O menor dos tr&#xEA;s analisados, este site conta com 1070 s&#xE9;ries de anime distintas, com um total de mais de 19 mil epis&#xF3;dios. A p&#xE1;gina principal lista os epis&#xF3;dios mais recentes publicados na plataforma, e al&#xE9;m da se&#xE7;&#xE3;o de animes legendados, eles tamb&#xE9;m t&#xEA;m uma se&#xE7;&#xE3;o de animes dublados, que est&#xE1; vazia. N&#xE3;o h&#xE1; informa&#xE7;&#xF5;es sobre os autores. Ele implementa o TogetherJS, uma biblioteca de JavaScript que permite a dois ou mais usu&#xE1;rios assistirem um mesmo v&#xED;deo de internet em sincronia.</p><p>Neste site, &#xE9; poss&#xED;vel ver o n&#xFA;mero de views por epis&#xF3;dio. O site j&#xE1; recebeu em torno de um milh&#xE3;o de views, no total.</p><p><strong>AnimesOnline.co</strong></p><p>O segundo maior dos tr&#xEA;s sites. Conta com 274 s&#xE9;ries, das quais 64 s&#xE3;o cartoons americanos, como Rick and Morty e Gravity Falls. O site separa seu conte&#xFA;do em filmes e s&#xE9;ries, dublados e legendados, mas tem uma navega&#xE7;&#xE3;o um pouco confusa e o sistema de login/cadastro est&#xE1; quebrado. Pra efeitos desta an&#xE1;lise, a se&#xE7;&#xE3;o de filmes foi ignorada. Na p&#xE1;gina de &quot;Termos de Uso&quot;, o autor an&#xF4;nimo diz que o AnimesOnline.co &#xE9; uma plataforma de &quot;divulga&#xE7;&#xE3;o cultural&quot;, uma &quot;amostra gr&#xE1;tis&quot; sem fins lucrativos e pede a seus usu&#xE1;rios que consumam os produtos e servi&#xE7;os oficiais caso gostem de alguma das s&#xE9;ries dispon&#xED;veis.</p><p>Neste site, &#xE9; poss&#xED;vel ver o n&#xFA;mero de views por s&#xE9;rie. O site recebeu em torno de 3.3 milh&#xF5;es de views em sua exist&#xEA;ncia, das quais 1.6 milh&#xF5;es de views s&#xE3;o exclusivamente em s&#xE9;ries de anime. Para facilitar as pr&#xF3;ximas an&#xE1;lises, estou excluindo as s&#xE9;ries ocidentais e focando apenas nas s&#xE9;ries de anime. </p><p><strong>AnimaFan.info</strong></p><p>O maior dos tr&#xEA;s sites. Conta com 247 s&#xE9;ries, todas de anime. O site tamb&#xE9;m tem uma se&#xE7;&#xE3;o de filmes, com sete dispon&#xED;veis. Ele possui uma se&#xE7;&#xE3;o de pedidos bastante ativa e regularmente moderada, al&#xE9;m de uma longa p&#xE1;gina sobre a hist&#xF3;ria do site, que cont&#xE9;m o seguinte par&#xE1;grafo:</p><blockquote>&quot;Sobre Pirataria: Esse &#xE9; um papo que sempre surge quando o assunto &#xE9; site de animes online, ent&#xE3;o queremos deixar nosso ponto sobre isso. Bom... &#xE9; pirataria, mano, de um jeito ou de outro, o que fazemos aqui &#xA0;&#xE9; pirataria, o que nos torna os &#x201C;vil&#xF5;es&#x201D;, principalmente perante a &#xA0;galera mais moralista que pensa estar salvando a ind&#xFA;stria com suas &#xA0;mensalidades de servi&#xE7;os de streaming. Mas, ainda assim, vale dizer que o &#xA0;AnimaFAN n&#xE3;o apoia o trabalho meia boca feito por empresas gananciosas &#xA0;de streaming como a Crunchyroll e a Netflix. Os membros do AnimaFAN &#xA0;compram seus mang&#xE1;s, light novels, jogos e mercadorias japas de forma &#xA0;legal (muitas vezes importando) e incentivamos que nossos usu&#xE1;rios fa&#xE7;am &#xA0;o mesmo. Por&#xE9;m, n&#xE3;o gostamos de servi&#xE7;os pagos que possuem o mesmo &#xA0;n&#xED;vel de qualidade que speedsubs, pois se s&#xE3;o pagos, deveriam estar &#xA0;acima at&#xE9; mesmo das melhores e mais renomadas fansubs, coisa que n&#xE3;o acontece.&quot;</blockquote><p>Neste site, &#xE9; poss&#xED;vel ver o n&#xFA;mero de views por s&#xE9;rie. Contudo, a contagem &#xE9; truncada em alguns d&#xED;gitos para facilitar a leitura - por exemplo, a primeira temporada de My Hero Academia tem &quot;1.3M&quot; (1.3 milh&#xF5;es) de views. Por conta disso, h&#xE1; uma imprecis&#xE3;o de arredondamento inerente nos dados. O site conta com 6.6 milh&#xF5;es de views totais em sua exist&#xEA;ncia.</p><p>Todos os dados referenciados na an&#xE1;lise a seguir est&#xE3;o publicados <a href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/e/2PACX-1vRLLdehRLxxufbZb3tGFVuhKrxsx1obfjkeB7FMUbG3oEz1742rllj8KwjQfUL2IC5T33eNNdV1bkWy/pubhtml#">neste link</a>, e foram obtidos nos dias 4 e 5 de mar&#xE7;o de 2019, atrav&#xE9;s de visitas diretas &#xE0;s p&#xE1;ginas dos sites. Nenhum tipo de exploit foi utilizado para obter os dados dos bancos de dados, e n&#xE3;o h&#xE1; maneira alguma de comprovar a veracidade dos dados obtidos (os sites podem estar inflando artificialmente os n&#xFA;meros, por exemplo).</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/steins-1.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p><strong>Disponibilidade</strong></p><p>Minha primeira pergunta era saber quais desses animes estavam dispon&#xED;veis legalmente no Brasil, e qual o impacto deles no n&#xFA;mero de views do site. Estes s&#xE3;o o # de s&#xE9;ries de cada site, de acordo com a disponibilidade delas no Brasil:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-17.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>Nos tr&#xEA;s sites, uns dois ter&#xE7;os das s&#xE9;ries j&#xE1; est&#xE3;o dispon&#xED;veis legalmente em alguma plataforma legal de <em>streaming. </em>No caso da AnimesOnline.co, 82% das s&#xE9;ries podem ser assistidos sem precisar da pirataria. A maioria das s&#xE9;ries &#xE9; disponibilizada pela Crunchyroll, com Netflix, Amazon e HIDIVE demonstrando presen&#xE7;as bastante similares. Estes s&#xE3;o o # de views de cada site, de acordo com a disponibilidade de suas respectivas s&#xE9;ries no Brasil:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-14.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>Neste gr&#xE1;fico, a situa&#xE7;&#xE3;o muda um pouco. Em todos os tr&#xEA;s sites, o n&#xFA;mero de views correspondentes a s&#xE9;ries n&#xE3;o-licenciadas gira em torno de 13-16% do total. A Crunchyroll aumenta sua participa&#xE7;&#xE3;o em todos os sites, com 68-77% dos views. A Netflix tem uma parcela bastante significativa no AnimesOnlineCo (16%), mas perde no AnimesOnlineHD para a Amazon (5.1% da Amazon x 3.6% da Netflix). Por fim, podemos olhar para a m&#xE9;dia de views que as s&#xE9;ries de cada plataforma oficial obt&#xE9;m em cada site, que serve como uma medida de &quot;popularidade&quot; das s&#xE9;ries das plataformas:</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-19.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>No AnimaFan, as s&#xE9;ries da Crunchyroll s&#xE3;o as mais populares, com Netflix logo atr&#xE1;s. No AnimesOnlineHD, as mais populares s&#xE3;o as s&#xE9;ries da Amazon Prime, com Crunchyroll e Netflix logo atr&#xE1;s. Por fim, no AnimesOnlineCo, as s&#xE9;ries da Netflix s&#xE3;o de longe as mais populares. Em todos os tr&#xEA;s sites, as s&#xE9;ries n&#xE3;o licenciadas possuem popularidade baixa, indicando que os usu&#xE1;rios est&#xE3;o mais interessados em assistir os lan&#xE7;amentos mais recentes e o que est&#xE1; sendo promovido pelas plataformas oficiais.</p><p>Minha conclus&#xE3;o &#xE9; que, mesmos nos sites piratas onde todo tipo de conte&#xFA;do est&#xE1; sendo disponibilizado gratuitamente, o p&#xFA;blico que assiste anime no Brasil n&#xE3;o est&#xE1; t&#xE3;o interessado assim em ver s&#xE9;ries antigas. Tem um monte de s&#xE9;ries n&#xE3;o-licenciadas nesses tr&#xEA;s sites (um ter&#xE7;o dos mil e tantos animes do AnimesOnlineHD n&#xE3;o est&#xE1; dispon&#xED;vel), mas ningu&#xE9;m est&#xE1; assistindo.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-full"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/laid-back.jpg" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>Outra faceta que podemos analisar s&#xE3;o os animes preferidos dos frequentadores dos sites piratas, e quais t&#xED;tulos de quais plataformas est&#xE3;o em evid&#xEA;ncia. A tabela a seguir pega o top 10 do acervo de cada plataforma, para cada um dos tr&#xEA;s sites.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-width-wide"><img src="https://arara.me/content/images/2019/03/image-21.png" class="kg-image" alt="Sites piratas de anime - uma an&#xE1;lise de tr&#xEA;s casos" loading="lazy"></figure><p>Algumas anota&#xE7;&#xF5;es:</p><ul><li>Eu n&#xE3;o me dei ao trabalho de juntar manualmente s&#xE9;ries que est&#xE3;o divididas em temporadas, e usei a divis&#xE3;o do pr&#xF3;prio site. Por isso, as diferentes temporadas de My Hero Academia aparecem separadas no AnimaFan e juntas no AnimesOnlineCo. Tamb&#xE9;m estou usando os nomes que os pr&#xF3;prios sites usaram, ao inv&#xE9;s dos nomes de distribui&#xE7;&#xE3;o internacional.</li><li>Esses views aparentemente encobrem todo o per&#xED;odo de funcionamento do site, ent&#xE3;o tenham isso em mente.</li><li><strong>Amazon Prime: </strong>Nenhum anime aparece nas tr&#xEA;s listas, mas v&#xE1;rios aparecem em duas delas, incluindo Dororo, Banana Fish e Karakuri Circus, tr&#xEA;s de seus sucessos mais recentes. </li><li><strong>Crunchyroll: </strong>My Hero Academia s&#xF3; n&#xE3;o figura entre os primeiros do AnimesOnlineHD porque este n&#xE3;o disponibiliza a primeira temporada - o anime &#xE9; um sucesso esmagador nos outros dois sites. No AnimesOnlineCo, onde o p&#xFA;blico &#xE9; mais casual em rela&#xE7;&#xE3;o ao anime, a presen&#xE7;a de MahoYome &#xE9; uma baita surpresa. No AnimaFan, Trinity Seven e NouCome est&#xE3;o bastante altos para s&#xE9;ries bastante antigas e pouco populares em geral.</li><li><strong>HIDIVE: </strong>3D Kanojo &#xE9; a s&#xE9;rie mais popular deles. DanMachi: Sword Oratoria tamb&#xE9;m tem um apelo bem forte.</li><li><strong>Netflix: </strong>The Seven Deadly Sins &#xE9; a s&#xE9;rie mais popular deles, seguida de One Punch Man e Kakegurui, que puxa a popularidade pros sites piratas devido ao <em>workflow </em>da Netflix, que leva meses para publicar s&#xE9;ries novas que acabaram de sair no Jap&#xE3;o.</li><li><strong>N&#xE3;o-licenciados: </strong>A s&#xE9;rie mais quente dos sites piratas e que est&#xE1; indispon&#xED;vel em todas as plataformas oficiais de anime &#xE9; Tokyo Ghoul. Dragon Ball &#xE9; bastante popular em um dos sites, mas n&#xE3;o nos outros. A #1 e o #4 do AnimesOnlineHD s&#xE3;o os dois filmes de anime mais populares do momento, e &#xE9; curioso notar que o filme de MHA fez um sucesso ainda maior que o filme do Broly. No AnimesOnline.co, o mais procurado &#xE9; o reboot 2018 de Captain Tsubasa, que embora n&#xE3;o esteja dispon&#xED;vel em nenhum servi&#xE7;o, &#xE9; exibido dublado pela Cartoon Network.</li></ul><p>Tirando Dragon Ball e Sakura Card Captors, &#xE9; not&#xE1;vel a aus&#xEA;ncia de &quot;animes da Manchete&quot; - animes que foram exibidos na TV aberta durante os anos 90/come&#xE7;o dos anos 2000. A esmagadora maioria dos t&#xED;tulos &#xE9; mais recente, com alguns um pouco mais antigos que se popularizaram por aqui gra&#xE7;as aos fansubs.</p><p>Mais uma vez, todos os dados est&#xE3;o livremente dispon&#xED;veis <a href="https://docs.google.com/spreadsheets/d/e/2PACX-1vRLLdehRLxxufbZb3tGFVuhKrxsx1obfjkeB7FMUbG3oEz1742rllj8KwjQfUL2IC5T33eNNdV1bkWy/pubhtml#">neste link aqui</a>, para quem quiser perscrutar e esmiu&#xE7;ar as informa&#xE7;&#xF5;es. Se voc&#xEA; tem qualquer d&#xFA;vida sobre a an&#xE1;lise, sugest&#xF5;es do que mais pode ser analisado neste dataset ou coment&#xE1;rios sobre as conclus&#xF5;es, participe dos coment&#xE1;rios ou me mande uma mensagem no Twitter!</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA["Propriedade intelectual não existe"]]></title><description><![CDATA[Propriedade intelectual é uma contradição? Vamos discutir esse assunto!]]></description><link>https://arara.me/propriedade-intelectual-nao-existe/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b89</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Mon, 04 Feb 2019 15:56:35 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/02/gelbanana.png" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<img src="https://arara.me/content/images/2019/02/gelbanana.png" alt="&quot;Propriedade intelectual n&#xE3;o existe&quot;"><p>(Fonte: <a href="https://www.reddit.com/r/steinsgate/comments/4e5or0/bring_me_the_bananas/">Reddit</a>)</p><p>Ap&#xF3;s a recente pol&#xEA;mica envolvendo a Crunchyroll, eu vi muitos dos argumentos e coment&#xE1;rios esperados pr&#xF3;-pirataria - alguns bastante v&#xE1;lidos, outros nem tanto. Entre eles:</p><ul><li>a pirataria &#xE9; a &#xFA;nica solu&#xE7;&#xE3;o de entretenimento para quem n&#xE3;o tem poder aquisitivo (n&#xE3;o concordo, mas tamb&#xE9;m n&#xE3;o discordo totalmente)</li><li>a pirataria &#xE9; feita de f&#xE3; pra f&#xE3;, diferente do seu aplicativo ganancioso que s&#xF3; quer saber de lucro (totalmente errado quando o assunto s&#xE3;o os sites agregadores cheios de an&#xFA;ncio, mineradores de bitcoin e etc, mas correto quando se trata de fansubs)</li><li>a pirataria sempre foi a maneira mais efetiva de divulgar anime pelo mundo todo (verdade indiscut&#xED;vel na d&#xE9;cada de 00, mas nem tanto fora dela. Antes de 2000 era a TV, nos anos recentes o streaming &#xE9; uma ferramenta mais poderosa)</li><li>a pirataria &#xE9; uma forma de preservar a hist&#xF3;ria do anime que n&#xE3;o depende dos interesses comerciais das grandes corpora&#xE7;&#xF5;es (completamente verdade)</li><li>a pirataria &#xE9; um crime sem v&#xED;tima, visto que n&#xE3;o prejudica ningu&#xE9;m (totalmente errada, mas assunto para outro post)</li></ul><p>Mas o que mais me chamou a aten&#xE7;&#xE3;o, de longe, foi um argumento que ganhou muita for&#xE7;a e foi bastante repetido - e sinceramente eu acho que nem tinha ouvido falar antes dessa crise toda - &#xE9; o seguinte:</p><ul><li><strong>Propriedade intelectual &#xE9; uma contradi&#xE7;&#xE3;o. Ideias e conceitos s&#xE3;o abstratos, e n&#xE3;o podem ser propriedade de ningu&#xE9;m. Para que algo seja propriedade, &#xE9; preciso que seja um bem escasso (como bens materiais). Por conta disso, pirataria n&#xE3;o &#xE9; crime, independente do que o Estado diz.</strong></li></ul><p>Essa &#xE9; uma afirma&#xE7;&#xE3;o bastante poderosa, e sinceramente eu fiquei pensando nela muito mais tempo do que eu devia. Alguns me mandaram diretamente pelo Twitter, outros eu li em coment&#xE1;rios de sites que estavam tratando do assunto, mas esse argumento estava em absolutamente todo lugar, gerando todo tipo de discuss&#xE3;o, e tem bastante coisa a ser dita sobre ele.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/02/time-travel-girl.jpg" class="kg-image" alt="&quot;Propriedade intelectual n&#xE3;o existe&quot;" loading="lazy"><figcaption>Time Travel Girl: Mari, Waka e os Oito Inventores<em> (Imagem: Funimation)</em></figcaption></figure><h2 id="1-o-conceito-de-propriedade-intelectual-protege-mais-o-indiv-duo-do-que-as-grandes-corpora-es">1) O conceito de propriedade intelectual protege mais o indiv&#xED;duo do que as grandes corpora&#xE7;&#xF5;es</h2><p>O argumento da n&#xE3;o-exist&#xEA;ncia da PI nasce de uma filosofia que prega a liberdade individual acima de tudo. De certa forma, o argumento defende que &#xE9; errado o Estado regular o que uma pessoa pode inventar ou n&#xE3;o, ou deter o direito de determinar quem pode explorar uma ideia e quem n&#xE3;o pode. Por essa &#xF3;tica, faz sentido. Mas na vida real, ouve-se falar tanto de casos em que as leis de <em>copyright</em> foram utilizadas a favor das grandes corpora&#xE7;&#xF5;es quanto de casos onde o favorecido foi o indiv&#xED;duo.</p><p>Sim, voc&#xEA; tem megaconglomerados como a Disney, com seus lobbies regulares e infinitos para alterar as leis de dom&#xED;nio p&#xFA;blico dos EUA e impedir que todo mundo saia por a&#xED; vendendo camiseta do Mickey Mouse quando ele estiver dispon&#xED;vel pra todos. Mas voc&#xEA; tamb&#xE9;m tem o caso do <em>Borderlands</em>, um jogo de videogame desenvolvido pela Gearbox que, algum tempo depois de seu lan&#xE7;amento, descobriu-se ser um pl&#xE1;gio de um curta animado por um est&#xFA;dio independente, e que s&#xF3; conseguiu fechar um acordo extrajudicial com a Gearbox porque eles tinham uma chance relativamente alta de vencer. Tem um apanhado bom da pol&#xEA;mica <a href="https://www.forbes.com/sites/erikkain/2013/03/15/from-codehunters-to-aliens-colonial-marines-how-gearbox-has-become-one-of-the-most-controversial-studios-in-the-industry/#1f29289a58ca">neste link do Kotaku</a>. E por favor n&#xE3;o confundir com a pol&#xEA;mica de pl&#xE1;gio de <em>Borderlands 2</em>, onde a Gearbox <a href="https://www.gamespot.com/videos/gs-news-gearbox-admits-borderlands-2-art-plagiaris/2300-6397044/">admitiu que houve pl&#xE1;gio</a> na cria&#xE7;&#xE3;o da arte de capa do jogo.</p><p>Sem uma lei que permita ao criador provar que suas ideias est&#xE3;o sendo utilizadas indevidamente, a vantagem ser&#xE1; sempre das grandes corpora&#xE7;&#xF5;es, que tem mais recursos, funcion&#xE1;rios, contatos e canais de distribui&#xE7;&#xE3;o para monetizar e comercializar uma ideia do que pequenos indiv&#xED;duos. Inventou um sabor novo de refrigerante que est&#xE1; fazendo sucesso na regi&#xE3;o da sua cidade? A Coca-Cola vai poder copiar a sua f&#xF3;rmula e marca, e vender em massa no mundo inteiro sem que voc&#xEA; ganhe um centavo.</p><p>Sim, nada &#xE9; perfeito. Com a lei, as corpora&#xE7;&#xF5;es ainda v&#xE3;o ganhar na maioria das vezes - especialmente se ela disp&#xF5;e de recursos especificamente para pesquisa e desenvolvimento. Mas sem a lei, elas v&#xE3;o ganhar sempre. E se voc&#xEA; preza a liberdade individual, voc&#xEA; deveria proteger tamb&#xE9;m a liberdade de cria&#xE7;&#xE3;o.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/02/promised.jpg" class="kg-image" alt="&quot;Propriedade intelectual n&#xE3;o existe&quot;" loading="lazy"><figcaption>Cr&#xE9;ditos da anima&#xE7;&#xE3;o de abertura de The Promised Neverland <em>(Fonte: Crunchyroll)</em></figcaption></figure><h2 id="2-ideias-e-conceitos-n-o-s-o-escassos-mas-o-trabalho-de-um-est-dio-de-anima-o-inteiro-">2) Ideias e conceitos n&#xE3;o s&#xE3;o escassos - mas o trabalho de um est&#xFA;dio de anima&#xE7;&#xE3;o inteiro &#xE9;</h2><p><em>Argumento: ideias e conceitos n&#xE3;o s&#xE3;o um produto escasso, portanto n&#xE3;o podem ser propriedade de ningu&#xE9;m.</em></p><p>Veja a imagem acima. Foram necess&#xE1;rias 50 pessoas de diverentes empresas (Cloverworks, A-1 Pictures, Atelier Musa, T2studio, etc) apenas para animar os 90 segundos de abertura de The Promised Neverland - sem contar o trabalho da banda Uverworld e da Sony Music Entertainment em compor, gravar, mixar e lan&#xE7;ar a m&#xFA;sica-tema de abertura. Todo esse trabalho leva tempo e esfor&#xE7;o dos funcion&#xE1;rios, e esse tempo e esfor&#xE7;o, embora n&#xE3;o sejam um objeto f&#xED;sico e tang&#xED;vel, certamente s&#xE3;o algo escasso por defini&#xE7;&#xE3;o.</p><p>Sem a prote&#xE7;&#xE3;o da Propriedade Intelectual, n&#xE3;o s&#xF3; os animes como a esmagadora maioria de toda a ind&#xFA;stria de entretenimento deixaria de existir. Nenhum comit&#xEA; de produ&#xE7;&#xE3;o de anime vai depositar milh&#xF5;es de d&#xF3;lares numa s&#xE9;rie animada de 13 epis&#xF3;dios sem a garantia de que vai ser a &#xFA;nica que pode vender a mesma para TVs, servi&#xE7;os de streaming, empresas de <em>home video </em>e por a&#xED; vai. Ningu&#xE9;m ia se dar ao trabalho de reunir centenas de profissionais para fazer uma obra sem a garantia de que eles ser&#xE3;o pagos.</p><p>Sim, nem todo artista &#xE9; movido pelo lucro - mas todos precisam de dinheiro para sobreviver. E se eles s&#xE3;o privados de obter lucro com a arte, a arte vai passar pro segundo plano, virar um hobby. Sem as prote&#xE7;&#xF5;es da Propriedade Intelectual, a quantidade global de horas depositadas em todas as formas de arte seria uma parcela infinitesimal do que temos hoje.</p><p>Contudo: voc&#xEA; pode, sim, argumentar que qualquer um deveria ter o direito de criar obras BASEADAS em The Promised Neverland e vend&#xEA;-las legalmente por a&#xED;. Eu n&#xE3;o concordo, mas esse argumento &#xE9; mais palat&#xE1;vel, e n&#xE3;o ofende o esfor&#xE7;o e dedica&#xE7;&#xE3;o dos milhares de animadores japoneses. Deveria existir um mecanismo para permitir que fanfics e fanarts possam ser criadas e comercializadas &#xE0; vontade.</p><p>Surpresa: ele existe. Est&#xE1; totalmente quebrado devido aos interesses capitalistas de megacorpora&#xE7;&#xF5;es, mas o dispositivo existe.</p><figure class="kg-card kg-image-card kg-card-hascaption"><img src="https://arara.me/content/images/2019/02/proxy.duckduckgo.com.jpg" class="kg-image" alt="&quot;Propriedade intelectual n&#xE3;o existe&quot;" loading="lazy"><figcaption>(Fonte: <em>South Park/divulga&#xE7;&#xE3;o</em>)</figcaption></figure><h2 id="3-acabar-com-a-pi-n-o-a-solu-o-a-solu-o-consertar-o-dom-nio-p-blico">3) Acabar com a PI n&#xE3;o &#xE9; a solu&#xE7;&#xE3;o; a solu&#xE7;&#xE3;o &#xE9; consertar o dom&#xED;nio p&#xFA;blico</h2><p>Eu imagino que esse <em>hot take</em> sobre propriedade intelectual tenha surgido de discuss&#xF5;es sobre patentes, onde esse argumento toma outra forma e caracter&#xED;sticas - e o melhor exemplo que podemos usar pra ilustrar &#xE9; o exemplo da ind&#xFA;stria farmac&#xEA;utica. Tradicionalmente, a lei de patentes para medicamentos no Brasil estabelece que o laborat&#xF3;rio que desenvolve um medicamento tem at&#xE9; 10 anos para explorar a patente, e ap&#xF3;s esse per&#xED;odo o medicamento pode ser produzido e comercializado por qualquer laborat&#xF3;rio certificado pela Anvisa. Mas h&#xE1; casos extremos em que essas patentes s&#xE3;o &quot;quebradas&quot; - eu n&#xE3;o sou especialista do assunto, mas lembro <a href="https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/patente-de-droga-para-tratar-de-aids-no-brasil-gera-briga-judicial-entre-laboratorios-12712208">deste caso aqui</a> no qual um laborat&#xF3;rio brasileiro quebrou uma patente americana de um coquetel de HIV.</p><p>Esse &#xE9; um caso extremo: havia milhares de vidas em risco e o governo brasileiro entrou na briga para quebrar essa patente pelo bem da na&#xE7;&#xE3;o. Mas existem outros casos similares de disputas por propriedade intelectual, como o debate recente no Jap&#xE3;o sobre as <a href="https://kiwifarms.net/threads/modifying-your-game-console-and-any-game-saves-you-have-is-now-illegal-in-japan.51764/">leis contra a modifica&#xE7;&#xE3;o n&#xE3;o-autorizada de consoles</a>, que visam impedir a pirataria mas acabam coibindo esfor&#xE7;os de desenvolvedores independentes para adicionar recursos aos seus aparelhos.</p><p>Essas s&#xE3;o discuss&#xF5;es importantes que p&#xF5;em em jogo o papel da Propriedade Intelectual na nossa sociedade - mas em todos esses casos, as pessoas que trabalham est&#xE3;o recebendo o dinheiro devido por seus esfor&#xE7;os. O laborat&#xF3;rio brasileiro n&#xE3;o est&#xE1; apreendendo &#xE0; for&#xE7;a os rem&#xE9;dios americanos e distribuindo de gra&#xE7;a no Brasil. <a href="https://www.tribunapr.com.br/noticias/brasil/quebrada-patente-de-remedio-contra-aids/">Inclusive, mesmo ap&#xF3;s a quebra da patente, o laborat&#xF3;rio receber&#xE1; 3% dos royalties de venda do medicamento no Brasil.</a></p><p>Existem mecanismos para se contornar as limita&#xE7;&#xF5;es que a Propriedade Intelectual imp&#xF5;e. Patentes e copyrights t&#xEA;m dura&#xE7;&#xE3;o limitada, permitindo que inven&#xE7;&#xF5;es e obras sejam utilizadas livremente ap&#xF3;s um per&#xED;odo assegurado de explora&#xE7;&#xE3;o. O problema &#xE9; que as maiores corpora&#xE7;&#xF5;es de entretenimento do mundo dependem fortemente de suas propriedade intelectuais para manter sua opera&#xE7;&#xE3;o, e elas fomentam lobbies bilion&#xE1;rios para for&#xE7;ar a extens&#xE3;o de seus direitos de copyright - e e &#xE9; a&#xED; que reside todo o problema.</p><p>Na minha humilde opini&#xE3;o, as dura&#xE7;&#xF5;es atuais de copyright s&#xE3;o muito maiores do que deveriam ser. Os limites existem para garantir a explora&#xE7;&#xE3;o dos direitos, mas os detentores dos direitos param de explorar suas obras muito antes do limite. Talvez o caso mais gritante da falha do copyright seja no mundo dos videogames, onde milhares de jogos antigos s&#xF3; est&#xE3;o dispon&#xED;veis ilegalmente, pois o hardware para jog&#xE1;-los n&#xE3;o &#xE9; mais vendido e a empresa n&#xE3;o quer gastar para converter um t&#xED;tulo velho e esquecido para os consoles novos. N&#xE3;o h&#xE1; como jogar legalmente boa parte dos cat&#xE1;logos do NES, Master System, Atari e outros consoles. E ainda assim, muitos deles formam a base hist&#xF3;rica de todos os jogos que vemos hoje em dia.</p><hr><p>Esse &#xE9; o meu ponto de vista sobre todo o debate. Eu concordo que existem pontos negativos sobre o conceito de Propriedade Intelectual (muitas vezes favorece grandes empresas e co&#xED;be inova&#xE7;&#xE3;o individual), mas os pontos positivos fazem a PI mais que valer a pena.</p><p>E se voc&#xEA; n&#xE3;o concorda com essa posi&#xE7;&#xE3;o, eu estou aberto a debates! Como eu disse, esse argumento &#xE9; t&#xE3;o novo que eu conheci h&#xE1; menos de quatro dias, ent&#xE3;o voc&#xEA; pode ter algum argumento para complementar a discuss&#xE3;o. Fique &#xE0; vontade para mandar uma mensagem no Twitter ou comentar abaixo no Disqus.</p><h2></h2>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Mais perguntas sobre licenciamento!]]></title><description><![CDATA[Mais perguntas sobre licenciamento: o que um licenciado pode fazer? Como funciona a dublagem? ]]></description><link>https://arara.me/perguntas-licenciamento-2/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b88</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Tue, 29 Jan 2019 01:12:22 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/01/rinne.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<!--kg-card-begin: markdown--><img src="https://arara.me/content/images/2019/01/rinne.jpg" alt="Mais perguntas sobre licenciamento!"><p>[Primeira parte do post <a href="https://arara.me/perguntas-licenciamento-1/">aqui</a>]</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Sendo voc&#xEA; o licenciado oficial no pa&#xED;s, poderia fazer um concurso art&#xED;stico de um anime X em redes sociais para aumentar o alcance da sua empresa (e seus produtos) sem ter que passar pelo crivo da empresa licenciante? Ou ela teria que aprovar todas as etapas burocraticamente?</p>&#x2014; Syaoran A.K.A. Saiph (@SyaoranSama) <a href="https://twitter.com/SyaoranSama/status/1085953201860431872?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Em tudo que envolve licenciamento, n&#xE3;o existem regras p&#xE9;treas gerais. &#xC9; tudo uma quest&#xE3;o de <strong>contrato</strong> e <strong>relacionamento</strong>. Contratos dizem o b&#xE1;sico do que voc&#xEA; pode ou n&#xE3;o fazer. Relacionamento te d&#xE1; uma ideia do que o licenciante vai deixar voc&#xEA; fazer, ou at&#xE9; que ponto voc&#xEA; pode negociar.<br>
Provavelmente n&#xE3;o vai ter nenhuma cl&#xE1;usula no contrato de licenciamento falando especificamente de concursos culturais e fanart - mas espera-se que o licenciado utilize apenas material oficial na hora de vender o produto licenciado. Se o licenciado realiza um concurso cultural sem aprova&#xE7;&#xE3;o, ele pode n&#xE3;o estar infringindo nenhuma cl&#xE1;usula do contrato, mas vai estar arriscando o bom relacionamento com o licenciante. Se ele pedir permiss&#xE3;o, o licenciante pode ceder, mas provavelmente vai ter um monte de perguntas: Quem vai organizar? Quais s&#xE3;o as regras? Quem vai garantir a qualidade do produto? O que voc&#xEA; vai fazer com o vencedor? Ele vai receber algum pr&#xEA;mio? Voc&#xEA; pretende usar a arte de alguma forma? etc.</p>
<p>Um adendo importante: o vencedor do concurso tamb&#xE9;m vai ter direitos sobre como a obra dele &#xE9; utilizada, e &#xE9; por isso que &#xE9; importante estabelecer as regras do concurso com bastante cuidado (e se voc&#xEA; for um participante, ler com muito cuidado).</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">acho legal esclarecer a quest&#xE3;o da &quot;escolha&quot; dos anim&#xEA;s pra dublar, pessoal anda com d&#xFA;vidas nisso. se tem a ver com o CR estar no comit&#xEA; de produ&#xE7;&#xE3;o desses anim&#xEA;s, se preciso mudar contrato da licen&#xE7;a anterior pra ter autoriza&#xE7;&#xE3;o/direito &#xE0; dublagem, se tem que pagar mais...</p>&#x2014; cansado e puto. (@LeoKitsune) <a href="https://twitter.com/LeoKitsune/status/1085951522335326208?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Dublagens s&#xE3;o caras. Dublagens s&#xE3;o ordens de grandeza mais caras que legendas. Dublar 12 epis&#xF3;dios de 25 minutos no Brasil vai custar algo entre 30 e 80 mil reais, dependendo do est&#xFA;dio, n&#xFA;mero de vozes, quantidade de falas, tempo de produ&#xE7;&#xE3;o, etc., incluindo todos os custos de est&#xFA;dio e p&#xF3;s-produ&#xE7;&#xE3;o. Por compara&#xE7;&#xE3;o, pela <a href="https://www.sintra.org.br/site/?p=c&amp;pag=precos">tabela do SINTRA</a>, esses mesmos epis&#xF3;dios v&#xE3;o custar em torno de 10 mil reais para serem legendados.<br>
O modelo de neg&#xF3;cios da Crunchyroll se baseia no fato de que, embora a grande maioria dos animes atraia um p&#xFA;blico bem nichado, o custo de legendar e distribuir os animes (al&#xE9;m de desenvolver a plataforma e todo o resto) &#xE9; baixo o suficiente para viabilizar o custo das licen&#xE7;as. Ent&#xE3;o mesmo um <a href="http://www.crunchyroll.com/fist-of-the-blue-sky-regenesis">Fist of the Blue Sky: Regenesis</a>, que s&#xF3; tem <a href="https://myanimelist.net/anime/36655/Souten_no_Ken__Regenesis">8 mil f&#xE3;s no MAL</a>, tem um p&#xFA;blico grande o bastante pra justificar os custos de licenciamento (Para refer&#xEA;ncia, My Hero Academia tem mais de 500 mil f&#xE3;s).<br>
Mas dublagens s&#xE3;o caras - e tem um p&#xFA;blico que gosta, mas ele n&#xE3;o &#xE9; 3 a 8 vezes maior do que o p&#xFA;blico que assiste legendado. Pra justificar um custo maior, voc&#xEA; tem que encontrar alguma maneira de obter mais receita em cima deles.<br>
Para ilustrar o ponto, vamos pegar a Funimation. Ela &#xE9; a maior empresa de <em>home video</em> de anime dos EUA, e ela dubla todos os t&#xED;tulos que ela licencia. Ela consegue isso porque:</p>
<ul>
<li>Ela tem um est&#xFA;dio pr&#xF3;prio e bastante material para fazer sua divis&#xE3;o de dublagem trabalhar sem ficar ociosa, reduzindo bastante os custos de dublagem.</li>
<li>Ela alcan&#xE7;a um p&#xFA;blico maior n&#xE3;o s&#xF3; com a plataforma de streaming mas tamb&#xE9;m com a venda de DVDs e BDs, o que compensa parte dos custos.</li>
<li>Ela sabe que s&#xF3; vai conseguir colocar os animes dela no bloco da Toonami do Cartoon Network se dublar os t&#xED;tulos (No momento, a Toonami exibe as seguintes s&#xE9;ries: <em>Dragon Ball Super, Boruto: Naruto Next Generations, My Hero Academia, Mob Psycho 100, Megalo Box, JoJo&apos;s Bizarre Adventure: Diamond Is Unbreakable, Black Clover, Hunter x Hunter, Naruto: Shippuden, Attack on Titan, Pop Team Epic, Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans</em>), e isso &#xE9; uma fonte de renda bastante importante pra eles.</li>
<li>A exposi&#xE7;&#xE3;o do anime na Toonami vai movimentar mais ainda a plataforma e as vendas de DVDs e BDs.</li>
<li>E por a&#xED; vai.</li>
</ul>
<p>A Crunchyroll opera parecido. S&#xF3; faz sentido dublar s&#xE9;ries se ela for compensar mais pra frente, seja com home video, seja com TV, seja com merchandising, cinema, etc - e ela s&#xF3; vai fazer isso com s&#xE9;ries que ela <strong>pode</strong> fazer isso. A Toei tamb&#xE9;m - ela n&#xE3;o vai redublar One Piece (ou dublar as centenas de epis&#xF3;dios que restam) a menos que exista alguma emissora disposta a pagar para ter a s&#xE9;rie dublada, porque a&#xED; ela pode vender camiseta de One Piece na Piticas, caderno de One Piece na Tilibra, DVD de One Piece da Playarte e um monte de gente vai comprar.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Como fica a quest&#xE3;o das m&#xFA;sicas? Tem que negociar com cada banda/artista ou depende do tipo de licen&#xE7;a de cada anime?</p>&#x2014; Chami (@chamiitoo7) <a href="https://twitter.com/chamiitoo7/status/1085951937806241798?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Meio que o grande problema envolvendo m&#xFA;sicas e tradu&#xE7;&#xF5;es de letra e tal &#xE9; a JASRAC, a ECAD japonesa. Eles s&#xE3;o bastante... estritos quando o assunto &#xE9; letra de m&#xFA;sica, visto que letra de m&#xFA;sica &#xE9; parte indissoci&#xE1;vel da m&#xFA;sica, e assim como esta, tamb&#xE9;m &#xE9; protegida por direitos autorais. Isso levou a uma s&#xE9;rie de decis&#xF5;es question&#xE1;veis ao longo dos anos, como <a href="https://dannychoo.com/en/posts/jasrac">esta not&#xED;cia de 2010,</a> na qual eles anunciaram que queriam multar qualquer um que postasse letras de m&#xFA;sica no Twitter, ou <a href="https://keisenassociates.com/jasrac-faces-criticized-for-new-copyright-claims-against-music-schools/">esta not&#xED;cia</a> na qual eles anunciaram que queriam come&#xE7;ar a cobrar taxas de licenciamento musical das escolas de m&#xFA;sica.</p>
<p>O &#xFA;nico jeito de garantir-se salvo desse tipo de a&#xE7;&#xE3;o judicial &#xE9; negociar o uso da letra com a gravadora de m&#xFA;sica, mas &#xE9; um processo complicado, pra n&#xE3;o entrar em detalhes. Mas a ideia geral &#xE9; essa.</p>
<!--kg-card-end: markdown-->]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Respondendo perguntas sobre licenciamento]]></title><description><![CDATA[Respostas para algumas das dúvidas mais comuns sobre licenciamento de animes e mangás]]></description><link>https://arara.me/perguntas-licenciamento-1/</link><guid isPermaLink="false">637081fe14838d0001959b87</guid><category><![CDATA[Coluna]]></category><dc:creator><![CDATA[Arara]]></dc:creator><pubDate>Fri, 18 Jan 2019 14:51:49 GMT</pubDate><media:content url="https://arara.me/content/images/2019/01/maoyuu.jpg" medium="image"/><content:encoded><![CDATA[<!--kg-card-begin: markdown--><img src="https://arara.me/content/images/2019/01/maoyuu.jpg" alt="Respondendo perguntas sobre licenciamento"><p>Eu perguntei <a href="https://twitter.com/arara_/status/1085950938160996352">nesta thread aqui</a> que d&#xFA;vidas as pessoas t&#xEA;m a respeito de licenciamento, e vou responder algumas delas agora e outras em posts subsequentes.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><p></p><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">&#xC9; muito caro licenciar uma transmiss&#xE3;o oficial?</p>&#x2014; Allvo, the Paladin (@PaladinAllvo) <a href="https://twitter.com/PaladinAllvo/status/1085951065806249985?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Quanto custa em m&#xE9;dia para o servi&#xE7;o de streaming licenciar o anime pra exibir em sua plataforma? O custo varia de acordo com a popularidade da franquia e/ou epis&#xF3;dios? Tbm queria saber se tem q pagar pra cada pa&#xED;s/regi&#xE3;o que a obra vai ser exibida ou &#xE9; uma permiss&#xE3;o total?</p>&#x2014; Ddrion (@Ddrion_) <a href="https://twitter.com/Ddrion_/status/1085970303954677760?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Depende do que voc&#xEA; considera caro. Em geral, contratos de licenciamento (de qualquer g&#xEA;nero) estipulam dois n&#xFA;meros:</p>
<ul>
<li>o <em>minimum guarantee</em> (garantia m&#xED;nima, muitas vezes abreviada pra MG) &#xE9; um valor fixo que o licenciado precisa pagar pro licenciante, independente das vendas ou do sucesso do produto. Este valor obviamente varia muito de acordo com o que est&#xE1; sendo licenciado, mas geralmente gira em torno das centenas de milhares de d&#xF3;lares.</li>
<li>o <em>revenue share</em> (parcela da receita) &#xE9; uma parcela em cima da receita gerada pelo produto, ap&#xF3;s descontados custos de produ&#xE7;&#xE3;o, marketing, o pr&#xF3;prio MG, etc. Este valor tamb&#xE9;m vai variar bastante, mas costuma girar em torno de 25% para home video. A Crunchyroll opera com revenue share de 50/50 com as distribuidoras japonesas.</li>
</ul>
<p>Todos os valores de contratos s&#xE3;o confidenciais para beneficiar os dois envolvidos - mas, &#xE0;s vezes, alguns valores emergem. A Netflix gastou <a href="https://www.nytimes.com/2018/12/04/business/media/netflix-friends.html">100 milh&#xF5;es de d&#xF3;lares</a> pra licenciar os 200 e poucos epis&#xF3;dios de Friends, ao custo de 500 mil d&#xF3;lares por epis&#xF3;dio. O <a href="http://www.escapistmagazine.com/news/view/115579-Court-Documents-Reveal-Anime-Licensing-Costs">famoso caso de fal&#xEA;ncia da ADV</a> nos EUA abriu os custos de MG das licen&#xE7;as de home video (DVDs e Blu-Rays) de uma s&#xE9;rie de t&#xED;tulos de anime e &#xE9; um &#xF3;timo exemplo do quanto eles variam.</p>
<p>O que define esses valores s&#xE3;o uma s&#xE9;rie de fatores, e nenhum deles facilmente calcul&#xE1;veis. Se muitas empresas est&#xE3;o querendo uma determinada licen&#xE7;a, naturalmente o licenciante vai aumentar o pre&#xE7;o para lucrar mais. O tipo de licen&#xE7;a afeta os termos - quanto mais arriscada a proposta, mais alto &#xE9; o MG, porque o licenciante n&#xE3;o vai se meter no risco &#xE0; toa. Um licenciante pode baixar o pre&#xE7;o de uma determinada licen&#xE7;a se acreditar que isso lhe trar&#xE1; mais lucro pelas outras - por exemplo, pode oferecer a um baixo pre&#xE7;o a licen&#xE7;a de transmiss&#xE3;o de TV de um anime sobre brinquedos (onde sua renda vir&#xE1; de anunciantes) para popularizar a linha de brinquedos e aumentar a receita por um canal mais rent&#xE1;vel.</p>
<p>Todos os fatores mencionados pelo @Ddrion_ influenciam, e muito mais. Custa mais pra licenciar um mang&#xE1; na Fran&#xE7;a, onde o mercado &#xE9; maior e mais rent&#xE1;vel, do que na Turquia. Custa mais pra licenciar Evangelion (um dos animes mais populares do mundo) do que um lan&#xE7;amento desconhecido da temporada de um est&#xFA;dio completamente novato sem ningu&#xE9;m famoso. Os 850+ epis&#xF3;dios de One Piece v&#xE3;o custar bem mais caro que os 26 de Darling in the FRANXX.</p>
<p>No fundo, &#xE9; tudo uma quest&#xE3;o de percep&#xE7;&#xE3;o: quanto mais dinheiro o licenciante acha que pode obter com a explora&#xE7;&#xE3;o de sua licen&#xE7;a numa determinada regi&#xE3;o, mais dinheiro ele vai pedir para ceder essa licen&#xE7;a.</p>
<p>Em suma, licenciar uma s&#xE9;rie de animes vai custar centenas de milhares de d&#xF3;lares. Pode parecer bastante, mas quando o custo de produ&#xE7;&#xE3;o de um cour de anime gira em torno de <a href="https://www.animenewsnetwork.com/interest/2015-08-13/anime-insiders-share-how-much-producing-a-season-costs/.91536">2 milh&#xF5;es de d&#xF3;lares em m&#xE9;dia</a>, as coisas come&#xE7;am a fazer mais sentido.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Os licenciamentos s&#xE3;o feitos por cada pa&#xED;s ou blocos de pa&#xED;ses? Tem como um empresa licenciar algo para um pa&#xED;s, n&#xE3;o exibir nele e bloquear a licen&#xE7;a para outras empresas dispostas a exibir o conte&#xFA;do nesse pa&#xED;s?</p>&#x2014; Fernando Henrique (@jimmy_yamazaki) <a href="https://twitter.com/jimmy_yamazaki/status/1085952170531393537?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Sobre a primeira pergunta: Varia de acordo com o licenciante. Essa &#xE9; a resposta mais comum pra qualquer pergunta de licenciamento porque o licenciante pode literalmente estabelecer as condi&#xE7;&#xF5;es que ele bem entender, desde que exista algum licenciado disposto a aceit&#xE1;-las.</p>
<p>Mas &#xE9; bastante comum o uso de blocos regionais ou lingu&#xED;sticos. Um bom exemplo disso s&#xE3;o as <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/DVD_region_code">&quot;regi&#xF5;es&quot; de DVD</a>. DVDs eram travados por regi&#xE3;o exatamente para viabilizar o licenciamento regional. Tamb&#xE9;m &#xE9; comum licenciar s&#xE9;ries para pa&#xED;ses que falam uma determinada l&#xED;ngua (ingl&#xEA;s, espanhol, alem&#xE3;o).</p>
<p>Esse tipo de trava regional existe para que o licenciante tenha mais flexibilidade na hora de escolher seus parceiros de neg&#xF3;cios. No caso do mercado de streaming de anime, por exemplo: uma distribuidora pode escolher fazer um acordo com alguma empresa com alcance global (Netflix, Amazon, Crunchyroll) ou fazer um mix de empresas com alcance regional capazes de lan&#xE7;ar o anime em DVD se for um sucesso (Funimation - EUA, HIDIVE/Sentai - Americas, Wakanim - Alemanha/Fran&#xE7;a/R&#xFA;ssia, Anime on Demand - Reino Unido, etc.) As vantagens de uma ou outra variam muito, e os valores tamb&#xE9;m. A Netflix vai exp&#xF4;r seu anime pra uma audi&#xEA;ncia gigantesca, mas com meses de atraso, e o hype acaba morrendo r&#xE1;pido, enquanto empresas que fazem simulcast v&#xE3;o manter o hype da sua obra por v&#xE1;rios meses. Licenciar pra Funimation significa perder o mercado latino-americano, visto que eles n&#xE3;o t&#xEA;m presen&#xE7;a aqui, mas eles tamb&#xE9;m t&#xEA;m a maior opera&#xE7;&#xE3;o de home v&#xED;deo de anime dos EUA.</p>
<p>Sobre a segunda pergunta: sim, &#xE9; poss&#xED;vel. Se um licenciado tem uma licen&#xE7;a exclusiva para uma determinada regi&#xE3;o, o licenciante n&#xE3;o pode mais ceder essa licen&#xE7;a pra outra empresa at&#xE9; o fim do per&#xED;odo estipulado - isso configuraria quebra do contrato. Quanto a n&#xE3;o-explora&#xE7;&#xE3;o dos direitos, ela s&#xF3; configura quebra de contrato se houver algo no mesmo que obriga o licenciado a explorar os direitos em um determinado per&#xED;odo de tempo. O que pode acontecer, por&#xE9;m, &#xE9; o licenciante n&#xE3;o querer trabalhar com um licenciado que n&#xE3;o faz nada com a licen&#xE7;a, e decidir n&#xE3;o fechar novos contratos com ele.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">restri&#xE7;&#xE3;o geogr&#xE1;fica, basicamente. ainda n&#xE3;o entendo como um anime &#xE9; licenciado pros EUA e n&#xE3;o pra c&#xE1;, sendo que &#xE9; tudo Crunchyroll</p>&#x2014; Seiwota (@diegontijo) <a href="https://twitter.com/diegontijo/status/1085951566748753921?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Al&#xE9;m do ponto discutido acima, &#xE9; importante entender como funciona a quest&#xE3;o de sublicenciamento. Existem empresas distribuidoras cujo modelo de neg&#xF3;cios consiste em adquirir licen&#xE7;as e revend&#xEA;-las para outras empresas explorarem. Uma bastante famosa aqui no Brasil &#xE9; a <a href="http://www.televix.com/">Televix</a>, que entre muitas coisas foi a respons&#xE1;vel por trazer Captain Tsubasa para o Cartoon Network ano passado, por exemplo. Ela adquire a s&#xE9;rie com o distribuidor japon&#xEA;s e explora/repassa os direitos na Am&#xE9;rica Latina, licenciando para redes de TV, empresas de home video, servi&#xE7;os de streaming, etc.</p>
<p>E &#xE0;s vezes, a Crunchyroll obt&#xE9;m a licen&#xE7;a de streaming atrav&#xE9;s de outra companhia que n&#xE3;o a distribuidora japonesa - por exemplo, atrav&#xE9;s das empresas americanas de home video (Funimation, Sentai Filmworks, Discotek, etc.) - que s&#xF3; tem direitos para uma determinada regi&#xE3;o. &#xC9; por isso que <a href="https://www.crunchyroll.com/akira">Akira</a>, por exemplo, s&#xF3; est&#xE1; dispon&#xED;vel na CR nos EUA: a licen&#xE7;a foi obtida atrav&#xE9;s da Funimation, que obteve os direitos de streaming quando licenciou o DVD/BD.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">H&#xE1; animes que s&#xE3;o proibidos de serem licenciados para determinados pa&#xED;ses ou algo do tipo?</p>&#x2014; Um Fido (@um_Fido) <a href="https://twitter.com/um_Fido/status/1085955587224072195?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Proibido... pelo pa&#xED;s? A China censura a entrada de alguns t&#xED;tulos. A Fran&#xE7;a proibiu Kinnikuman por causa do Brocken Jr., um personagem que veste uniforme nazista, com su&#xE1;stica e tudo, e &#xE9; um dos mocinhos. O epis&#xF3;dio 1 de Osomatsu-san foi removido de tudo quanto &#xE9; lugar por ter violado um monte de copyrights. Mas n&#xE3;o sei de nenhum caso que o pr&#xF3;prio licenciante se recusa a licenciar suas obras pra algu&#xE9;m.</p>
<p>Na moral, &#xE9; bem parecido com <a href="https://jogos.uol.com.br/ultimas-noticias/2015/04/21/conheca-o-homem-por-tras-das-proibicoes-de-doom-e-carmageddon-no-brasil.htm">Doom e Carmageddon serem banidos no Brasil</a>.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">O Watsuki vai ganhar alguma coisa com o Jump Force?</p>&#x2014; Rafael Augusto (@Mdmonchito) <a href="https://twitter.com/Mdmonchito/status/1085965231715700736?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>99% de certeza que vai. O autor de um mang&#xE1; recebe uma parcela de toda a receita proveniente de licen&#xE7;as de sua obra - e isso inclui o uso de um de seus personagens em um videogame. Isso s&#xF3; n&#xE3;o vai acontecer se, por algum motivo inexplic&#xE1;vel, o Watsuki abriu m&#xE3;o de todos os direitos de Samurai X quando fechou acordo com a Shueisha, o que eu acho extremamente improv&#xE1;vel.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Exig&#xEA;ncias de tradu&#xE7;&#xE3;o (por assim dizer) de certos termos e nomes acontecem mesmo? Algum exemplo (nao-Jojo)?</p>&#x2014; Marcelo Sahgo (@SahgoDN) <a href="https://twitter.com/SahgoDN/status/1086069822708797445?ref_src=twsrc%5Etfw">January 18, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Acontecem. N&#xE3;o posso citar nomes de projetos espec&#xED;ficos por quest&#xF5;es de NDA, mas &#xE9; relativamente comum recebermos listas oficiais de romaniza&#xE7;&#xE3;o de nomes. Algo bastante comum &#xE9; quando uma distribuidora grande pede que sigamos o padr&#xE3;o de nomes de alguma obra publicada anteriormente na regi&#xE3;o (ex.: mang&#xE1;, anime dublado, etc).</p>
<!--kg-card-end: markdown--><figure class="kg-card kg-embed-card"><blockquote class="twitter-tweet"><p lang="pt" dir="ltr">Ter direito a uma serie, daria direito a explorar alem do que o fornecedor deu? por exemplo, anime A pego dos eua tem uns epis faltando ou algumas mudan&#xE7;as, eles podem trabalhar em cima disso, buscar raw e lan&#xE7;ar dos epis&#xF3;dios que faltam?&#x1F914;</p>&#x2014; Guto (@SliterKitsune) <a href="https://twitter.com/SliterKitsune/status/1085964216195051521?ref_src=twsrc%5Etfw">January 17, 2019</a></blockquote>
<script async src="https://platform.twitter.com/widgets.js" charset="utf-8"></script>
</figure><!--kg-card-begin: markdown--><p>Quando voc&#xEA; fecha um contrato de licenciamento, voc&#xEA; especifica exatamente os materiais que est&#xE1; licenciando: cap&#xED;tulos tais e tais de tal mang&#xE1;, epis&#xF3;dios tais e tais de tal anime. &#xC9; obriga&#xE7;&#xE3;o do licenciante te fornecer esses materiais numa qualidade adequada. Se ele n&#xE3;o fornece, a&#xED; a coisa fica bem modorrenta, e provavelmente vai exigir muita l&#xE1;bia, negocia&#xE7;&#xE3;o, esfor&#xE7;o e recursos gastos.</p>
<!--kg-card-end: markdown--><!--kg-card-begin: markdown--><p>Aqui acaba a primeira parte das perguntas e respostas. A pr&#xF3;xima parte sai em breve. Se voc&#xEA; tem alguma d&#xFA;vida a respeito do assunto, pode deixar um coment&#xE1;rio ou adicionar na <a href="https://twitter.com/arara_/status/1085950938160996352">thread do Twitter</a>!</p>
<!--kg-card-end: markdown-->]]></content:encoded></item></channel></rss>